Obama descobriu Brasil em 1983, com 'Orfeu Negro'

Primeira visão que Obama teve do Brasil foi por lente francesa de Marcel Camus, que mostrou versão lírica de uma favela carioca

Ricardo Calil, colunista do iG |

O presidente dos EUA, Barack Obama, descobriu o Brasil em 1983. Não, ele não pisou em solo brasileiro naquela época, como fará durante sua visita oficial ao País entre 19 e 20 de março. Ele conheceu nosso país pela primeira vez por meio do cinema – mais especificamente pelo filme "Orfeu Negro", de 1959.

Dirigido pelo francês Marcel Camus e baseado no musical “Orfeu da Conceição”, escrito por Vinicius de Moraes e com músicas de Tom Jobim e Luiz Bonfá, “Orfeu Negro” é uma tranposição do mito grego de Orfeu e Eurídice para uma favela carioca, na época de carnaval, encenado por um elenco quase exclusivamente negro.

Divulgação
Marpessa Dawn e Breno Mello em cena de Orfeu Negro
Ou seja, a primeira visão que Obama teve do Brasil foi por uma lente francesa. E o que ela mostrou essencialmente foi uma visão lírica da vida na favela. Em meio à trágica história de amor entre Orfeu e Eurídice, existe a música, a festa, a alegria do carnaval.

Como o jovem Obama foi parar no cinema para ver aquele velho filme francês passado no Brasil, no ano de “Retorno de Jedi”, “Flashdance” e “Jogos de Guerra”? Resposta simples: ele foi acompanhar sua mãe. Mais: “Orfeu Negro” era o filme favorito dela. Outro detalhe significativo: ela era branca. E a visão da obra de Marcel Camus foi a epifania que Obama teve para entender como ele e a própria mãe enxergavam as questões raciais de um ponto de vista totalmente diferente.

A história foi bem contada pelo próprio Obama em sua biografia, “Dreams from my father”. Sua mãe Ann e sua irmã Maya o estavam visitando em Nova York, onde ele cursava a Universidade Columbia.

“Uma noite, enquanto folheava o jornal Village Voice, os olhos da minha mãe se iluminaram ao ver a propaganda de um filme, 'Orfeu Negro', que estava sendo exibido no centro. Minha mãe insistiu para que fossemos naquela noite; ela disse que foi o primeiro filme estrangeiro que ela viu”, conta Obama, antes de lembrar as palavras da mãe: “'Eu tinha apenas 16 anos. Foi a primeira vez que fiz algo totalmente sozinha. Senti-me tão adulta. Quando vi o filme, achei que era a coisa mais bonita que já tinha visto', ela nos contou enquanto entrávamos no elevador.”

Mas Ann não conseguiu transmitir seu entusiasmo ao filho. “Os brasileiros negros e mulatos cantavam e dançavam e tocavam violão como aves livres de plumagem colorida. Na metade do filme, decidi que havia visto o suficiente e virei para minha mãe para ver se ela estava pronta para ir embora. Mas seu rosto estava vidrado na tela. Naquele momento, senti-me como se tivesse olhado por uma janela para seu coração, o coração de sua juventude. Percebi que o retrato de negros infantilizados que eu via, o reverso da imagem dos selvagens do (escritor britânico Joseph) Conrad, foi o que minha mãe carregou com ela até o Havaí anos atrás, um reflexo da fantasia simplista que havia sido proibida para uma garota branca, de classe média do Kansas, a promessa de uma outra vida: quente, sensual, exótica, diferente.”

“Orfeu Negro” – e as reações opostas que Obama e Ann tiveram sobre ele – levou o futuro presidente inclusive a questionar as bases de sua relação com sua mãe (que morreu em 1995). “As emoções entre as raças nunca podiam ser puras; até o amor era manchado pelo desejo de encontrar no outro algum elemento que estava faltando em nós mesmos.”

Se o anunciado desejo do governador carioca Sergio Cabral de levar Obama até a favela do Chapéu Mangueira (onde “Orfeu Negro” foi filmado) tivesse se concretizado, o presidente americano teria a chance de reencontrar o cenário do filme. E teria a oportunidade de confirmar ao vivo que o universo mostrado naquela obra nada mais era do que a fantasia otimista de um francês, de sua mãe e de milhões que se encantaram com o filme (que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro). Ou, talvez, o marketing político consiga convencer Obama de que Ann estava certa, que no fundo as nossas favelas se parecem mais com a de “Orfeu Negro” do que a de “Cidade de Deus”.

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