Obama deixa o Chile e segue para El Salvador

Em seu mais importante discurso para a América Latina, líder diz que EUA buscam relação de igualdade com a região

Luísa Pécora, enviada a Santiago, Chile |

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, concluiu a segunda etapa de sua primeira visita oficial à América Latina nesta terça-feira, deixando o Chile e seguindo em direção a El Salvador. Durante as menos de 24 horas que passou na capital chilena, Santiago, Obama fez um apelo para que os países da região e os EUA trabalhem como “ sócios iguais ”, mas não anunciou planos concretos.

Obama partiu no Air Force One às 9h14, após uma breve reunião de trabalho com o líder chileno, Sebástian Piñera , no hotel Sheraton, onde ficou hospedado. A reunião foi incluída na agenda na noite de segunda-feira, após forte lobby do governo chileno, que havia proposto um café da manhã na residência de Piñera. A comitiva americana descartou a ideia, mas Obama concordou em receber Piñera no hotel por cerca de 30 minutos.

AFP
Presidente dos EUA, Barack Obama, e sua mulher, Michelle, embarcam no Chile em direção a El Salvador
O líder americano chegou a Santiago por volta das 13h10 de segunda-feira e seguiu diretamente para o Palácio La Moneda, onde foi recebido por Piñera e sua mulher, Cecilia Morel. Obama passou em revista a guarda do palácio e, depois, posou para fotos com o líder chileno.

Do lado de fora do La Moneda, dezenas de chilenos aguardavam a chegada de Obama. Vestindo uma camiseta do líder americano, Ines Rodriguez , 55 anos, estava de prontidão desde às 8h, com a máquina fotográfica a postos. “Fico encantada com ele, com o fato de ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e com o jeito como ele fala”, afirmou ao iG , deixando escapar que a admiração por Obama vai além do conteúdo de seus discursos. “Ele é tremendamente lindo”, disse.

Mas o forte esquema de segurança montado para visita de Obama, que incluiu reforço policial e o fechamento de várias ruas ao redor do La Moneda, impediu o público de ver qualquer coisa. “A recepção foi muito mais calorosa no Brasil. As pessoas puderam vê-lo, balançaram bandeirinhas”, contou a chilena Ana Veloso , 46 anos, que também acompanhou a visita do líder americano ao Rio de Janeiro. “Aqui temos dificuldade até para chegar até a grade. O nosso chanceler nos pediu para receber Obama, mas onde vamos recebê-lo? Em casa?”

Líbia

Após reunião de trabalho no La Moneda, Obama e Piñera fizeram uma declaração conjunta à imprensa, na qual Piñera afirmou que um dos temas discutidos com Obama foi a colaboração na área de energia nuclear, mas garantiu que seu governo não tem a intenção de construir usinas atômicas.

Na sexta-feira, a assinatura de um acordo nuclear entre EUA e Chile provocou polêmica em meio ao temor de um desastre na usina de Fukushima , no Japão. Originalmente, a cerimônia de assinatura do acordo aconteceria durante a visita de Obama e era vista por Piñera, como um dos pontos altos da agenda.

Mas no momento em que diversos países reveem seus programas de energia nuclear por causa da tragédia no Japão, Chile e EUA optaram por um tom mais discreto, antecipando a assinatura e deixando-a a cargo de ministros, e não dos presidentes. Da mesma forma, durante a visita houve poucas menções ao tema.

Em coletiva posterior à declaração conjunta, a ação na Líbia foi destaque. O presidente americano afirmou que os EUA defendem a queda do líder líbio, Muamar Kadafi, mas que o esforço militar internacional tem o objetivo mais limitado de estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e proteger os civis contra massacres pelas forças leais ao ditador.

Segundo ele, os EUA transferirão a liderança da operação militar "Odisseia do Amanhecer" para outros participantes em questão de "dias, e não semanas", mas evitou oferecer um cronograma mais preciso. A mesma afirmação foi feita no dia anterior pelo secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates. De acordo com o líder americano, os EUA se limitarão na ofensiva a seguir a resolução aprovada na quinta-feira pelo Conselho de Segurança da ONU, que autoriza a ação militar na Líbia e o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea.

Em agenda paralela, a primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, participou de um encontro com jovens em uma escola de Santiago. Assim como fez em Brasília , Michelle usou sua própria trajetória de superação para dizer aos jovens que, com esforço, podem alcançar seus objetivos.

Discurso

Por volta das 16h25, Obama subiu ao palco do Centro Cultural La Moneda para um discurso a toda a América Latina, anunciado como o principal pronunciamento de sua visita à região. O líder americano falou por 31 minutos e pediu o fortalecimento da parceria em várias áreas, mas frustrou as expectativas dos que esperavam anúncios concretos.

