Michelle visitará programa social de primeira-dama salvadorenha

Ao iG, brasileira Vanda Pignato espera que presidente Obama mire futuro na última etapa de seu giro latino-americano: El Salvador

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

Em seu último destino na viagem que acompanha o presidente americano, Barack Obama, pela América Latina , a primeira-dama Michelle visitará um dos carros-chefe da política social de El Salvador, levado a cabo pela primeira-dama salvadorenha, a brasileira Vanda Pignato.

Representante do Partido do Trabalhadores (PT) na América Central até assumir o posto ao lado do presidente salvadorenho, Mauricio Funes, Vanda contou ao iG que foi a própria Michelle quem mostrou interesse em visitar o projeto Ciudad Mujer (Cidade Mulher), uma espécie de centro de formação para mulheres, com orientação para prevenção na área de saúde sexual e reprodutiva, apoio a vitimas de violência, capacitação profissional e microcrédito.

Divulgação/ Presidência de El Salvador
Vanda Pignato, primeira-dama e secretária de Inclusão Social, durante Primeira Feira de Oportunidades para a Juventude de El Salvador
"A visita de Michelle ao Cidade Mulher respalda os esforços de nosso governo em favor da população excluída, em especial das mulheres. Esse apoio já resultou em uma importante doação dos Estados Unidos de equipamentos médicos especializados para todas as unidades do Cidade Mulher que serão construídas", contou. A brasileira, que escolheu El Salvador para viver desde 1992, espera também que o próprio Obama anuncie apoio a planos de combate à pobreza em El Salvador.

Brasileira nascida no Tatuapé, zona leste de São Paulo, a primeira-dama salvadorenha acredita que "as relações entre EUA e El Salvador estão em um momento bom". "Em grande parte, isso se deve ao fato de os dois países estarem sendo governados por presidentes jovens e renovadores", afirmou.

Para Vanda, a escolha de Obama por El Salvador em sua primeira viagem oficial à América Latina deu-se mais por um "olhar para o futuro do que para o passado". No lugar de uma mea culpa em relação a governos americanos que apoiaram forças oficiais durante a guerra civil (1979-1992), que deixou 75 mil mortos, ela espera que Obama mire o futuro: "Não podemos deixar escapar a oportunidade para combater a pobreza em toda a América Central. Mais importante que olhar para o passado é Obama nos ajudar nesse desafio", concluiu. Leia, a seguir, a entrevista na íntegra.

iG: Durante a passagem de Obama por El Salvador, a primeira-dama americana, Michelle Obama, visitará o programa social Cidade Mulher, menina dos olhos do governo. Qual a inspiração para o principal projeto e como ele funciona?
Vanda Pignato: O Cidade Mulher é um projeto idealizado por mim e funciona como uma espécie de síntese de experiências que recolhi ao longo dos anos de trabalho social com as mulheres mais pobres. Trata-se de um grande centro de apoio e formação da mulher, que engloba a prevenção nas área da saúde, essencialmente sexual e reprodutiva, atenção e apoio a mulheres vitimas de violência, capacitação e microcrédito. Estou muito feliz porque o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) considerou o projeto exemplar e pensa em transformá-lo em referência de política de gênero para outros países. Vamos inaugurar a primeira das seis unidas previstas no fim do mês de março.

iG: Como se acordou a visita de Michelle Obama ao projeto?
Vanda: A primeira-dama americana manifestou interesse em visitar o projeto por considerá-lo uma iniciativa original de valorização e promoção dos direitos das mulheres, principalmente das mais pobres.

iG: Qual a expectativa da senhora em relação a esse encontro com a primeira-dama americana? Como acredita que os EUA podem ajudar?
Vanda: O próprio Barack Obama deve anunciar planos importantes para ajudar o crecimento econômico e a luta contra a pobreza em El Salvador. Da mesma forma, a visita de Michelle ao projeto respalda os esforços de nosso governo em favor da população excluída, em especial das mulheres. Esse apoio já resultou em uma importante doação de equipamentos médicos especializados para todas as unidades que serão construídas. Respeito e admiro a história de vida de Michelle, uma mulher culta, competente e de grande sensibilidade, que sabe o quão importante é as mulheres somarem esforços em favor de suas irmãs mais pobres. As mulheres são vítimas de violência em todo o mundo, mas principalmente na América Latina, na África e na Ásia, onde ainda pesa muito o pensamento machista e discriminatório contra a mulher. Ainda são frequentes, aqui e no restante da América Latina, casos de violência doméstica e subvalorização da mulher no emprego. Não podemos nos conformar com isso se desejamos realmente conseguir a inclusão social e construir uma sociedade verdadeiramente democrática.

