BEA nega acusações de manipulação do relatório do voo 447

Grupo questionou o órgão francês após omissão de possível mau funcionamento no alarme de queda do Airbus

iG São Paulo |

O Escritório de Investigação e Análise (BEA), responsável pelas investigações sobre o acidente do voo 447 que fazia rota Rio-Paris em 2009, negou nesta quarta-feira as acusações de manipulação lançadas pela imprensa francesa, por familiares das vítimas e pelo sindicato de pilotos da Air France. Em comunicado, o BEA reforçou que a investigação prossegue e que as conclusões anunciadas na sexta-feira (29) são "provisórias".

"As causas do acidente serão conhecidas durante a publicação do relatório final no primeiro semestre de 2012", indicou o BEA. A reação dos investigadores aconteceu depois que a imprensa francesa afirmou que no terceiro relatório provisório, o órgão teria eliminado uma parte que fazia referência a possíveis falhas no funcionamento do alarme de queda .

O BEA confirmou que eliminou essa parte porque seus investigadores consideraram que "era prematura neste momento das pesquisas". Por isso, decidiram tirar uma recomendação relativa ao funcionamento do alarme de queda livre do relatório preliminar enviado a Air France, ao proprietário do avião (Airbus) e ao sindicato de pilotos.

O órgão assegurou ainda que as investigações sobre as causas do acidente continuam e, em particular, a incidência do alarme de queda livre. O alarme acendeu e apagou em vários momentos, o que poderia ter confundido a tripulação levando a erro, disse o sindicato de pilotos.

Leia também: Sindicato de pilotos cancela participação em inquérito do voo 447

O órgão divulgou na sexta (29) um resumo do terceiro documento com as causas do acidente. A última parte da investigação foi elaborada com as informações obtidas das caixas-pretas e revelaria as causas do acidente (Veja o relatório completo em francês) . Com as definitivas causas do acidente divulgadas, o BEA emitiu dez novas recomendações de segurança , reforçando a necessidade de treinamentos para o comando manual de aeronaves em altas altitudes. 

Diante da repercussão da responsabilidade do acidente ser atribuída aos pilotos, a Air France continua afirmando, entretanto, que eles foram induzidos ao erro por um indicador de velocidade do avião, que apresentou falhas. Segundo nota divulgada nesta sexta pela companhia aérea , "nada permite colocar em dúvida as competências técnicas da tripulação". "Durante esta sequência de acontecimentos, a tripulação no comando, reunindo as competências dos dois copilotos e do comandante, fez prova de consciência profissional e comprometimento até o fim na condução do voo."

Sequência dos fatos

O relatório divulgado pelo BEA no fim de maio deste ano, produzido após a análise das caixas-pretas, permitiu reconstituir os últimos instantes de voo, mas as causas exatas do acidente ainda eram desconhecidas. Segundo a sequência dos fatos, cerca de dois minutos após o início dos problemas - os incidentes na cabine ocorreram entre 2h10 (23h10 do dia anterior em Brasília) e 2h14 (23h14) - o avião, que estava a uma altitude de 35 mil pés (cerca de 11 mil metros), começou a cair a uma velocidade vertical de 10 mil pés (3 mil metros) por minuto. A aeronave também começou a oscilar, subindo e descendo devido às rajadas de vento. Leia o diálogo dos pilotos e o histórico do voo .

Com o piloto automático desligado, os pilotos, por três minutos e meio, tentaram, por meio de manobras no manche, reverter a queda. O copiloto empurrou o manche para frente quando deveria tê-lo puxado, segundo relatório. Isso faria com que o avião descesse e não subisse. Desta forma,  o Airbus chegou a subir a 38 mil pés (11,5 mil metros), até que o alarme de perda da altitude disparou e o avião começou a cair novamente. Ainda segundo o relatório parcial, a queda da aeronave durou cerca de três minutos e trinta segundos - durante a descida, o airbus permaneceu em situação de perda de altitude, girando da esquerda para a direita. Neste momento, o avião estava posicionado a 35 graus (inclinação de queda).

Os últimos valores registrados pelas caixas-pretas são velocidade vertical de -10.912 pés/min, velocidade de solo de 107 nós (estava a 197,95 quilômetros por hora quando bateu no mar), altitude de 16,2 graus de elevação do nariz (bico da aeronave inclinado para cima), rolagem (curva) de 5,3 graus à esquerda e um rumo magnético de 270 graus (direção da aeronave apontava para oeste. Pela rota original, Paris fica a leste).

Até então, as investigações apontavam que um defeito nas sondas de velocidade (sensores) Pitot foi um dos fatores do acidente , mas sempre afirmou que a explicação definitiva só poderia ser conhecida quando fossem totalmente analisadas as caixas-pretas. Segundo as autoridades, o mau funcionamento das sondas não explicava por si só o acidente.

Após o acidente, a Justiça francesa abriu uma investigação judicial na qual o construtor aeronáutico europeu Airbus e a Air France foram acusados em março por homicídio culposo.

As duas caixas pretas - que registram os parâmetros de voo e as conversas na cabine dos pilotos - foram trazidas à superfície no início de maio deste ano, depois de passar 23 meses a 3.900 metros de profundidade no Oceano Atlântico . Elas foram encontradas durante a quarta operação de buscas dos destroços , quando o navio americano Alucia chegou à área das operações com previsão de explorar uma área de 10 mil quilômetros quadrados. As três operações de buscas realizadas anteriormente já haviam vasculhado outras áreas que totalizaram cerca de 7 mil quilômetros quadrados.

Cinquenta corpos foram resgatados logo após o acidente. Outros 104 chegaram à França em meados de junho . Entre as vítimas, de 32 nacionalidades, estão 72 franceses e 59 brasileiros.

*com AE, Reuters e EFE

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