"Vimos a proposta deles, apostamos e encomendamos"

Editor da Quadrinhos na Cia fala sobre o mercado de graphic novels no Brasil

Guss de Lucca, iG São Paulo | 23/04/2010 15:27

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Responsável pelo Quadrinhos na Cia, selo que trata exclusivamente da publicação de histórias em quadrinhos da Companhia das Letras, André Conti revela entusiasmo com o lançamento da graphic novel Cachalote - que após um atraso de seis meses deve chegar às livrarias em maio de 2010.

O trabalho, uma colaboração do escritor Daniel Galera com o quadrinista Rafael Coutinho, marca o início de uma nova fase do selo que, após um ano de lançamentos majoritariamente estrangeiros, deve começar a produzir HQs de artistas nacionais com mais frequência.

Além de falar da Cachalote e de como as graphic novels vem ganhando espaço na editora, Conti adiantou alguns de seus próximos lançamentos durante a entrevista concedida ao iG Cultura.

O que é uma graphic novel para você?

Esse termo é um pouco como um guarda-chuva de quadrinhos adultos, ele surge quando alguns quadrinistas estão fazendo quadrinhos mais adultos. Dizem que Um Contrato com Deus é a primeira Graphic Novel, mas não é.

Houve um momento na década de 1950, nos Estados Unidos, em que as pessoas queimaram gibis, achando que eles faziam mal para as crianças, besteiras desse tipo. Já nos anos 60/70 você tem a contracultura, quando surgem bons quadrinistas que querem ser reconhecidos como artistas... O termo foi se insinuando, se estabelecendo nisso, essa coisa do quadrinista mostrar que seu trabalho era o equivalente a um romance.

Tem gente que prefere uma abordagem mais técnica, dizendo que graphic novel é o quadrinho que é publicado diretamente no formato de livro. Mas aí você tem o Cavaleiro das Trevas, do Frank Miller, que foi publicado como gibi e só depois foi encadernado.

A mesma coisa ocorre com Sandman, do Neil Gaiman. Ele poder ser 10 graphic novels ou 76 gibis muito bons. Nesse caso o nome importa menos. Ele é uma tentativa de sair do estigma da HQ infantil, superficial.

Por esse lado, parece que chamar uma graphic novel de gibi é pejorativo.

Eu continuo chamando de gibi. Às vezes até me policio, converso com um autor e pergunto se o gibi dele vai sair (risos).

Foto: Divulgação Ampliar

Imagem da graphic novel Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho

A graphic novel já é conhecida há décadas nos Estados Unidos, mas parece que há poucos anos vem ganhando popularidade no Brasil. Por que isso?

É difícil dizer por quê. A questão dos cinemas, dos filmes baseados em HQs, talvez abra o universo dos quadrinhos para um público maior. Ou talvez o fator geracional, pois a molecada que pegou o "boom" inglês nos anos 1980, com Frank Miller, Alan Moore, Grant Morrison, hoje em dia esta na casa dos 30/40 anos.

Quanto tempo tem o Quadrinhos na Cia?

Completa um ano em maio.

E nesse primeiro ano os lançamentos foram majoritariamente internacionais.

Nesse primeiro ano tivemos mais autores internacionais. Mas isso porque uma HQ demora para sair, muito mais do que achávamos que demorava. O próprio Cachalote tínhamos pensado em lançar em novembro de 2009, mas vamos lançar só em maio.

O Brasil, com raras exceções, é bom em histórias em quadrinhos curtas. Nossas tirinhas estão entre as melhores do mundo, como se elas fossem a nossa ceara. Agora, nesse último ano, as editores e os próprios quadrinistas estão descobrindo o processo das HQs longas, o tempo de gestação de uma graphic novel.

Grande parte dos quadrinistas vem das HQs independentes, então eles precisam entender que para ser publicado por uma editora o trabalho precisa passar por três revisões e um monte de outros processos que levam tempo também. E nem sempre o próprio quadrinista sabe o quanto ele produz, o que nos leva a ajustar os prazos.

Nesse ano, 2010, vamos fazer muito mais HQs brasileiras.

Essas HQs brasileiras fazem parte de uma série inaugurada pela Cachalote?

A Cachalote foi bolada pelo Galera e o Rafael Coutinho. Eles se conheceram, ficaram amigos e tiveram a ideia. Ambos fizeram o roteiro, o Rafa desenhou algumas páginas e vieram bater aqui, porque o Galera já é autor da casa.

Na época ninguém sabia, muito menos eles, que faríamos um selo voltado para HQs. Vimos a proposta deles, apostamos e encomendamos.

Depois essa ideia inspirou o Rodrigo Teixeira, da produtora de cinema RT Features, com quem a Companhia das Letras já tem uma parceria, a série Amores Expressos, a convidar autores nacionais e combiná-los com quadrinistas. Daí surgiu a parceria do Emilio Fraia com o DW, por exemplo.

Foto: Divulgação/DW Ampliar

Imagem da graphic novel O Nome da Cidade, de Emilio Fraia e DW

Você pode adiantar alguns dos seus próximos lançamentos nacionais?

A graphic novel do Emilio Fraia com o DW chama-se O Nome da Cidade. Ela conta a história de dois irmãos que não se veem por anos e marcam uma viagem de carro até uma montanha, onde estiveram quando crianças.

O que era para ser um tipo de road movie transforma-se numa história de suspense, pois o leitor não sabe se essa viagem ocorreu mesmo ou se há uma invenção nisso, e uma série de mistérios, como o desaparecimento do carro, acaba lançando um mistério sobre essa cidade. O Nome da Cidade será lançada no segundo semestre.

Temos também a Memória de Elefante, que chega às lojas em junho. Ela é de autoria do quadrinista Caeto e é o tipo mais tradicional de graphic novel: uma autobiografia do autor, que tem uma vida interessante como pintor de rua em São Paulo.

A história mistura o seu lado profissional, como o pintor que vendia quadros na Benedito Calixto e fazia HQ independente, e a vida pessoal, focando na relação com seu pai, que em determinado momento se assume homossexual.

Vamos lançar uma versão em papel da Muchacha, que é uma história de época feitas pelo Laerte no blog Manual do Minotauro. É uma espécie de novela sobre o Capitão Tigre, os bastidores de uma novela, mas que terá acréscimos na nossa publicação, a história vai dar uma crescidinha.

Outro lançamento para 2010 é Avenida Paulista, um gibi clássico do Luiz Gê que foi publicado originalmente na revista da Goodyear, no final dos anos 1980. A história acabou virando item de colecionador, pois não foi comercializada. Era uma antiga demanda dos fãs de quadrinhos que publicaremos no segundo semestre.

Há ainda um trabalho inédito do Luiz Gê, mas que vai ficar para 2011 e sobre o qual não posso falar.

E como essas histórias chegam até vocês?

O Rafael Coutinho tem dez amigos quadrinistas e os dez acabam mandando material para cá. O Caeto é um desses casos. Eu não tinha a menor ideia de quem ele era, sabia uma coisa ou outra da Sociedade Radioativa, a revista que ele editava, mas só.

Existem planos de exportar esse material, fazer o caminho inverso e tentar conquistar o público no exterior?

Trabalhamos assim com os autores da Companhia das Letras e vamos fazer o mesmo com os quadrinhos, que possuem um mercado muito receptivo. A França publica muito material estrangeiro e nós vamos atrás disso.

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