Cidade de Deus é 'maquiada' para receber Obama

Funcionários da Prefeitura do Rio tapam buracos, pintam grades e podam árvores por causa da visita de presidente americano

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Localizada na zona oeste do Rio, a Cidade de Deus corre contra o tempo. Desde o início desta semana, funcionários a serviço da Prefeitura do Rio tapam buracos em ruas da favela, podam árvores, fazem manutenção de praças e pintam grades. A força-tarefa tem um motivo com nome e sobrenome: Barack Obama. O presidente americano chega ao Brasil no sábado pela manhã e sua agenda no Rio prevê uma visita à comunidade na manhã do domingo 20 de março.

Na Praça do Lazer, situada perto da entrada da Cidade de Deus, o ritmo de trabalho é intenso. Grades, algumas enferrujadas pela ação do tempo, são pintadas de azul, ferros desgastados recebem solda e áreas quebradas, cimento. Nessa praça, Obama deve assistir a algumas apresentações culturais e trocar rápidos passes de futebol com meninos moradores da favela.

Ao lado da praça, uma árvore - cujos galhos estavam próximos da rede elétrica - é podada. As ruas em que a comitiva presidencial deve passar têm os buracos tapados. A operação, no entanto, não é contínua. O asfalto novo só é colocado onde há o buraco.

“Essa é uma maquiagem sem vergonha. Quero ver se tudo vai continuar bonito desse jeito depois que o Barack Obama for embora. Desse jeito, dá vontade de pedir para ele vir todo dia”, reclama Regina Antunes, que mora em frente à Praça do Lazer. “Aqui o lixo sempre acumula e quem capina a grama somos eu e meu marido. Estou pensando em comprar nariz de palhaço para eu e meus vizinhos usarmos durante a visita do Obama .”

Longe do provável percurso de Obama na Cidade de Deus, Joelson Alves, morador da comunidade há 35 anos, reclama do esgoto que está entupido na sua rua há três meses. Uma via transversal à sua está repleta de buracos com poças de água. Nesse local, o carro a serviço da Prefeitura do Rio não estava presente durante a visita da reportagem do iG à favela.

“Não sou contra a visita dele. Só espero que com ela venham benfeitorias para a comunidade toda. Onde ele vai passar, está ficando tudo muito bonito. O problema é o restante”, protesta.

Entre os moradores, o clima, no entanto, não é apenas de descontentamento. Há aqueles que estão ansiosos pela visita do presidente americano. É o caso de Antonio Jorge de Oliveira, dono de uma banca de jornal na Cidade de Deus há 20 anos.

“Sabemos que não vamos conseguir chegar perto dele, mas a sua visita vai trazer muitos benefícios. A comunidade vai ter mais visibilidade. Muita coisa é prometida e nunca acontece. Acho que dessa vez vai”, comemora.

Pacificação

A Cidade de Deus foi escolhida para receber Obama por ser plana, ao contrário da maior parte das favelas cariocas, localizadas em morros e, portanto, íngremes. A favela tem vias abertas e amplas, o que vai facilitar a circulação da comitiva presidencial e da segurança do presidente americano . Também estavam na disputa a favela Chapéu-Mangueira e o Morro Santa Marta , ambas na zona sul do Rio.

George Magaraia
Técnicos da prefeitura fazem recapeamento de asfalto ao lado de viatura da UPP
A comunidade possui uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) desde fevereiro de 2009. A UPP conta com 300 policiais militares que se dividem em quatro turnos. Alguns agentes ficam localizados em pontos estratégicos da favela, enquanto outros fazem rondas 24 horas por dia. O efetivo está à disposição do esquema de segurança que será montado para receber Obama.

A segurança na Cidade de Deus trouxe melhorias nos serviços para a comunidade, como regularização da rede elétrica e implantação de TV a cabo a preços populares. O lançamento desse último projeto na favela, em setembro do ano passado, contou inclusive com a participação da apresentadora Hebe . A comunidade também passou a contar agências bancárias no seu interior.

Histórico

O conjunto habitacional foi construído na década de 60, durante o mandado do então governador do Estado da Guanabara Carlos Lacerda, para receber funcionários públicos. Um forte temporal que atingiu o Rio em 1966, no entanto, deixou centenas de moradores de favelas desabrigados, que foram levados pra lá.

A medida inicialmente provisória acabou sendo definitiva. Com o tempo aconteceram invasões, aparecendo construções ilegais ao lado das casas planejadas, e a Cidade de Deus , idealizada pelo religioso Dom Hélder Câmara, grande defensor dos direitos humanos, expandiu-se desordenadamente.

“O caráter religioso do local está presente em alguns logradouros, como a Praça da Bíblia e as ruas Moisés e Salomão”, conta José Baptista Ferreira de Mello, coordenador do projeto "Roteiros Geográficos do Rio", da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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