Premiação de Veneza em 2011 tem surpresas, mas não chega a ser injusta

"Tentamos dar troféus para o maior número de filmes possível", afirma o presidente do júri, o diretor Darren Aronofsky

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

À primeira vista, é difícil de entender o resultado do Festival de Veneza 2011 , em sua 68ª edição, anunciado na noite do sábado (10). Não parecem muito óbvias as afinidades de Darren Aronofsky, diretor de dramas como “Réquiem para um Sonho” e “Cisne Negro”, com “Faust”, de Aleksander Sokurov , “Terraferma”, de Emanuele Crialese, e “People Mountain People Sea”, de Cao Shangjun, vencedores dos três principais prêmios – pela ordem, Leão de Ouro, Prêmio Especial do Júri e direção –, todos com fortes componentes políticos e sociais.

"Faust", de Aleksander Sokurov, leva o Leão de Ouro em Veneza

AP
O diretor Alexander Sokurov com o Leão de Ouro por "Faust": atmosfera de sonho
Mas, pensando bem, “Faust” aposta num visual de sonho/pesadelo que deve ter atraído o presidente do júri. Não dá para dizer que foi um prêmio inesperado ou injusto, até pela trajetória do cineasta, ainda que não se trate exatamente de um cinema com a vibração do novo. Sokurov agradeceu ao júri. “É sempre difícil um ser humano compreender outro.”

O reconhecimento a “Terraferma” e “People Mountain People Sea” foi mais surpreendente, até porque representou a ausência de filmes de língua inglesa, que somavam dez na competição, entre os principais premiados. Mas, como prova de que nunca se sabe o que se passa na cabeça de um júri, na coletiva de imprensa após a premiação Aronofsky disse que as dimensões políticas foram fator fundamental nas suas considerações.

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O presidente deu outras pistas sobre como o júri pensou. “Houve muitos trabalhos ótimos, alguns mereciam vários prêmios. Tentamos achar o mais adequado para cada um e dar troféus ao maior número de filmes possível.”

Sobre “People Mountain People Sea”, escolhido como melhor direção, o diretor americano explicou: “Ficamos intrigados e impressionados em como foi feito. Ele nos levou numa jornada a um mundo que não conhecíamos e esperamos nunca mais ter de ver”. Shangjun, que saiu da China sem a aprovação da censura, afirmou que o Leão de Prata serve como “encorajamento ao cinema chinês, a novos cineastas e à possibilidade de mudança”.

Ousado foi o prêmio de roteiro para o original “Alpis” , do grego Yorgos Lanthimos, vaiado injustamente na sala de imprensa. Unanimidades foram os troféus para Deanie Ip, atriz de “Tao Jie” , e Michael Fassbender, por “Shame” , recebidos com palmas e gritos. É verdade que, no caso de Fassbender, eles partiram principalmente das mulheres, mas nenhum homem seria louco de negar a qualidade de seu trabalho no papel de um viciado em sexo. O ator busca os pequenos gestos, humanizando seu personagem e emocionando a plateia.

Fassbender disse que jamais temeu o papel. “O diretor Steve McQueen mudou minha vida em 2007 [com o filme ‘Hunger’], me deu oportunidade de trabalhar, o que sempre quis, desde que tinha 17 anos. Nem precisei ler o roteiro”, afirmou. “Ele gosta de falar de coisas sobre as quais não queremos falar. Foi especial vir a Veneza e ter resposta do público. Tenho de agradecer a Steve, meu irmão e meu mentor.”

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Deanie Ip, melhor atriz por "Tao Jie"
No caso de Deanie Ip, melhor atriz por “Tao Jie”, trata-se de uma performance da simplicidade, ainda que sua personagem sofra um AVC e fique semi-incapacitada, um tipo de interpretação que costuma agradar. A atriz, também conhecida como cantora em seu país, não tinha muitas concorrentes. “Não posso acreditar quão jovem e bela ela é. Não há dúvida de que demos o prêmio certo”, disse Aronofsky na coletiva de imprensa. Ip afirmou ter repensado muito a velhice depois do papel. “Percebi que não vou ficar mais jovem, preciso planejar o que farei no futuro. Não quero ser um peso para ninguém e não quero ir para um asilo. Preciso começar a planejar isso quando voltar a Hong Kong”, afirmou a atriz, provocando risos.

Outra escolha indiscutível foi o prêmio de contribuição técnica para a brilhante fotografia de Robbie Ryan em “O Morro dos Ventos Uivantes” , que capta a natureza em toda a sua brutalidade e beleza. Os jovens do filme de Andrea Arnold também eram favoritos para o troféu Marcello Mastroianni, mas o júri preferiu seguir a recomendação de não repetir premiação e, assim, escolheu os dois atores de “Himizu” . Shota Sometani, que tomou banho de tinta e de lama, pelo menos fez por merecer num filme difícil para seus intérpretes. Curiosamente, o júri comandado pelo americano Darren Aronofsky não deu troféu algum para americanos como “Tudo pelo Poder” e “Killer Joe” .

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