Obama: EUA procuram uma aliança 'entre iguais' com América Latina

Em pronunciamento no Chile, líder elogia avanço da região e diz que parceria com EUA deve ter responsabilidade compartilhada

Luísa Pécora, enviada a Santiago, Chile |

Em aguardado discurso nesta segunda-feira em Santiago, capital do Chile, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, defendeu uma relação de igualdade entre os Estados Unidos e a América Latina que seja baseada em interesses e valores comuns, mas também no compartilhamento de responsabilidades.

Reuters
Obama durante pronunciamento nesta segunda-feira no Chile
“O mundo deve reconhecer a América Latina pela região dinâmica e em crescimento que ela realmente é”, afirmou Obama. “Hoje, nossas relações não têm sócios majoritários nem minoritários, apenas igualdade. E uma igualdade que supõe a divisão de responsabilidades”, acrescentou. 

A metáfora do “sócio majoritário e minoritário” já havia sido usada por Obama em 2009, logo no início de seu mandato, quando participou da Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago. No discurso desta segunda-feira, o líder lembrou que, na ocasião, prometeu buscar relações baseadas em interesse e respeito mútuos.

O pronunciamento no Chile era visto como um passo além, o momento em que Obama indicaria sua política para a região. Segundo o líder, os EUA e os países latino-americanos devem buscar maior cooperação nas áreas de segurança, emprego, energia, educação, e na defesa da democracia e dos direitos humanos.

Democracia foi uma das palavras mais usadas por Obama, que apontou a América Latina como um exemplo brilhante para aqueles no Oriente Médio que lutam para deixar regimes autoritários para trás. "Em um momento em que povos ao redor do mundo lutam por sua liberdade, o Chile mostra que é possível uma passagem pacífica de uma ditadura para uma democracia", disse. A mensagem foi parecida a que deu no Rio na véspera, quando indicou que a transição democrática do Brasil é um exemplo para as mobilizações populares que lutam contra regimes autocráticos no norte da África e no Oriente Médio. (Veja vídeo do pronunciamento e leia a íntegra do discurso no Brasil)

Cuba

Apesar dos elogios, Obama também conclamou as nações latino-americanas a voltar a se comprometer com a defesa dos direitos humanos e com o fortalecimento de instituições democráticas. O líder afirmou que os governos têm a “obrigação” de defender as conquistas de ativistas e movimentos pró-democracia, citando nominalmente apenas as Damas de Branco, grupo de mulheres cubanas que reivindicam a libertação de presos políticos.

Obama disse que vai continuar buscando formas de aumentar a independência da população em relação ao regime cubano, citando como positiva a decisão de seu governo de permitir viagens e envio de remessas de dinheiro à ilha. Ele também cobrou reformas das autoridade de Cuba “não porque os EUA querem, mas porque o povo do país merece”.

A fala de Obama sobre Cuba incomodou políticos da esquerda chilena que estavam no Centro Cultural La Moneda, onde o discurso foi realizado. O senador Alejandro Navarro, do Movimento Amplo Social, cobrou uma menção ao bloqueio econômico imposto pelos EUA à ilha, assim como um pedido de desculpas pela responsabilidade histórica do governo americano no período de ditadura militar no Chile. “O discurso foi abaixo das expectativas”, afirmou, em entrevista ao iG . “Não houve anúncio de medidas concretas, só carta de boas intenções.”

Já o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado chileno, Hernán Larraín, considerou o discurso um “passo muito significativo”. “O fato de ele ter defendido uma parceria de igual para igual entre os países da América marca um espírito distinto e positivo”, afirmou o senador, integrante do partido governista União Democrata Independente.

Inspiração nos mineiros

Se Obama arrancou aplausos no Rio de Janeiro com facilidade, no Chile a plateia parecia menos impactada por seu carisma. Durante os 31 minutos de pronunciamento, só houve uma salva de palmas – mas não exatamente para Obama, e, sim, para o presidente chileno, Sebástian Piñera, e para ex-presidentes que estavam no local e foram citados pelo líder americano.

Não houve manifestação quando Obama usou espanhol para dar “buenas tardes” e dizer “todos somos americanos”, ou nas duas vezes em que citou o escritor chileno Pablo Neruda. A plateia também permaneceu em silêncio na parte final do pronunciamento, quando Obama fez uma longa homenagem ao “milagroso” resgate de “los 33” – como se referiu aos homens presos por 69 dias em uma mina no norte do Chile, de onde foram retirados em outubro do ano passado.

O líder americano relembrou alguns momentos da operação, como a chegada ao solo do último mineiro, Luiz Urzúa (que pronunciou, erroneamente, como “urzuza”), o empenho de diferentes setores da sociedade chilena para ajudas as famílias no acampamento “Esperanza”, além da colaboração de países da América Latina e de outras partes do mundo no resgate.

“Se precisarmos nos lembrar dos valores e da esperança que compartilhamos, aquele momento no deserto é o ideal”, afirmou Obama. “Quando um país como o Chile está determinado, não há nada que ele não pode fazer. Quando a América Latina se une e se concentra em um objetivo comum, quando os outros países fazem sua parte, não há nada que não possamos conquistar juntos”, completou.

Visita ao Chile

Obama chegou nesta segunda-feira a Santiago, segunda etapa de sua viagem pela América Latina , que começou no Brasil e terminará na terça-feira em El Salvador. O avião "Air Force One" do líder americano aterrissou às 13h10 (de Brasília) no aeroporto internacional da capital chilena.

O presidente foi recebido no aeroporto pelo chanceler chileno, Alfredo Moreno. Depois, ele e a primeira-dama, Michelle Obama, foram recebidos por Piñera e sua mulher, Cecilia Morel, no Palácio La Moneda. Obama passou em revista a guarda do palácio e, depois, posou para fotos com Piñera.

Antes do discurso, Obama fez uma declaração conjunta ao lado de Piñera, no qual afirmou que os EUA defendem a queda do líder líbi o, Muamar Kadafi , mas que o esforço militar internacional tem o objetivo militar mais limitado de estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e proteger os civis contra massacres pelas forças leais ao ditador. "Estabeleci que a política americana é a de que Kadafi precisa ir embora", disse Obama.

Segundo ele, os EUA transferirão a liderança da operação militar "Odisseia do Amanhecer" para outros participantes em questão de "dias, e não semanas", mas evitou oferecer um cronograma mais preciso. A mesma afirmação foi feita no dia anterior pelo secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates. De acordo com o líder americano, os EUA se limitarão na ofensiva a seguir a resolução aprovada na quinta-feira pelo Conselho de Segurança da ONU, que autoriza a ação militar na Líbia e o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea.

Nos últimos três dias, os EUA dispararam 150 mísseis de cruzeiro contra alvos líbios, incluindo um que atingiu um prédio do complexo residencial de Kadafi em Trípoli .

Depois do discurso, Obama voltou ao Palácio para um jantar oficial oferecido pelo líder chileno em sua homenagem. A previsão é que ele deixe o Chile por volta das 9h de terça-feira, seguindo em direção a El Salvador, terceira e última parada do líder em seu giro pela América Latina.

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