iG: A senhora comanda a Secretaria de Inclusão Social de El Salvador. Há algum programa do Brasil que pensa em adaptar para o país?
Vanda: Por melhores que sejam as experiências brasileiras na área social - e existem no Brasil alguns dos melhores programas sociais do mundo -, não queremos transportar de forma mecânica ou copiar, sem adaptações críticas, o que deu certo aí. A esquerda salvadorenha, mesmo longe do poder federal, soube pensar o seu país, não só assimilando a experiência de governos populares de outros países, mas também das prefeituras que governou em El Salvador, como San Salvador. Temos a chance, agora, de colocar isso em prática.

iG: Como funciona a versão do Bolsa Família em El Salvador? Houve acompanhamento do projeto salvadorenho por especialistas ou autoridades brasileiras para que fosse implantado? O que mudou nele desde o governo anterior, que ensaiou uma versão do programa no país?
Vanda: O governo anterior fez uma cópia mal feita e diminuta do Bolsa Família, que só atendia a zonas rurais. O governo Funes ampliou e melhorou o programa, que agora se chama Comunidades Solidárias Urbanas e Rurais. Nosso objetivo é aperfeiçoá-lo ainda mais, incorporando o microcrédito e a capacitação profissional. Além dos nossos técnicos, temos a ajuda de companheiros do Brasil.

iG: Como se dá o intercambio entre Brasil e El Salvador? Há projetos específicos na área econômica? A amizade entre o ex-presidente Lula e Funes ajudou de que forma essas relações?
Vanda: Há alguns programas e convênios ainda em estudo e em implantação, iniciados no governo Lula, e que certamente terão continuidade no governo da presidenta Dilma. São programas que envolvem as áreas social, econômica e tecnológica. Além disso, estamos ampliando laços com a iniciativa privada do Brasil. Pelo fato de ter um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, El Salvador poderia ser também um grande portão de entrada de produtos brasileiros no mercado americano.

AP
O presidente de El Salvador, Mauricio Funes, com a primeira-dama Vanda Pignato durante a cerimônia de posse na capital San Salvador, em 1º de junho de 2009
iG: A senhora foi representante do Partido dos Trabalhadores (PT) na América Central até seu marido, Mauricio Funes, assumir a presidência. O que a levou a El Salvador?
Vanda: Sintetizo minha ligação com El Salvador em três palavras: amor, mistério e militância. Para você ter uma ideia, quando ainda fazia o segundo grau, em São Paulo, minha professora pediu para que cada estudante escolhesse um país como tema de um trabalho dissertativo. Eu, sem nunca ter ouvido falar em El Salvador, escolhi esse país. Curioso, não? Depois participei da fundação do PT, e, em especial, de sua Secretaria de Relacões Internacionais. Também atuei em movimentos de defesa dos direitos humanos e solidariedade internacional nos anos 80. Foi assim que ajudei a fundar o primeiro Comitê de Solidariedade a El Salvador no Brasil durante a guerra civil (1979-1992). Casei-me na época com o salvadorenho Ernesto Zelandya, que era o representante da Frente Farabundo Martí pela Libertação Nacional (FMLN, hoje partido do presidente salvadorenho) na América do Sul. Decidi viver em El Salvador logo depois da assinatura dos Acordos de Paz, em 1992, e por muitos anos fui representante do PT na América Central, período em que mantive contato com as principais lideranças de esquerda da região. Depois de me separar do Ernesto, conheci o então jornalista Maurício Funes, durante uma atividade para a promoção da cultura brasileira. Foi amor à primeira vista e, desde o nosso primeiro encontro, nunca mais nos separamos. Depois de mais de 15 anos juntos nasceu Gabriel, nosso filho.

iG: Depois de tantos anos na oposição, como é estar no governo, na situação?
Vanda: Foram muitos anos de oposição a gobernos da Arena, partido de direita que é nosso principal adversário no país. Em 1994, quando a FMLN participou das primeiras eleições livres de El Salvador, asseguradas pelos Acordos de Paz, o país era governado pela Arena, que continuou vencendo as eleições, até a vitória do Mauricio, em 2009. Estar no governo é muito diferente da condição de oposição, já que os papéis são bem diferentes. Mas a essência da ação política não muda porque nossos compromissos, objetivos e ideais continuam os mesmos. Quando estamos no governo, é preciso reconhecer que a realidade nos torna mais pacientes, mais realistas e mais objetivos.

