Parente de vítima do voo 447: “Não foi um acidente! Foi um crime de omissão”

Lenita Rodrigues, que perdeu o marido no acidente, critica relatório final divulgado pelo Escritório de Investigação e Análise

Priscila Bessa iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

“Quando eu penso que a ferida está cicatrizando, sou obrigada a ouvir perguntas sem respostas. ‘Mamãe, ele não podia sair pela janela?´, ´Mas mamãe por que ele não foi de carro? Ele não sabia que o avião ia cair?’. Então choramos juntas, abraçadas, mais uma vez!”, conta a administradora Lenita Rodrigues, de 48 anos, sobre o dia a dia ao lado da filha, Cecília, de 6 anos, que perdeu o pai, Roberto, há três.

Roberto é uma das 228 vítimas do acidente do voo 447 da Air France, ocorrido em 31 de maio de 2009, e que não deixou sobreviventes. Desde então, Lenita lida com a dor da saudade e a incansável luta por justiça. Na manhã desta quinta-feira (5), o Escritório de Investigação e Análise (BEA) divulgou o resultado final do relatório sobre as causas da tragédia.

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A seguir a entrevista com a administradora que enumera questões não esclarecidas pelo BEA, diz que não se surpreendeu com o resultado do relatório e quer justiça. “Sequer estão utilizando esse acidente para evitar futuros. Não deixem que nenhuma outra criança perca o pai, pela ganância da indústria aérea”.

iG: O relatório aponta que as causas do acidente são as mesmas evidenciadas pelo documento divulgado em julho do ano passado, destacando falha humana e técnicas. O que achou do resultado?
Lenita Rodrigues: Falha humana? Durante a apresentação do relatório agora há pouco (quarta-feira), uma repórter fez a pergunta sobre a interação homem x máquina. Houve uma resposta evasiva do BEA. Não citaram que os pilotos recebiam uma informação do painel de controle distinto do que estava ocorrendo na prática. Não explicaram por que os pitots (instrumento de medição de velocidade) congelaram uma vez que, em altitude de cruzeiro, 40º celsius de altitude, tudo congela, daí haver um sistema de aquecimento. Por que este não funcionou? O BEA não soube dizer. O ADIRU, computador de bordo, já é condenado em diversos informativos técnicos no mundo, mas também não foi explicado por que ele dava informações divergentes para confundir os pilotos.

iG: Então você não atribui responsabilidade aos pilotos?
Lenita Rodrigues: Sobre outro questionamento, quanto a afirmação do próprio BEA de que "Nenhuma tripulação no mundo salvaria esse vôo. E, talvez, somente talvez, pilotos de caça militares, pudessem salvá-lo", o BEA se limitou a dizer que não houve evidências de fadiga da tripulação e que foram ativos durante todo o trajeto. Ora, fica claro que não há treinamento adequado para situações dessa natureza.

iG: O que achou das recomendações de segurança do BEA?
Lenita Rodrigues: O relatório apresentado limitou a 13 recomendações , sendo oito sobre os pilotos e cinco sobre certificações dos aviões. É importante entender que as oito não significam falha dos pilotos, mas falhas do mercado aeroviário, a medida que usam os passageiros e tripulação como cobaias de seus novos modelos de avião sem testar, à exaustão, todas as possíveis situações de risco. Como agravante escamoteiam, amenizam os riscos já identificados e conhecidos, continuando a manter os mesmos aviões, partes e peças e o mesmo treinamento de forma inconsequente.

iG: Pela primeira vez o BEA admite que os pilotos foram induzidos ao erro pelo instrumento que guia o voo e deve ser seguido sempre pelos pilotos. Essa ressalva é uma justificativa suficiente para você?
Lenita Rodrigues: Como disse, eles foram evasivos e amenizadores com o equipamento. Na verdade com seus fabricantes e Air France. Por força desse acidente, acabei descobrindo que, nesse meio, há uma diferença entre o fabricante recomendar uma troca da peça e obrigar uma troca da peça. A diferença é quem paga a conta. Se for obrigatório, o fabricante troca sem custos ao proprietário. Se for recomendado, quem paga a conta é o proprietário, no caso concreto, a Air France. O BEA não citou nada disso.

iG: O relatório do BEA começou frisando que o objetivo não era identificar culpados. O que achou disso?
Lenita Rodrigues: A justiça é responsabilidade do judiciário. Ora, não é preciso QI elevado para entender o que está por trás dessa afirmação. Um trabalho de perícia efetivamente imparcial permite identificar responsabilidades e, se criminosa, seja por omissão, seja por ação, instrumentalizar o judiciário para as providências cabíveis. O BEA se limitou a culpar os pilotos, amenizando todos os demais problemas técnicos simultâneos que aconteceram durante aquele voo. Ou seja, sequer estão utilizando esse acidente para evitar futuros. E, aqui, faço um apelo à imprensa e as autoridades: não deixem que nenhuma outra criança perca o pai, pela ganância da indústria aérea. Não foi um acidente. Foi um crime de omissão.

iG: Esse resultado já era esperado?
Lenita Rodrigues: Sim, infelizmente.

iG: O que pretende fazer de agora em diante? Pensa em mais alguma medida legal?
Lenita Rodrigues : Quero a verdade e a justiça.

iG: Você disse que tudo isso é como se fosse um velório que não acaba nunca. Acredita que agora poderá tentar colocar um fim a esse processo tão doloroso que vive desde então?
Lenita Rodrigues: Concluir o velório? É o que mais quero, mas não é tão simples. Minha dor não é só minha. É também da minha filhota que ficou sem pai. Quando eu penso que a ferida está cicatrizando, sou obrigada a ouvir perguntas sem respostas. Perguntas de quem tem saudades e cuja carência paterna, mesmo com toda minha dedicação exclusiva, eu jamais poderei suprir. Perguntas próprias da inocência das crianças e, tão pertinentes, que machucam até o coração dos sem-coração: "Mamãe, mas por que o avião caiu? ", "Mamãe, e ele não podia sair pela janela?", "Mas, mamãe, por que ele não foi de carro? Ele não sabia que o avião ia cair?". Então choramos juntas, abraçadas, mais uma vez! E ainda hoje, continuamos sem respostas. Ele tinha uma mania marcante de se despedir da gente. E até ao telefone, quando estava fora e voltando para casa, a frase era sempre a mesma: "A gente resolve isso na volta, papai vai trazer presente... Se o avião não cair". E ria. Ecoa no meu ouvido a mesma frase, que ouvi dele durante anos. Esquisito, mas ele sempre concluía a despedida assim: "Se o avião não cair".

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