“O mundo deve reconhecer a América Latina pela região dinâmica e em crescimento que ela realmente é”, afirmou Obama. “Hoje, nossas relações não têm sócios majoritários nem minoritários, apenas igualdade. E uma igualdade que supõe a divisão de responsabilidades”, acrescentou.

Segundo o líder, os EUA e os países latino-americanos devem buscar maior cooperação nas áreas de segurança, emprego, energia, educação, e na defesa da democracia e dos direitos humanos.

Democracia foi uma das palavras mais usadas por Obama, que apontou a América Latina como um exemplo brilhante para aqueles no Oriente Médio e norte da África que lutam para deixar regimes autoritários para trás . "Em um momento em que povos ao redor do mundo lutam por sua liberdade, o Chile mostra que é possível uma passagem pacífica de uma ditadura para uma democracia", disse.

Apesar dos elogios, Obama também conclamou as nações latino-americanas a voltar a se comprometer com a defesa dos direitos humanos e com o fortalecimento de instituições democráticas. O líder afirmou que os governos têm a “obrigação” de defender as conquistas de ativistas e movimentos pró-democracia, citando nominalmente apenas as Damas de Branco , grupo de mulheres cubanas que reivindicam a libertação de presos políticos.

Obama disse que vai continuar buscando formas de aumentar a independência da população em relação ao regime cubano, citando como positiva a decisão de seu governo de permitir viagens e envio de remessas de dinheiro à ilha. Ele também cobrou reformas das autoridades de Cuba “não porque os EUA querem, mas porque o povo do país merece”.

A fala de Obama sobre Cuba incomodou políticos da esquerda chilena que estavam no Centro Cultural La Moneda, onde o discurso foi realizado. O senador Alejandro Navarro, do Movimento Amplo Social, cobrou uma menção ao bloqueio econômico imposto pelos EUA à ilha, assim como um pedido de desculpas pela responsabilidade histórica do governo americano no período de ditadura militar no Chile. “O discurso foi abaixo das expectativas”, afirmou, em entrevista ao iG . “Não houve anúncio de medidas concretas, só carta de boas intenções.”

Já o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado chileno, Hernán Larraín, considerou o discurso um “passo muito significativo”. “O fato de ele ter defendido uma parceria de igual para igual entre os países da América marca um espírito distinto e positivo”, afirmou o senador, integrante do partido governista União Democrata Independente.

Inspiração nos mineiros

Se Obama arrancou aplausos no Rio de Janeiro com facilidade, no Chile a plateia parecia menos impactada por seu carisma. Durante todo o pronunciamento, só houve uma salva de palmas – mas não exatamente para Obama, e sim para Piñera e para ex-presidentes que estavam no local e foram citados pelo líder americano.

Não houve manifestação quando Obama usou espanhol para dar “buenas tardes” e dizer “todos somos americanos”, ou nas duas vezes em que citou o escritor chileno Pablo Neruda. A plateia também permaneceu em silêncio na parte final do pronunciamento, quando Obama fez uma longa homenagem ao “milagroso” resgate de “los 33” – como se referiu aos homens presos por 70 dias em uma mina no norte do Chile, de onde foram retirados em outubro do ano passado.

O líder americano relembrou alguns momentos da operação e a colaboração de países da América Latina e de outras partes do mundo no resgate. “Se precisarmos nos lembrar dos valores e da esperança que compartilhamos, aquele momento no deserto é o ideal”, afirmou Obama. “Quando um país como o Chile está determinado, não há nada que ele não pode fazer. Quando a América Latina se une e se concentra em um objetivo comum, quando os outros países fazem sua parte, não há nada que não possamos conquistar juntos”, completou.

Homenagens

No último evento de segunda-feira, Obama e sua mulher chegaram por volta das 20h10 ao La Moneda para um jantar oficial em sua homenagem. Cerca de 300 convidados participaram da cerimônia, que contou com a apresentação de um grupo musical chileno.

Na manhã desta terça-feira, Obama abriu espaço para a nova reunião com Piñera e também para atender ao prefeito de Santiago, Pablo Zalaquett, que insistia em entregar-lhe a chave da cidade. Em entrevista à televisão chilena, Zalaquett afirmou que Obama achou a tradição “muito bonita” e revelou que entregou à comitiva do líder americano uma garrafa de pisco, a mais tradicional bebida alcoólica do Chile. Obama deve chegar em El Salvador ainda nesta terça-feira, onde encerra a visita à América Latina.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG