Vitória de Sofia Coppola é surpreendente

Premiação do 67º Festival de Veneza foi eclético como o presidente do júri, Quentin Tarantino

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

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Sofia Coppola recebe o Leão de Ouro de Quentin Tarantino, presidente do júri do 67º Festival de Veneza
O júri presidido por Quentin Tarantino na competição oficial do 67º Festival de Veneza foi eclético como o cineasta. O Leão de Ouro para Somewhere , de Sofia Coppola, pode ser considerado uma surpresa. Para quem já está pensando em maldade, verdade que a diretora é amiga de Tarantino, mas Tom Tykwer , Tsui Hark e Monte Hellman também são. “Fiquei muito surpresa com o Leão de Ouro, espero que ajude nosso filme e seja um encorajamento para que produções pequenas e pessoais sejam vistas”, disse a cineasta na coletiva de imprensa que se seguiu ao anúncio. Ela contou que tinha acabado de falar com seus pais, e que Francis Ford Coppola tinha ficado muito animado porque era “uma das maiores honras ter um Leão de Ouro”.

Somewhere é um drama delicado (e muito bem filmado) sobre a mudança que a relação com a filha opera na vida de um ator de Hollywood, o tipo de filme que dificilmente ganha prêmios em festivais de cinema. Segundo Quentin Tarantino, Somewhere foi uma unanimidade. “Ficamos encantados pelo filme, e ele foi tornando-se melhor e melhor conforme os dias passaram. Ficávamos voltando a ele, citando-o quando comentávamos outras produções.”

Somewhere não poderia ser mais diferente de Balada Triste de Trompeta e Essential Killing , que levaram os outros prêmios importantes da noite – dois cada um. Numa competição tão equilibrada, com nenhum favorito claro, era de se esperar que a premiação fosse mais espalhada. Mas o júri deu o Leão de Prata de direção e o Osella de roteiro para Balada Triste de Trompeta , de Alex de la Iglesia, e o Prêmio Especial do Júri e a Coppa Volpi de ator para Essential Killing , de Jerzy Skolimowski, reconhecimento da força inequívoca das duas produções.

Na coletiva de imprensa que se seguiu ao anúncio, o presidente do júri disse que foi abolida a regra que proibia que uma mesma produção levasse dois troféus. “Falei para o Marco que era uma regra louca, que podia ser apenas uma recomendação. Como assim o prêmio de melhor atriz só pode ir para os filmes que não são os melhores? No caso do Leão de Ouro, é diferente, porque obviamente você está premiando o conjunto.” Tarantino disse que não queria que o troféu de roteiro ou de atriz fossem uma espécie de prêmio de consolação. “Sou roteirista, queria que o melhor roteiro ganhasse o prêmio de melhor roteiro.”

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Animado, o diretor espanhol Alex de la Iglesia arrancou risos dos presentes na coletiva do festival
O espanhol e o polonês são dois filmes de estilo visual mais próximo daquele do próprio presidente do júri, principalmente o barroco Balada Triste de Trompeta , com sua mistura de gêneros como terror e ação e caldeirão de referências. Ambos também têm temática política, o que, aparentemente, faz diferença para Tarantino, que concedeu a Palma de Ouro a Fahrenheit 11 de Setembro em 2004. A atração da coletiva foi Alex de la Iglesia, que já chegou tascando um beijo no pescoço de Tarantino. “Somos todos farsantes, estamos todos copiando. Ele é o mestre”, disse o espanhol, apontando para Tarantino. “Todos desfrutamos de copiar os trabalhos dos outros, isso é a pós-modernidade. Aqui estamos premiando o melhor barman”, completou, provocando risos.

Skolimowski mostrou bom humor ao falar do trabalho com Vincent Gallo . “Não importa o que ele tenha feito, porque valeu a pena. Sua performance é fenomenal, estou disposto a esquecer tudo”, disse. “Eu não gosto do protagonista, mas será que isso é por causa do Gallo ou porque eu o escrevi desta maneira?”, completou, fazendo a plateia rir. A escolha de Vincent Gallo esbarrou na obviedade, porque trata-se de um papel perfeito para render um prêmio: afegão perdido numa floresta polonesa que não fala uma palavra durante o filme todo. O ator gosta de se atormentar e ficou sem conversar com ninguém durante a filmagem. E se beneficiou de uma competição atipicamente fraca para protagonistas masculinos. Já a jovem atriz Ariane Labed enfrentou, em Attenberg , um personagem mais desafiador, pela construção muito específica imposta pelo projeto e pelo jeito de filmar da diretora Athina Rachel Tsangari. “Ficamos encantados pelo filme, que cresceu vagarosamente na nossa consciência. Não sabíamos que prêmio dar até começarmos a discutir melhor atriz. Aí ficou evidente que tinha de ser este, porque todo o filme é construído sobre seus ombros”, disse Tarantino à atriz na coletiva de imprensa.

Também já está virando tradição premiar um veterano pelo conjunto da obra, mas não especificamente pela obra apresentada no festival. Tarantino falou sobre as razões para a premiação de Monte Hellman pelo conjunto da obra. “Não foi só pelo cineasta que é, mas pelo artista que ele é, a maneira como inspirou tantos cineastas”, disse.

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