Visita de Obama ao Brasil pode destravar comércio bilateral

Para analistas, Brasil ocupa lugar de destaque no cenário internacional e assinatura de acordos deve ampliar cooperação com EUA

Ilton Caldeira, iG São Paulo |

Após alguns impasses, a visita do presidente dos EUA, Barack Obama, neste fim de semana ao Brasil pode trazer avanços nas relações comerciais entre os dois países. Apesar de ainda não haver nenhuma sinalização concreta de Washington de que atenderá antigas reivindicações brasileiras, como a diminuição de barreiras a produtos agrícolas brasileiros, a histórica visita pode marcar o início de uma nova fase no relacionamento entre as duas nações. 

Para Creomar Lima de Carvalho Souza, professor de Relações Internacionais no Ibmec Brasília e especialista em economia internacional e dos EUA, a viagem de Obama ao Brasil é revestida de dois elementos. Segundo ele, é a primeira vez que um líder americano vem ao País antes de ter recebido um novo governante brasileiro em Washington. “Isso, por si só, representa uma quebra de paradigma e expõe o reconhecimento da importância do Brasil no atual cenário político global”, disse. 

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Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner (E), reúne-se em 24/02/2011 com chanceler do BRasil, Antonio Patriota (D), em Washington
Do lado comercial, segundo Lima, existe uma intenção clara dos EUA de ampliar as relações com o Brasil. De acordo com o especialista, há várias grandes empresas brasileiras com investimentos em solo americano. E, por outro lado, o Brasil precisa dos investimentos de Washington para melhorar a estrutura em diversos setores para preparar o País para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. “É preciso, de ambos os lados, estreitar as relações”, disse o professor do Ibmec. “E a chegada de Dilma Rousseff ao poder e a indicação de Antonio Patriota como ministro das Relações Exteriores é muito positiva nessa relação”, acrescentou Lima.

Segundo fontes do Itamaraty, o Brasil negocia com os EUA a ampliação de parcerias nas áreas comercial, de energia e defesa, tecnologia, cooperação espacial, educação e investimentos em conjunto em áreas de interesse mútuo.

Um acordo na área comercial deve ser um dos principais anúncios da visita de Obama, juntamente com um tratado na área de previdência que permitirá que imigrantes brasileiros nos EUA possam somar contribuições feitas nos dois países para obter benefícios como aposentadorias e pensões. Os textos finais dos acordos ainda estão sendo redigidos com a participação de representantes brasileiros e americanos.

O tratado comercial, por exemplo, prevê a criação de mecanismos para que as barreiras ao comércio e aos investimentos nos dois países sejam debatidas e solucionadas. Alguns dos principais entraves econômicos que podem ser abordados pelo acordo são barreiras sanitárias a produtos de origem animal, como carnes e frutas, além da simplificação de processos de importação e exportação. Mas o acordo não prevê redução de tarifas de importação entre os dois países nem a diminuição de cotas para produtos como açúcar, etanol, calçados, têxteis, ou a retirada de medidas antidumping sobre aço e suco de laranja.

A ampliação das negociações comerciais entre o Brasil e os EUA começou a ser tratada pelas autoridades diplomáticas em 2009, mas as discussões perderam intensidade após a assinatura de um acordo militar entre os Estados Unidos e a Colômbia, prevendo a concessão de uso de bases militares colombianas a soldados americanos; a crise em Honduras, com o golpe de Estado contra Manuel Zelaya; e a questão nuclear envolvendo o Irã, com o Brasil se unindo à Turquia para tentar intermediar um acordo. 

A assinatura de pactos não deverá causar efeitos imediatos e também não representa uma ampla abertura comercial entre os EUA e o Brasil no curto prazo. Mas o gesto é visto pelos especialistas em economia internacional como uma importante reaproximação e um resgate da confiança entre os países. 

“O Brasil e os EUA são grandes parceiros potenciais, e esse encontro com a presidenta Dilma servirá para aprimorar o relacionamento comercial e as relações econômicas de uma maneira geral entre os dois países”, avaliou Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O presidente americano e a presidenta Dilma devem abordar durante a visita a proposta da companhia americana Boeing, que tenta vender o caça F-18 modelo SuperHornet na concorrência FX-2, que prevê a modernização da frota de aviões de defesa da Aeronáutica brasileira. Outros casos pontuais do comércio bilateral só deverão ser discutidos na visita que Dilma fará a Washington, prevista para junho.

Balança comercial desfavorável

O Brasil também tem interesse em destravar as relações com os EUA o mais rápido possível para tentar reverter o crescente déficit comercial com os americanos. Os EUA já foram o principal parceiro do país e atualmente são o segundo principal destino das exportações brasileiras, atrás da China. O Brasil é o oitavo destino das exportações americanas.

Intercâmbio comercial

Dados sobre exportação e importação nas relações entre Brasil e Estados Unidos - (Em US$ bilhões)

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Fonte: Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC)

Em 2010, o déficit brasileiro nas relações comerciais com os EUA cresceu cerca de 75%, de US$ 4,430 bilhões em 2009 para US$ 7,731 bilhões no ano passado. Em 2010, os produtos mais vendidos para os EUA foram óleos, café, pastas químicas, ferro fundido e parte de motores para veículos.

Segundo os analistas, algumas questões contribuíram para o crescimento do déficit brasileiro: a valorização do real, a diversificação comercial com a ampliação das relações comerciais com outros países e uma pauta de exportação com ênfase nas commodities.

Na avaliação do professor Lima, do Ibmec Brasília, diversificar a pauta de exportações e os mercados com os quais o Brasil negocia é importante, mas o País não pode perder espaço no maior mercado consumidor do mundo. “Depois que se perde esse espaço é difícil retomá-lo”, disse Lima. “Os setores da economia americana são extremamente organizados e exigem do governo dos EUA a adoção de cotas e barreiras comerciais para proteger a atividade local contra a entrada de produtos do exterior”, completou.

Para Lacerda, da PUC-SP, o saldo comercial ficou desfavorável para o Brasil porque o real teve uma forte valorização e reduziu a competitividade dos produtos de maior valor agregado no mercado americano. “Mas o interesse dos EUA no Brasil é muito objetivo e a visita se dá num momento em que as posições se inverteram”, disse. “A economia americana atravessa uma fase difícil e a economia brasileira mostra sua força no período pós-crise. Isso é uma mudança importante na relação histórica entre os dois países e o Brasil deve utilizar isso a seu favor,” acrescentou Lacerda.

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