Parente de vítima do voo 447 desabafa: "Um velório que não acaba nunca"

Relatório final das causas do acidente foi divulgado nesta quinta-feira, na França, mas parentes das vítimas dizem que dor está longe de terminar

Priscila Bessa - iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

Há três anos a administradora Lenita Rodrigues, 48 anos, sofre com a perda do companheiro, Roberto, vítima do acidente do voo 447 da Air France onde 228 pessoas perderam a vida. A divulgação do resultado final das investigações sobre as causas da tragédia, feita pelo Escritório de Investigação e Análise (BEA), foi realizada na manhã desta quinta-feira (5), na França.

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Apesar da apresentação do relatório, Lenita está longe de sentir que o sofrimento chegou ao fim. “Nossa filha perdeu o pai com apenas 3 anos de idade. Nossa vida se desmoronou e não tenho forças de prosseguir. É tudo muito difícil. Um velório que não acaba nunca. Procuro acompanhar todas as notícias, como que procurando se, por algum milagre, venham a localizá-lo ainda vivo, em algum canto do mundo. Não tive sequer o corpo dele para um enterro. Somente quem passa por isso pode compreender o que passamos. Essa dor ninguém tira mais de mim”, disse Lenita ao iG , que na véspera da divulgação do documento se mostrava descrente dos resultados.

“Mais do mesmo para muitos aqui: mais insônia, mais angústia. Um sentimento enorme de impotência, desesperança. Perdão, meu Deus, mas falta-me fé na humanidade!”, afirmou ela, na página dos familiares e amigos das vítimas criada em uma rede social.

“Angústia eterna”

AE
Parte do avião chegando no Recife, em Pernambuco, durante as buscas pelos destroços em 2009

A nutricionista Sylvie Lopes de Mello, que perdeu o irmão, o procurador federal Carlos Eduardo Lopes de Mello, de 33 anos, e a cunhada, Bianca Pires Cotta, de 25 anos, recém-formada em medicina, também demonstrou revolta com o resultado do relatório.

“A angústia será eterna pela impotência por nada podermos fazer, digo nada porque não podemos fazer com que todos voltem pra junto dos seus... Quem dera! Mas a insônia não deve tomar conta da gente Lenita Rodrigues, eles sim, os responsáveis por tanta dor, é que deveriam ficar sem paz... Bando de irresponsáveis! Mas vamos deixar Deus agir, a cada um deles caberá algo por tudo isso!”, postou Sylvie, que partilha da opinião da maioria dos familiares das vítimas.

Apesar das críticas, Maarten Van Sluys, da Associação das Famílias das Vítimas do Voo AF447 da Air France, que perdeu a irmã, Adriana Van Sluys, no acidente, comemora o resultado. “As 10 recomendações de segurança do BEA são um alento a nossa luta de 3 anos. O conteúdo tira dos pilotos o jugo de terem sido os causadores da tragédia. As falhas técnicas foram evidenciadas bem como a debilidade da empresa Air France na sua concepção de prevenção de acidentes e na falta de preparo (treinamento) para seus tripulantes”, publicou Maarten na comunidade.

Segundo ele, os parentes irão aguardar a decisão judicial da Justiça francesa que deve ocorrer no dia 10 de julho para dar um próximo passo. “Em caráter imediato vamos retomar o pedido de indiciamento penal da Air France em território brasileiro. O conteúdo do relatório final do BEA confere amplo e notório respaldo jurídico para isso”, afirmou.

O avião, um Airbus A330 da companhia aérea Air France, caiu nas águas do Atlântico quase quatro horas após ter decolado do Aeroporto do Galeão com 216 passageiros a bordo, a maior parte deles franceses e brasileiros, e 12 membros da tripulação. No relatório preliminar divulgado em julho do ano passado, dois meses após as duas caixas pretas do Airbus A330 terem chegado à França para serem analisadas, o BEA já havia dado destaque aos erros dos pilotos na tragédiaVeja abaixo como foram os momentos que antecederam a queda: 

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