Chefe de buscas prevê dificuldades para resgatar corpos do AF 447

Como corpos estão há dois anos no fundo do mar a profundidade de 3,9 mil metros, instituto não sabe se robô conseguirá resgatá-los

BBC Brasil |

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Os especialistas franceses que vão tentar resgatar as vítimas do voo AF 447 da Air France, que caiu no Atlântico em 2009, não sabem se o estado dos corpos permitirá que eles sejam levados à superfície, disse à BBC Brasil o coronel François Daust, diretor do Instituto de Pesquisas Criminais da Polícia Militar francesa (IRCGN, na sigla em francês), responsável por essas operações.

O instituto possui um centro especializado na identificação de vítimas de catástrofes. Três especialistas dessa unidade (um legista e dois peritos em identificação de corpos) estão a bordo do navio francês Ile de Sein, que já chegou à área de buscas dos destroços.

"Essa será a operação mais difícil que já realizamos", diz o diretor do instituto, que já atuou em 38 grandes catástrofes, como o tsunami no Sudeste Asiático, o acidente com o avião Concorde, em 2000, o terremoto no Haiti e também em outros casos de queda de aviões no mar.

O voo 447 da Air France fazia a rota Rio-Paris e caiu no Atlântico em 31 de maio de 2009 (pelo horário brasileiro), matando 228 pessoas. Apenas 50 corpos foram resgatados logo após o desastre, sendo 20 deles de brasileiros.

AFP
Navio Ile de Sein chegou na manhã desta terça-feira (26) ao Brasil. Ele partir de Dakar no último dia 22

Profundidade

A operação é "muito complicada", diz Daust, porque os corpos do avião da Air France estão há quase dois anos no fundo do mar e também a uma grande profundidade, de 3,9 mil metros.

"No acidente aéreo na costa de Sharm el Sheikh (no Egito, em 2004, que matou 148 pessoas), não pudemos resgatar os corpos a 800 metros de profundidade, e isso somente um mês após a catástrofe", afirma.

"Os robôs não conseguiam recuperar os corpos sem danificá-los totalmente. Por isso, desistimos de resgatá-los", diz o coronel.

É certo que as temperaturas da água no litoral egípcio eram bem mais elevadas do que no caso do avião da Air France, que devem se situar entre 4 e 5°C, o que teoricamente facilitaria sua conservação, diz Daust.

"Mas apesar das temperaturas serem mais baixas, elas não são de congelamento e dois anos se passaram. Não sabemos o grau de fragilidade dos corpos e se eles resistirão à manipulação do robô."
O coronel afirma que o estado real de conservação dos restos humanos só será conhecido após as primeiras tentativas de resgate. "Só saberemos se ainda restam tecidos humanos após levar os primeiros corpos à superfície", acrescenta.

Além disso, a fortíssima pressão da água a quase quatro quilômetros de profundidade mantém a estrutura corporal coesa na água. A diminuição da pressão, quando o corpo é içado, pode causar o deslocamento dos ossos, diz Daust.

"Por esse motivo, não quisemos nenhum representante das famílias a bordo do navio. Se os testes forem negativos, seria muito doloroso para eles", afirma.

A associação brasileira dos familiares das vítimas contesta, no entanto, a recusa das autoridades francesas em permitir a presença de um representante dos parentes a bordo.

Espalhados

Segundo o coronel, a grande maioria dos corpos do voo AF 447 deve estar espalhada no fundo do mar e não presa aos assentos, "como normalmente ocorre em acidentes desse tipo".

Daust afirma ainda que, com base em informações da Justiça francesa, haveria "dezenas de corpos" na área dos destroços, localizados no início de abril.

Os especialistas do instituto francês tentarão colocar os corpos em um tipo de "cesto" para levá-los a superfície, uma operação que levaria, a cada tentativa, dez horas no total.

Somente para içá-los levaria duas horas, diz Daust. O objetivo é evitar uma mudança brusca de temperatura, outro fator que agravaria o estado de conservação dos corpos.

Segundo o diretor do instituto, se os corpos puderem ser resgatados, eles serão identificados na França.
A Interpol será encarregada de solicitar às autoridades brasileiras o material genético das famílias do Brasil e transferi-lo ao Instituto de Pesquisas Criminais da França.

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