Para analistas, ascensão da China no Brasil não preocupa Obama

Segundo economistas, EUA não pretendem voltar a ser maior parceiro comercial brasileiro, mas sim resolver pequenas discordâncias

Olívia Alonso, iG São Paulo |

Logo após Barack Obama ter assumido a presidência dos EUA, a China superou a maior economia do mundo como principal parceiro comercial do Brasil. Dois anos depois, o presidente americano faz entre os dias 19 e 20 sua primeira visita ao País. Com a vinda, entretanto, ele não tem a pretensão de recuperar o posto perdido para os chineses, segundo economistas e cientistas políticos. No que diz respeito às intenções comerciais, afirmam, o presidente dos EUA quer apenas resolver questões antagônicas pontuais, como a bitributação de produtos.

“Obama sabe que a China é imbatível”, disse Daniel Motta, professor de economia estratégica do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). Para ele, muito mais do que defender a posição dos EUA nas economias brasileira e de outros países latino-americanos, a visita pretende tratar “o grande antagonismo que existe entre brasileiros e americanos”.

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Em foto de 19/05/2009, então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (E), cumprimenta presidente chinês, Hu Jintao, em Pequim
Entre os pontos a ser discutidos estão as barreiras tarifárias impostas contra produtos agrícolas no Brasil. Outro tema é a quebra de patentes dos EUA na indústria farmacêutica, com o Brasil trabalhando com medicamentos genéricos. “Obama quer proteger o capital intelectual de seu país em tecnologia, isso é muito mais importante do que o objetivo de ser principal parceiro", afirmou Motta.

Além disso, é bem provável que o encontro do  líder americano com a presidenta Dilma Rousseff também traga avanços nas discussões de bitributação de produtos, na opinião de Celso Grisi, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do instituto de pesquisas Fractal. “Seria um bom momento para os dois lados negociarem um tratado que reduza a carga tributária excessiva.”

O petróleo também deverá estar na pauta das reuniões entre os líderes de Brasil e Estados Unidos. “Eles têm interesse nesse setor, mas o assunto não deverá ir muito além da conversa”, disse Victória Saddi, professora de economia do Insper.

Assim, em termos comerciais mais amplos, a visita não deverá ter resultados significativos, na visão dos economistas. Para eles, os EUA estão mais preocupados em ter uma posição comercial relevante em outras regiões, como no Oriente Médio. “Não somos a prioridade deles”, afirmou Reinaldo Gonçalves, professor titular de economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com o professor, Obama não vai se preocupar com a relação da China com o Brasil e com os outros países latino-americanos enquanto o gigante asiático não prejudicar seus negócios. “Se houver algum problema de substituição de produtos americanos por chineses nos mercados locais, como acontece no México, Obama poderia estar preocupado. Mas não é o caso.”

Além disso, o Brasil possui uma participação insignificante no total da balança comercial americana, acrescentou o professor da UFRJ. Atualmente, os brasileiros correspondem a apenas 1,3% das importações dos EUA, com US$ 24 bilhões. No total das exportações da maior economia do mundo, a fatia brasileira é de 2,7%, correspondentes a US$ 33,4 bilhões.

Ainda que estivessem preocupados em recuperar espaço nos mercados da América Latina, os EUA estão cientes de que a missão é praticamente impossível, uma vez que avanço da China em todo o mundo é um fenômeno difícil de brecar. Os chineses aumentam sua presença não só no Brasil e nos países da região, mas em todos os países. “É resultado da emergência chinesa”, disse Motta.

Os chineses vêm crescendo a uma média anual de 10% nos últimos oito anos e, na competição com qualquer outra nação, conseguem oferecer preços mais baixos, principalmente em função de seus menores custos de produção e ganhos de escala.

Especialmente na América Latina, um outro fator contribui para acelerar a entrada chinesa: a grande complementaridade das economias. A demanda do país asiático cresce aceleradamente, principalmente por alimentos, energia, metais e minerais – itens existentes com fartura na América Latina. Enquanto isso, brasileiros, argentinos, peruanos e paraguaios, por exemplo, compram cada vez mais bens fabricados em solo chinês. Assim, para os economistas, é inevitável que a China assuma cada vez mais uma fatia maior da balança comercial brasileira e de outras nações latinas.

“O interesse da China por aqui é claro: o país quer commodities por longo prazo e mercado consumidor para sua produção”, resumiu Gonçalves, da UFRJ. Na América Latina, os produtos básicos mais exportados são cobre, petróleo, soja e café. Juntos, os quatro bens representam 66% das vendas de matérias-primas da região e, com exceção do café, a China absorve parte importante desses itens, segundo a pesquisa do Centro de Estudos Latinos da Universidade Georgetown, em Washington.

Ao mesmo tempo, os países latino-americanos compram cada vez mais eletrônicos, peças, máquinas e têxteis dos chineses. Atualmente a China também é a terceira maior fonte de produtos para a América Latina. Mas, na previsão da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o país deve superar, até 2020, a União Europeia e os Estados Unidos. Atualmente, 27% das compras paraguaias vêm do território chinês, enquanto no Chile e na Argentina são 11% e no México e na Colômbia, 10%.

No Brasil, os chineses são os fornecedores de 15,6% do total dos itens importados. Do outro lado da balança, absorvem 12,4% das exportações do País, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

A corrente total de comércio entre os dois países somou US$ 8,7 bilhões (R$ 14,5 bilhões) no primeiro bimestre, 14% do total das trocas comerciais brasileiras com o mundo. Na comparação com os EUA, desde 2009 os chineses apresentam números superiores nas negociações com o Brasil. Naquele ano, o comércio sino-brasileiro somou US$ 36,9 bilhões (R$ 61,5 bilhões), contra US$ 35,6 bilhões (R$ 59,3 bilhões) de exportações e importações com os americanos (veja o gráfico abaixo).

Comércio com o Brasil: China x EUA

(em US$ bilhões)

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Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC)
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