Obama deve trazer recursos para Copa e Olimpíada no Brasil

Banco que oferece financiamento a exportadores americanos deve liberar fundos para projetos de infraestrutura no País

Claudia Facchini e Marina Gazzoni, iG São Paulo |

A¿exploração de petróleo na região do pré-sal, as grandes obras de infraestrutura, como as hidrelétricas de Belo Monte e Jirau, e a construção de empreendimentos para a realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos serão as prioridades na agenda do presidente americano, Barack Obama, em sua visita ao Brasil, entre os dias 19 e 20 de março.

O governo americano deve trazer na bagagem fundos milionários para financiar a participação das empresas americanas nos projetos de infraestrutura no Brasil, nos quais os chineses ocupam um espaço cada vez maior.¿

“O Brasil é um lugar onde vemos uma grande promessa e um grande potencial para cooperação”, afirmou recentemente à agência Reuters o presidente do Export-Import Bank dos Estados Unidos, Fred P. Hochberg. O Ex-Im Bank, como é conhecido o banco, oferece financiamento aos exportadores americanos.¿

Getty Images
Segurança é visto perto de porta no aeroporto do Galeão, Rio, com símbolo sobre candidatura do País para Jogos Olímpicos de 2016 (25/08/2009)
Autoridades americanas e brasileiras discutem um acordo com Ex-Im Bank há alguns meses, mas existem questões legais e relativas à regulamentação que precisam ser resolvidas, segundo a Reuters. Em fevereiro, as expectativas dos dois governos era de que os acertos estivessem concluídos até a visita de Obama e o presidente americano pudesse anunciar a concessão de linhas de crédito durante sua passagem pelo Brasil.¿

Além de financiar a participação das empresas americanas nas obras de infraestrutura necessárias para a realização da Copa do Mundo e da Olimpíada, bem como de outros projetos, o Ex-Im Bank está negociando com a BNDES o fomento de joint ventures (sociedades) entre companhias americanas e brasileiras para viabilização de investimentos em outros países, sobretudo na África.¿

Avanço chinês

Nos últimos anos, o banco de fomento às exportações do governo chinês atua de forma agressiva na concessão de crédito e subsídios, o que tem permitido às indústrias chinesas um avanço em vários mercados, desde o continente africano aos países do G20, grupo que reúne as 20 maiores economias mundiais, incluindo o Brasil.

Em uma década, os chineses se transformaram no maior parceiro comercial de vários países, à frente dos EUA, e já são os maiores exportadores para o mercado brasileiro. Assim como fez o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, em sua visita ao Brasil em fevereiro, Obama deve tentar ganhar apoio do Brasil contra a China.

“Obama reforçará o discurso da indústria nacional de que a prática de comércio desleal pela China está prejudicando a economia brasileira”, afirmou José Velloso, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que participará de uma reunião de Obama com empresários brasileiros. “O governo brasileiro está sendo lento para enfrentar a competição desleal com a China”, disse.

Os americanos são os principais parceiros comerciais do Brasil no setor de máquinas e equipamentos. O Brasil exportou US$ 9,26 bilhões no ano passado, 17% para os Estados Unidos, e importou US$ 25 bilhões, cerca de 25% de produtos americanos. A China é o segundo maior exportador de máquinas para o Brasil, com 13% do total, mas sua importação é irrisória (2%), de acordo com a Abimaq. “A balança com a China é mais desequilibrada, com vantagem para eles”, diz Velloso.

“A balança com a China é mais desequilibrada, com vantagem para eles”, diz Velloso. O vice-presidente da Abimaq não espera, no entanto, que Obama consiga definir acordos de proteção a produtos chineses conjuntos com o Brasil nessa visita. O objetivo do encontro, a seu ver, é fortalecer o discurso contra a prática de dumping pela China. É possível, também, que Obama tente facilitar negociações comerciais de empresas americanas interessadas em participar dos projetos de infraestrutura do Brasil e no pré-sal.

Pré-sal

No pré-sal, por exemplo, os chineses foram mais rápidos que os americanos, que, agora, buscam recuperar o terreno perdido. Em uma reunião com a presidente Dilma Rousseff em Brasília, Jeff Immelt, presidente mundial da General Eletric (GE), um dos mais poderosos conglomerados americanos, anunciou investimentos nos Brasil de R$ 550 milhões nos próximos dois anos e sugeriu que poderia dobrar a aposta. Um dos grandes interesses da GE é o fornecimento de equipamentos para a Petrobras.

O pré-sal interessa aos EUA não só pelos contratos que poderá render às empresas americanas, como a GE, como também por reduzir a dependência no petróleo produzido no Oriente Médio, afirmaram ao iG fontes da Câmara de Comércio Americana no Brasil (Amcham).

Infraestrutura

No sábado, dia 19, a US Chamber realizará em Brasília o seminário Brazil Summit, com painéis focados nos temas de energia e infraestrutura, dos quais participarão empresários americanos e brasileiros. Na lista dos convidados estão representantes de empresas como Gerdau, Votorantim, Embraer, Vale, Camargo Corrêa, Coteminas, Odebrecht e banco Safra.

A delegação americana que virá ao Brasil com o presidente Obama será formada, em sua maioria, por empresários dos setores de energia e infraestrutura. Estima-se que o Brasil demandará US$ 600 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos, segundo Juan Quirós, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib).

O valor inclui projetos como o pré-sal, as hidrelétricas de Belo Monte e Jirau, a transposição do Rio São Francisco, a construção do Rodoanel em São Paulo e do trem-bala, além das obras para a Copa e Olimpíada. Os EUA, apesar da concorrência com os chineses, possuem tecnologias de ponta, necessárias ao Brasil, disse Quirós.

No caso da Copa e da Olimpíada, os americanos são especializados no fornecimento de sistemas de controle de mobilidade e segurança para grandes eventos. Algumas empresas que desenvolvem esse tipo de tecnologia são fornecedoras do Pentágono, órgão de defesa dos EUA. ¿

Reaproximação

“Nos últimos 15 anos, a política externa dos EUA esteve concentrada nos grandes problemas no Oriente Médio, como a guerra do Iraque e conflito entre Israel e palestinos”, afirmou o ex-embaixador brasileiro Rubens Barbosa. A aproximação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com países antiamericanos, como o Irã e a Síria, também contribuiu para afastar o Brasil dos EUA.

AFP
Lula de mãos dadas com presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, após assinatura de pacto nuclear que posteriomente foi rejeitado por potências mundiais (17/05/2010)
Nos últimos anos, o Brasil não foi uma prioridade para os americanos do ponto vista de política externa e em termos de negócios. A vinda de Obama, afirmou Barbosa, representa uma reaproximação. A expectativa dele é de um melhor diálogo com Dilma, que vem demonstrando uma maior ênfase, por exemplo, na defesa dos direitos humanos. Mas não é esperado que sejam assinados grandes acordos. “Essas visitas¿têm um efeito muito mais de longo prazo, muito mais simbólico”, disse Barbosa. Na prática, poucas decisões são tomadas nesses eventos.

    Leia tudo sobre: obama no brasileuacopa 2014olimpíada 2016

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG