Obama visita túmulo de arcebispo morto durante guerra civil

Para alguns, visita à catedral onde está corpo de monsenhor Oscar Romero foi ofensa, enquanto outros a encararam como mea culpa

Marsílea Gombata, enviada a San Salvador, El Salvador |

Em El Salvador, seu último destino no giro pela América Latina, o presidente americano, Barack Obama, se deparou com a polêmica em torno de um dos pontos altos de sua passagem pela capital San Salvador: a visita ao túmulo do arcebispo monsenhor Oscar Romero, marcada para quarta-feira, mas ocorreu na noite desta terça-feira. Assassinado em 24 de março de 1980 por forças salvadorenhas apoiadas por Washington, o padre é considerado ícone da esquerda da Igreja Católica local e um símbolo de resistência durante a guerra civil (1979-1992).

Reuters
Obama durante a visita ao túmulo do arcebispo monsenhor Oscar Romero
A visita do mandatário americano perto do aniversário de morte de Romero levou a insatisfação de religiosos e membros da esquerda do país da América Central. Para Margarida Posada, dirigente da Aliança Cidadã contra a Privatização da Saúde de El Salvador, a visita de Obama ao túmulo de Romero é uma ofensa. “Se contemplasse o pedido de perdão aos salvadorenhos cujo povo foi assassinado pelos esquadrões da morte que também mataram Romero seria bem-vinda, mas isso não ocorrerá”, disse, antes do evento.

Margarida é uma das principais vozes contra a passagem de Obama por El Salvador. “Não é o primeiro presidente americano que vem ao país e, portanto, já sabemos que a importância geopolítica de El Salvador para os EUA é pura estratégia”, protestou. “Apesar de ser um presidente democrata, ele representa os interesses americanos e isso não muda sua política e posição imperialista”, disse ao acrescentar que Washington não tem amigos, apenas interesses.

Para o reverendo Ricardo Cornejo, da Igreja Luterana Popular, a visita ao túmulo pode ser bem-vinda se funcionar como um simbolismo dos EUA mostrando arrependimento em relação ao passado. “Para nós, cristãos e revolucionários, isso pode refletir uma mea culpa em relação a um líder que não morreu e ainda vive em seu povo”, disse.

Membros da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), atual partido do presidente salvadorenho, Mauricio Funes, e antigo grupo guerrilheiro na guerra civil, acreditam que o simples fato de Obama visitar o túmulo de Romero já funciona como um gesto de reconhecimento da intervenção americana no passado e uma mudança de postura.

Marsílea Gombata, enviada a San Salvador, El Salvador
Painel em homenagem a Romero, no Aeroporto Internacional de San Salvador
Para Cornejo, no entanto, há problemas mais urgentes a serem tratados na visita do presidente americano, como o Tratado de Livre Comércio e a intervenção de Washington na luta contra o narcotráfico local. “Há ainda a discussão de uma academia policial internacional coordenada pelos EUA, a qual somos contra. Tememos que sejam novos centro de adestramento de esquadrões da morte, treinados pela Escola Americana no passado”, explicou.

Romero foi morto por um tiro em 1980 quando celebrava uma missa, um dia depois de um sermão em que pedia o fim da repressão a militares salvadorenhos. Mais tarde, um relatório das Nações Unidas indicou que esquadrões da morte treinados pelos EUA estariam por trás de sua morte. 

Seu corpo está enterrado na Catedral Metropolitana de San Salvador, por onde passou Obama nesta terça-feira. Antes de voltar aos EUA, nesta quarta-feira, o presidente norte-americano visitará o sítio arquológico San Andrés, a cerca de 45 minutos da capital San Salvador. Neste terça-feira, Obama teve uma reunião com o mandatário salvadorenho, Mauricio Funes, enquanto a primeira-dama americana, Michelle Obama, conheceu o projeto social carro-chefe de El Salvador, Cidade Mulher, idealizado pela primeira-dama e secretária de Inclusão Social do país, a brasileira Vanda Pignato. 

À noite, Funes e Vanda ainda oferecem um jantar à família Obama e sua comitiva, que inclui 200 convidados, entre eles políticos, diplomatas e empresários. 

Manifestações

Na véspera da chegada de Obama ao país, alguns manifestantes protestaram contra a política externa americana. Nos arredores da Catedral Metropolitana, houve manifestações a favor da libertação de cinco cubanos presos nos EUA por espionagem e contra a ofensiva das forças do Ocidente contra a Líbia.

Marsílea Gombata, enviada a San Salvador, El Salvador
Protesto contra Obama nesta terça-feira, em San Salvador

Para a visita do presidente americano ao menor país das Américas, cerca de 1,3 mil soldados do Exército salvadorenho participam dos preparativos, além de outros que foram designados para edifícios do centro da capital San Salvador. A Polícia Nacional Civil disponibilizou 2,5 mil agentes para ajudar nos planos de segurança.

Os ônibus foram proibidos de transitar no centro da capital salvadorenha desde segunda-feira, de acordo com o plano do Ministério de Transporte. Durante a visita, nenhum carro ou pedestre poderão transitar nos arredores da catedral durante cinco horas. 

O Aeroporto Internacional de El Salvador tem restrições no acesso ao público. O Hospital Nacional Infantil Benjamín Bloom suspendeu serviços como diagnósticos e cirurgias na terça e quarta-feira, por causa do fechamento de ruas de acesso. Apenas a emergência funcionará normalmente.

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