Com viagem, Obama corteja América Latina mais autônoma

Após passado de apoio de Washington a ditaduras e da ascensão de governos anti-EUA, região tende a cooperar sob condições

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

AFP
Obama deixa avião da Marinha americana em visita a Portland, nos EUA (foto de arquivo)
Depois de um passado de intervenção e um posterior afastamento pela ênfase na guerra ao terror após o 11 de Setembro de 2001, os EUA se voltam novamente para a América Latina com a viagem do presidente dos EUA, Barack Obama, entre os dias 19 e 23 de março ao Brasil, Chile e El Salvador .

Em um contexto marcado pelo protagonismo do Brasil no cenário mundial, pela ascensão de governos com retórica antiamericana e pela crise financeira da qual os EUA ainda se recuperam, a expectativa é que a viagem de Obama à região impulsione as relações entre Washington e países latino-americanos. 

De acordo com o vice-conselheiro de Segurança Nacional para Comunicações Estratégicas dos EUA, Ben Rhodes, o giro latino-americano de Obama será a viagem símbolo da política de seu primeiro mandato para a região. "O presidente terá a oportunidade de detalhar o que estamos fazendo em várias áreas-chave, como cooperação energética, segurança dos cidadãos, crescimento econômico e desenvolvimento, democracia e direitos humanos", disse na quarta-feira.

Rhodes também lembrou que Brasil e Chile tiveram bem-sucedidas transições de governos autoritários para democráticos, o que os tornaria exemplos para países como Egito e Tunísia, que recentemente foram palco de mobilizações populares que forçaram a queda de regimes autocráticos.

Para o especialista em relações entre EUA e América Latina, Rafael Villa, da Universidade de São Paulo, daqui para frente haverá mais parceria e autonomia nas relações do que nas últimas décadas.

“Haverá uma cooperação mais vigilante e atenta entre os governos regionais em relação à política americana”, afirmou o especialista, que cita o surgimento da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em 2008, e o descontentamento regional sobre a concessão de uso de bases militares na Colômbia, em 2009, como exemplos de maior independência em relação a Washington. Segundo ele, “não será uma cooperação incondicional às políticas dos EUA”, como nos anos das ditaduras militares.

Apesar de a própria Casa Branca afirmar que a viagem diz respeito aos interesses econômicos dos EUA – na terça-feira, o porta-voz Jay Carney disse que a prioridade de Obama é o crescimento econômico e ressaltou que o giro pela região terá como destaque as relações comerciais –, o respaldo político é visto como principal viés. A região já foi considerada seu “quintal” e atualmente vem sendo disputada economicamente também pela China, com enorme apetite por matérias-primas, tornando a região menos dependente do vizinho do norte. A China, por exemplo, já ultrapassou os EUA como maior parceiro comercial do Brasil.

“Essa visita reflete as prioridades de longo prazo da administração Obama, que também busca reconhecer a emergência do Brasil como um parceiro essencial, política e economicamente”, disse Kirk Buckman, da Universidade de New Hampshire, nos EUA. “Obama identificou particularmente a América Latina e a Rússia como regiões que precisavam de esforços renovados para melhores relações. Mas, apesar do anúncio de uma nova era, isso ainda precisa acontecer de fato.”

A viagem concretizaria expectativas de relações promissoras quando Obama tomou posse, em 2009, mas que recuaram no segundo ano de governo. Além disso, o presidente americano buscaria não repetir o erro de seu antecessor George W. Bush (2001-2009), para quem a região teve uma parca prioridade na política externa, o que abriu espaço para o surgimento de governos com discurso antiamericano, como o de Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e Daniel Ortega (Nicarágua).

‘Imperialismo’

Como um dos maiores porta-vozes do antiamericanismo na região, Chávez, por exemplo, costuma condenar a ingerência americana (que chama de "imperialismo") que marcou a região em décadas passadas. Depois do período da Doutrina Monroe, no fim do século 19, em que Washington via a América Latina como esfera da influência, os anos 60, 70 e 80 ficaram marcados por governos militares apoiados por Washington. No contexto da Guerra Fria, a batalha regional contra o comunismo levou à perseguição de membros da luta armada de esquerda, em cooperação conjunta do Plano Condor.

As relações esfriaram com o fim da Guerra Fria e resultaram em um distanciamento que se aprofundou ainda mais depois do 11 de Setembro, com a política externa americana voltada para conflitos no Iraque e no Afeganistão. “O 11 de Setembro foi fundamental para esse esfriamento”, disse Villa. “Na medida em que boa parte dos países latino-americanos não concordaram com os termos da guerra ao terror, apenas aliados como a Colômbia tiveram maior alinhamento ideológico e político com os EUA.”

Posturas de países da região também pesaram para o distanciamento das relações. Com Chávez apoiando Cuba incondicionalmente e o Brasil reticente em condenar violações de direitos humanos por parte do governo iraniano, durante as eleições de 2009, a Casa Branca se afastou. “A política externa brasileira, especialmente com Lula, mostrou-se contraditória para os EUA. O caso do Irã é um bom exemplo, assim como a proximidade com Chávez e Cuba”, observou Kenneth Maxwell, da Universidade de Harvard.

Presente

A chegada de Dilma Rousseff à Presidência da República é vista por analistas e diplomatas americanos como uma mudança de postura em relação aos direitos humanos no Irã. Uma visão mais cética de Dilma em relação ao governo iraniano é bem-vinda pela Casa Branca.

Além disso, a descoberta das reservas de petróleo na camada pré-sal e a relevância do Brasil no cenário internacional, que passou a ser a sétima maior economia do mundo, reforçam os laços econômicos. Nesse contexto, acordos sobre venda de petróleo brasileiro para os EUA, infraestrutura e aviões militares americanos para o Brasil certamente serão debatidos durante a visita de Obama.

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