"Nunca poderemos explicar", afirma BEA sobre manobra dos pilotos do voo 447

Para o chefe do grupo criado para estudar as decisões tomadas pelos pilotos do voo 447 da Air France, "a persistência em manter o bico do avião levantado é dificilmente explicável". Procedimento esperado seria baixar o nariz do aviãopara que ele recuperasse sua sustentação

Mário Camera - especial de Paris para o iG | - Atualizada às

Mesmo com divulgação das conclusões do relatório final da queda do voo 447  nesta quinta-feira (05), em Paris, pelo Escritório de Investigações e Análises (BEA, na sigla em francês), um pergunta permanece sem resporta: por que os pilotos que estavam no comando do Airbus A330 levantaram o nariz da aeronave, já que o procedimento normal naquela situação seria fazer o inverso?

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De acordo com a análise das caixas-pretas do avião , o piloto que estava no controle da aeronave após o piloto automático ser desligado tomou a atitude de levantar o nariz da aeronave para tentar ganhar altitude no momento em que a aeronave despencava. O procedimento normal teria sido o inverso, ou seja, baixar o nariz do avião para que ele recuperasse velocidadee sua sustentação.

AFP
Alain Bouillard, diretor do BEA, durante apresentação do relatório

Para Sébastien David, chefe do grupo chamado “fator humano”, criado pelo BEA exatamente para tentar descobrir o que teria levado os pilotos a adotar medidas que não condiziam com a situação, essa pergunta nunca será explicada. 

No entanto, Sébastien David faz, no máximo, especulações sobre o comportamento adotado pelos dois copilotos e pelo comandante durante o voo. “A persistência em manter o bico do avião levantado é dificilmente explicável. Pode ter sido o efeito surpresa após o desligamento do piloto automático, assim como uma vontade de (atingir) uma atmosfera mais clara (sobre as pesadas nuvens que o avião atravessava). Nunca poderemos explicar isso”, afirmou David, que admite que os problemas nos sensores pitot “confundiram” a tripulação.

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Apesar disso, o BEA insiste que as sondas pitot não podem ser as únicas responsáveis pela queda e que o acidente foi causado por uma série de fatores. Ao iG , Alain Bouillard, diretor das investigações, afirmou que “somente a perda dos dados de velocidade não podem, dentro do modelo de segurança, levar a uma catástrofe. É preciso que hajam outros fatores”. Para ele, além das falhas técnicas, uma “formação deficiente” dos pilotos também contribuiu para a queda do Airbus da Air France .

Erros de informação

Um dado novo divulgado no relatório final nesta quinta-feira é o comportamento do chamado "diretor de voo", instrumento que informa aos pilotos a trajetória a ser seguida. Segundo as análises do BEA, o aparelho também deu informações equivocadas aos pilotos. As indicações errôneas do diretor de voo, somadas ao congelamento dos sensores pitot e o disparo de diversos alarmes dentro da cabine, criaram uma situação de estresse extremo para os pilotos.

Isso poderia explicar o comportamento da tripulação, segundo Léopold Sartorius, responsável por analisar os dados contidos nas caixas pretas do Airbus A330, recuperadas no ano passado, a quatro mil metros de profundidade no meio do oceano Atlântico. “Nós não temos todos os dados do voo para descobrir o que realmente aconteceu”, afirmou Sartorius. “Mas 46 segundos após o desligamento do piloto automático, a tripulação já estava bastante estressada” tentando entender a situação.

Crítica brasileira

A ênfase dada ao erro humano como causa da queda do avião, em 31 de maio de 2009, irritou alguns familiares das 228 vítimas da tragédia, presentes no auditório do Museu do Ar e do Espaço. “O que faltou foi o governo francês dizer que tem um avião com defeito de fabricação e que vai corrigir esse problema”, afirmou Nelson Marinho, presidente da Associação de Familiares de Vítimas do AF447 no Brasil, que garante ter diversos relatórios de especialistas que acusam uma falha técnica como causa do acidente.

Marinho, que foi a Paris acompanhar a apresentação do relatório final, acusa os investigadores de serem parciais e estarem defendendo a Airbus, fabricante francesa do avião acidentado. “É o réu investigando-se a si próprio”, disse ao IG , ao fim da coletiva de imprensa.

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