No Brasil e Chile, Obama discursa para seduzir América Latina

Bom orador e com carisma que atrai multidões, presidente americano usa pronunciamentos para melhorar imagem dos EUA no mundo

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Nos dias 20 e 21 de março, o Brasil e o Chile entrarão para um grupo de países que incluem República Checa, Egito, Turquia e Indonésia: locais onde o presidente americano, Barack Obama, fez importantes discursos que definiram os principais pontos de sua política externa e buscaram melhorar a imagem dos EUA no mundo.

Como primeira parada de um giro latino-americano entre 19 e 23 de março, que também inclui o Chile e El Salvador, o Brasil será palco de um  pronunciamento no Rio de Janeiro no domingo. Segundo autoridades americanas, esse discurso será diretamente dirigido à população brasileira, abordando os valores em comum - como inclusão social, democracia e respeito à diversidade - que os dois países compartilham.

No dia seguinte, em Santiago do Chile, o líder que fez 34 visitas oficiais a 24 países desde que assumiu o poder, em janeiro de 2009, fará um discurso em que essencialmente detalhará a importância da América Latina para seu governo. O pronunciamento coincidirá com o 50º aniversário do anúncio feito pelo ex-presidente americano John Kennedy, em 1961, da Aliança para o Progresso, que estabeleceu cooperação econômica entre os EUA e os países latino-americanos.

De acordo com o vice-conselheiro de Segurança Nacional para Comunicações Estratégicas dos EUA, Ben Rhodes, o giro latino-americano de Obama será a viagem símbolo da política de seu primeiro mandato para a região. "O presidente terá a oportunidade de detalhar o que estamos fazendo em várias áreas-chave, como cooperação energética, segurança dos cidadãos, crescimento econômico e desenvolvimento, democracia e direitos humanos", disse na quarta-feira.

Rhodes também lembrou que Brasil e Chile tiveram bem-sucedidas transições de governos autoritários para democráticos, o que os tornaria exemplos para países como Egito e Tunísia , que recentemente foram palco de mobilizações populares que forçaram a queda de regimes autocráticos.

Ruptura com o legado de Bush

As mensagens no Brasil e Chile repetem o modelo usado por Obama em discursos anteriores de apontar os interesses e valores comuns entre os EUA e seus interlocutores e de pedir uma ação conjunta não apenas para o fortalecimento das relações diplomáticas, mas também para enfrentar desafios internacionais.

Foi assim em Praga, na República Checa, quando fez um apelo por um esforço global na busca por um mundo sem armas nucleares, o que se tornou uma das principais bandeiras de sua política externa. Em Ancara, na Turquia, e no Cairo, capital do Egito, ele garantiu que os EUA “não estão em guerra com o Islã” e pediu um “novo começo” nas relações com o povo muçulmano. Em visita à Jacarta, usou a Indonésia como exemplo de “tolerância” em meio a crescentes conflitos étnicos e religiosos.

Com a ajuda da tecnologia, Obama pôde ampliar o alcance de seus discursos. Em mensagens gravadas em vídeo, parabenizou o povo do Irã e a população latina dos EUA em datas comemorativas. No Twitter, a Casa Branca passou a publicar conteúdo em árabe, farsi, francês e espanhol – e contas em chinês, russo e indiano devem ser lançadas em breve.

Enquanto acena para o mundo, Obama faz um esforço contínuo para diferenciar seu governo do anterior, de acordo com Evan Cornog, historiador e professor de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova York. “Parte do objetivo dos discursos no exterior é reverter o legado internacional de George W. Bush (2001-2009) e a imagem de que os EUA não se preocupam com a opinião e os interesses dos outros países”, afirmou ao iG . “Obama sempre tenta mostrar os EUA como um país menos autocentrado, mais disposto a colaborar e alinhado à realidade.”

Divulgação/Casa Branca
Obama e o chefe de sua equipe de redatores, Jon Favreau, trabalham em discurso na Casa Branca (24/01/2011)

Cornog considera ser cedo demais para avaliar se as palavras ditas por Obama trouxeram políticas e resultados práticos. Ele acredita, porém, que as promessas feitas em discursos como o do Rio e Santiago quase sempre estarão aquém da realidade. “O público geralmente não quer ouvir a verdade: que não poderá ter tudo o que quer”, opinou. “Como todos os políticos, Obama têm isso em mente.”

