Petróleo virou 'carta na manga' para negociações com os EUA

Após visita de Obama a Brasília, governo brasileiro acredita ter ganho maior poder de barganha nos próximos acordos e conflitos

Danilo Fariello, iG Brasília |

A declaração da presidenta Dilma Rousseff ontem, de que a relação econômica e comercial entre Brasil e Estados Unidos tende a se tornar mais justa e equilibrada, não foi apenas uma sinalização de intenções ou de expectativa. Nas palavras de uma pessoa que integra a cúpula das negociações sobre comércio exterior no governo brasileiro, após a visita ficou claro que o Brasil terá, a partir de agora, uma “carta na manga” nas negociações: o petróleo.

Inversão do saldo comercial

Superávit tornou-se déficit nos últimos dois anos (US$ bilhões)

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Fonte: Secretaria de Comunicação Social


A relação comercial entre Brasil e EUA oscilou muito nos últimos anos e, atualmente, por conta do ritmo de crescimento dos dois países e de pressões cambiais inversas (de desvalorização do dólar e valorização do real), o saldo comercial foi revertido de positivo em quase US$ 10 bilhões para o Brasil em 2005 e 2006, para negativo em quase US$ 8 bilhões no ano passado.

O agravamento dessa reversão é interpretada no Brasil principalmente como consequência de barreiras comerciais impostas pelo governo americano, em que se destacam as tarifas protecionistas para commodities, como algodão e etanol. O algodão foi até tema de uma longa disputa entre os países, em que o Brasil conquistou no ano passado o reconhecimento de que subsídios ilegais eram dados pelos EUA .

Portanto, agora que o Brasil é plenamente conhecedor das expectativas dos EUA quanto ao petróleo brasileiro – vale destacar, até agora livre de revoltas que interfiram no seu fluxo de produção – e tem uma noção mais precisa do tamanho de suas reservas, o produto pode ser usado como item de negociações. “Ganhamos poder de barganha”, declara a fonte do governo.



Obama lavou as mãos por protecionismo

Além do discurso oficial, nas conversas privadas, Dilma foi bastante direta ao criticar para Obama as barreiras tarifárias dos EUA. Mas, por sua vez, Obama indicou que muito do protecionismo tarifário não tem muito a ver com ele. Nas palavras do assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, o Brasil sabe que essas barreiras estão muito mais ligadas a forças políticas dentro do Congresso dos EUA.

Mas, desta vez, embora os acordos tenham – como é praxe na semântica diplomática – tratado apenas de intenções genéricas e futuras, ficou no Brasil uma impressão mais verdadeira dessa proposta de parceria. A garantia de que eles serão clientes de longo prazo do nosso petróleo é melhor até do que uma indicação de reversão da balança comercial no curto, avalia essa fonte.

Embora a impressão tenha sido bastante positiva, em se tratando de relações comerciais com a maior potência mundial, os negociantes permanecem com um pé na dúvida. “O ‘day after’ é mais importante do que o que se definiu hoje”, afirmou ontem o presidente da Amcham, Gabriel Ricco.

Energia move as intenções

Além do petróleo do pré-sal, que já possui ofertas de investimentos e financiamento dos EUA, também o setor de biocombustíveis e energias renováveis tende a aproximar empresários dos dois países.

Convocado para uma reunião com Obama ontem, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy , destacou que pesquisas feitas na área de energia por ambos os países podem ser expandidos para toda cadeia e beneficiar cá e lá. Ele destacou, como exemplo, a instalação de uma fábrica de geradores para captar energia eólica pela americana General Eletric (GE) no Brasil .

Além do acordo para desenvolvimento do comércio e cooperação econômica, assinado ontem, os governos também assinaram intenções específicas para desenvolver o uso de biocombustíveis de aviação, que o governo brasileiro interpretou como um sinal mínimo e positivo sobre a aceitação das tecnologias de energias renováveis do Brasil.

Na visão de Godoy, essa pode ser a sinalização inicial da inversão de tendência percebida na época posterior às privatizações no país, no fim dos anos 90, quando diversas empresas americanas deixaram o país, para dar lugar a empresas europeias.

Tim Solso, CEO da Cummins e um dos participantes do Fórum de CEOs Brasil-EUA , declarou ontem que seus negócios no Brasil são bons como em poucos lugares do mundo, atualmente. Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas e representante brasileiro do Fórum, destacou, após o encontro, que o grupo de 18 empresários (10 brasileiros e 8 americanos) apóia a queda de barreiras tarifárias para o desenvolvimento de energias renováveis.

Para Gomes da Silva, filho do ex-presidente José Alencar, as decisões acordaras ontem podem ser consideradas “um momento histórico” de aproximação entre Brasil e EUA

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