Diálogo nuclear deve marcar visita de Obama ao Chile

Temor de acidente em usina japonesa muda agenda do líder dos EUA em Santiago e provoca críticas à assinatura de acordo atômico

Por Luísa Pécora, enviada a Santiago, Chile |

AFP
Manifestante do Greenpeace protesta contra visita do presidente dos EUA, Barack Obama, ao Chile em 20/03/2011
Antes mesmo de começar, a visita do presidente dos EUA, Barack Obama, ao Chile, é marcada por uma polêmica: um acordo sobre energia nuclear assinado pelos dois países na sexta-feira, apesar dos temores de um desastre na usina de Fukushima , no Japão, após a passagem de um terremoto seguido de tsunami .

Originalmente, a cerimônia de assinatura do acordo aconteceria durante a visita de Obama e era vista pelo presidente chileno, Sebástian Piñera, como um dos pontos altos da agenda. Mas no momento em que diversos países reveem seus programas de energia nuclear por causa da tragédia no Japão, Chile e EUA optaram por um tom mais discreto, antecipando a assinatura e deixando-a a cargo de ministros, e não dos presidentes.

Os dois lados reforçam que o acordo não contém planos de construção de usinas nucleares no Chile, que, assim como o Japão, está localizado no Círculo do Fogo do Pacífico , a área de maior atividade sísmica do mundo. O documento, similar a outros dois assinados com França e Argentina, está centrado em cooperação de tecnologia e no treinamento de técnicos chilenos. Piñera afirma que o Chile precisa “aprender” sobre energia nuclear e manter à mesa a possibilidade de utilizá-la por causa da falta de estoques significativos de combustíveis renováveis.

Ainda assim, o timing da discussão, menos de duas semanas após o terremoto que provocou a crise nuclear japonesa, incomoda a população. “Muita gente está descontente com esse acordo, assim como eu”, afirmou a chilena Natalia Gonzales, 24 anos, ao iG . “Não concordo com esse debate. Não quero que algo terrível como o que aconteceu no Japão se repita.”

Na manhã de domingo, um protesto contra a visita de Obama e o acordo nuclear reuniu cerca de cem manifestantes na Plaza de Armas, no centro de Santiago.

Moradora da cidade há cinco anos, a peruana Pilar Vargas Medina, 53 anos, viu a manifestação mas não se juntou a ela, por considerar que “deve respeitar o país onde vive”. Ela não escondeu, porém, o alívio pelo fato de o Peru estar longe da discussão nuclear. “O Japão mostrou que às vezes um país mata com suas próprias armas”, definiu.

O acordo também é alvo de críticas da oposição. Na sexta-feira, o líder do partido Democracia Cristã na Câmara dos Deputados, Patricio Vallespín, classificou o documento de “precipitado”. "Esse tema não foi discutido com as Comissões da Câmara e o Senado", afirmou, queixando-se também da falta de informações sobre o texto. “Não sabemos do que se trata, quem envolve ou quais são seus objetivos finais.”

O deputado do partido governista União Democrata Independente (UDI) Juan Lobos afirmou, no entanto, que o risco de catástrofe nuclear no Japão "não justifica uma suspensão no desenvolvimento nuclear no Chile". “Podemos construir essas usinas a centenas de quilômetros dos centros populacionais, como no deserto, e incorporando tecnologia de última geração para evitar qualquer perigo às pessoas e ao meio-ambiente", afirmou.

Agenda

O presidente americano desembarca entre 12h e 13h no aeroporto de Santiago, onde será recebido pelo chanceler chileno, Alfredo Moreno. Depois, ele e a primeira-dama, Michelle Obama, serão recebidos por Piñera e sua mulher, Cecilia Morel, no Palácio La Moneda. Obama passará em revista a guarda do palácio e, depois, posará para fotos com Piñera.

Os dois líderes passam, então, para uma reunião de trabalho da qual também participarão cinco integrantes de cada delegação. As discussões serão ampliadas e passarão a contar com outros nomes das comitivas e, depois, os presidentes farão um pronunciamento conjunto à imprensa.

No evento mais aguardado da agenda, Obama vai ao Centro Cultural do La Moneda, onde fará um discurso para convidados no qual indicará sua política externa para a América Latina. Depois do pronunciamento, ele volta para o La Moneda para um jantar oficial oferecido pelo líder chileno em sua homenagem.

A previsão é que Obama deixe o Chile por volta das 9h de terça-feira, seguindo em direção a El Salvador, terceira e última parada do líder em seu giro pela América Latina .

*Com informações da AP e da Ansa

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