iG: Quais as diferenças entre a esquerda de El Salvador e do Brasil? A sociedade salvadorenha, especialmente setores historicamente ligados à direita, entende a diferença entre o bolivarianismo, defendido por Chávez, e o ‘lulismo’?
Vanda: Um dos grandes equívocos do antigo socialismo, que alguns gostavam de chamar de socialismo real, foi o de imaginar um modelo único de esquerda para o mundo. Isso não existe. As esquerdas democráticas têm feições próprias de acordo com a cultura e a história de cada país. Dessa forma, existem algumas semelhanças e também muitas diferenças entre a esquerda salvadorenha e a brasileira. Como aqui tivemos uma guerra civil violenta, que deixou marcas profundas na sociedade, as divisões e conflitos entre esquerda e direita se exarcebaram de forma permanente, durante muitos anos no pós-guerra civil. O governo Funes, que tem um forte componente de paz e união nacional, vem construindo um ambiente democrático e transparente onde é possível o convívio saudável de grupos de pensamentos diferentes. Por ser o primeiro governo democrático de esquerda depois da guerra civil, o governo Funes tem provado, como provou o governo Lula e acredito que o de Dilma também o fará que é possível governar para todos, mas com foco e prioridade nos mais pobres. A convicção democrática e o olhar social aproximam o governo Funes dos governos Lula e Dilma.

iG: A senhora tem um histórico de militância partidária maior de que o de seu marido. Isso os faz diferentes em que aspectos dentro da política? Assim como a ex-primeira-dama brasileira Marisa Letícia, a senhora atua como conselheira do presidente?
Vanda: Acho que os quase dois anos de Mauricio na presidência já valeram mais do que todos os meus anos de militância. Além disso, mesmo sem ter vivido uma longa história partidária, Mauricio foi sempre um jornalista militante e independente que encarou, com coragem, os governos autoritários da direita. Temos grande afinidade política e trocamos muitas ideias. Mas, obviamente, a decisão final é unicamente dele. Minha tarefa diária está focada no meu trabalho como titular da Secretaria de Inclusão Social, criada neste governo.

iG: Qual é, na sua opinião, a influência da presidência de Funes na América Central?
Vanda: O Mauricio é uma referência nova na política centro-americana, sem vínculos com as velhas práticas da esquerda ou da direita. Por isso tem recebido importantes manifestações de apoio da comunidade internacional pelo seu importante papel no equilibrio da América Central.

iG: A senhora acredita que a América Latina é hoje mais independente de Washington?
Vanda: A região está cada vez mais unida e apredendeu a valorizar o seu papel no mundo. Vivemos um ambiente majoritariamente democrático e com políticas de desenvolvimento com inclusão social em muitos países. Temos hoje um relacionamento maduro e proveitoso com os EUA. Não podemos esquecer que quase 2 milhões de salvadorenhos vivem e trabalham no vizinho do norte. E temos referência fortes no nosso próprio bloco, como Brasil, Colômbia e México.

iG: A viagem de Obama a El Salvador seria uma mensagem sobre um novo tipo de política externa na qual os EUA estão apostando, conforme disse o presidente Funes? Como seria essa diplomacia?
Vanda: As relações entre EUA e El Salvador estão em um momento muito bom. Em grande parte, isso se deve ao fato de os dois países estarem sendo governados por presidentes jovens e renovadores. Hoje há entre os países uma diplomacia onde prevalece o respeito mútuo, a política de não intervenção e a defesa da democracia, liberdade e direitos humanos.

iG: Analistas acreditam que a escolha do Brasil, Chile e El Salvador para a visita de Obama à região se deu pelo fato de os três países terem tido um passado de ditaduras militares (apoiadas pelos EUA) cruéis. A senhora concorda?
Vanda: Acho que a escolha se deu mais por um olhar para o futuro do que para o passado. São três países com histórias e pesos diferentes, mas que estão lutando, de forma obstinada, para construir um futuro melhor para seu povo, fortalecendo o sistema democrático.
iG: O que os salvadorenhos gostariam de ouvir de Obama? Um mea culpa em relação ao passado ou a promessa de uma nova era nas relações entre EUA e El Salvador?
Vanda: Queremos que o presidente Obama entoe com nós uma bela canção de futuro. Não podemos deixar escapar a oportunidade de somarmos esforços para combater a pobreza em toda a América Central. Para isso, precisamos desenvolver e diversificar nossas economias, consolidar instituições, implantar programas sociais ousados, além de investir na educação de nossas crianças e jovens. Mais importante que olhar para o passado é Obama nos ajudar nesse desafio.

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