Resultados

Analisando os dois mais importantes pronunciamentos feitos por Obama até agora – em Praga e no Cairo –, observam-se resultados mistos. Passos importantes foram dados na questão nuclear, abordada diante de milhares de ouvintes na República Checa: além de negociar e aprovar um novo pacto de redução de arsenais com a Rússia, ele também promoveu uma cúpula em Washington na qual líderes de 47 países se comprometeram a garantir a segurança de todo o material atômico em até 2014.

As ideias defendidas no Egito, porém, não se traduziram numa melhora significativa das relações entre os EUA e o mundo muçulmano. Obama também não conseguiu avanços contundentes nas negociações de paz entre israelenses e palestinos, outra questão definida como prioritária no discurso do Cairo.

O historiador Edward Widmer, que integrou a equipe de redatores do ex-presidente Bill Clinton (1993-2001), rejeita a ideia de que, sem resultado prático, os discursos deixam de ter significado. “O pronunciamento em Praga foi uma importante declaração de que os EUA rejeitavam a posição bélica dos anos anteriores”, afirmou ao iG . “Mesmo que Obama não atinja seu objetivo final (o fim das armas nucleares), ele mostrou que tem uma nova filosofia. O mundo gostou disso.”

Segundo Widmer, a redação dos discursos deve ser cuidadosa para evitar excessos de otimismo ou ingenuidade. “Tudo o que o presidente diz se transforma em política externa, por isso não é bom prometer demais”, explicou. Para ele, o presidente em visita oficial deve expressar respeito ao país e explicar claramente o que espera para o futuro. “O objetivo principal é construir ou melhorar as relações diplomáticas”, afirmou.

O historiador acrescenta que a capacidade de Obama de reunir multidões reflete um “poder de diplomacia pessoal” que não pode ser subestimado. “É um talento que também faz parte das relações internacionais: conseguir criar interesse pelos EUA no país visitado”, disse.

Poder da oratória

Durante sua passagem pela Casa Branca, Widmer era um dos três redatores para discursos sobre política externa (outros cinco lidavam apenas com questões domésticas). Segundo ele, o trabalho se aproxima ao de um jornalista, entrevistando autoridades da Casa Branca que sejam especialistas no tema a ser abordado.

Com um completo documento em mãos, o redator preocupa-se em colocar o texto na linguagem do presidente, lançando mão das palavras e do estilo que ele gosta de usar. O processo é colaborativo, e diversos rascunhos (que se multiplicam nas últimas 24 horas antes do discurso) são revisados por integrantes da equipe de comunicação da Casa Branca, entre outras autoridades. Os presidentes, que vetam ou aprovam o texto, costumam gostar de acrescentar um toque pessoal, seja um trecho de seu livro favorito ou uma história de uma visita anterior.

O principal nome por trás dos discursos de Obama é Jon Favreau, 29 anos, que em entrevista ao jornal The New York Times disse buscar inspiração em John Kennedy, Martin Luther King e Robert F. Kennedy. Para ganhar o público, os discursos de Obama costumam incluir expressões na língua local, trechos em tom pessoal e a preocupação em demonstrar conhecimento sobre a história do país estrangeiro.

A dificuldade para transmitir emoção é a principal falha de Obama como orador, de acordo com o linguista Geoffrey Nunberg, professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Se durante a campanha ele conseguia comover o público ao falar de esperança e mudança, como presidente não demonstra o mesmo talento ao discutir questões do governo. “Muitos americanos têm a impressão de que ele é frio, desapegado e reservado”, afirmou.

Segundo Nunberg, a principal característica dos discursos de Obama é o cuidado com todas as questões abordadas. “Ele não é um orador de quem você pode esperar frases memoráveis, mas sempre pode esperar sensibilidade”, afirmou, acrescentando como outras qualidades do líder o modo de falar inteligente e articulado e o uso de sentenças “completas e bem construídas”.

Outro truque de Obama é relembrar sua biografia incomum para mostrar a diversidade da população americana e defender o multilateralismo. Para o primeiro presidente negro dos EUA – que é filho de um queniano com uma americana e passou parte da infância na Indonésia – a trajetória pessoal também se torna arma oratória.

“Quando você olha para Obama, tem a impressão de que ele é diferente de todos os 43 presidentes que vieram antes”, afirmou o professor Evan Cornog. “A história dele está sempre presente.”

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