O radicalismo de Takashi Miike em Veneza

Cineasta japonês saiu de gueto comercial para aclamação da crítica e público

Ricardo Calil, especial para o iG Cultura |

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Samurais de 13 Assassins (ou 13 Assassinos), filme de Takashi Miike na competição pelo Leão de Ouro
Nos últimos anos, um seleto grupo de cineastas orientais tomou de assalto os principais festivais de cinema do mundo ao transformar a violência em estilo. Nomes como o sul-coreano Park Chan-wook ou o chinês Johnny To. Mas nenhum deles é tão radical e excessivo quanto o japonês Takashi Miike. Radical e excessivo no ritmo de produção: foram mais de 60 filmes em 20 anos de carreira (só no Festival de Veneza 2010 serão três deles: 13 Assassinos , em competição, e ainda Zebraman 2 e Zebraman , de 2004). Radical e excessivo, sobretudo, nas cenas de violência e sexo, filmadas com uma crueza raramente igualada no cinema.

No Festival de Toronto de 2001, o público recebeu sacos de vômito para a sessão de Ichi the Killer . Golpe de marketing, sim. Mas também uma questão de delicadeza com os espectadores: em uma das cenas, um assassino corta um homem ao meio verticalmente, da cabeça aos bagos; em outra, ele retalha um rosto, os pedaços voam e escorrem pela parede.

Em 2005, Miike foi convidado a participar da série Mestres do Horror , que reuniu grandes nomes do gênero, como John Carpenter, Tobe Hopper e Dario Argento, com suposta liberdade para conteúdo violento e sexual. O episódio do cineasta japonês foi o único não exibido pelo canal Showtime. “Até para mim foi difícil assistir. Definitivamente, foi o filme mais perturbador que eu vi na minha vida”, explicou Mick Garris, o criador da série.

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O diretor japonês Takashi Miike
Mas os filmes de Miike não devem ser confundidos com Jogos Mortais e congêneres. Eles têm um refinamento narrativo e estético que os distancia dos “gore movies” baseados exclusivamente na exibição de sangue & tripas – o que ajuda a explicar o interesse dos grandes festivais. A prova disso é que Miike vem obtendo sucesso também quando se arrisca em outros gêneros, como épicos marciais e até filmes infantis.

A carreira de Miike é quase um fruto do acaso. Apaixonado por motos, ele cogitou a idéia de ser piloto profissional. Decidiu cursar a escola de cinema fundada pelo mestre Shohei Imamura ( A Enguia ) em Yokohama, mas era um dos piores alunos. Quando uma TV local procurou assistentes de produção sem salário, eles indicaram o moleque que nunca aparecia nas aulas: Miike. Ele ficou dez anos na televisão, passou por diversas funções, tomou gosto pela coisa – e acabou se tornando assistente de direção em longas de vários cineastas, incluindo Imamura.

Seu trabalho como diretor começou em 1991 no chamado “V-Cinema”, de filmes de baixo orçamento feitos direto para DVD. Ele só iria estrear na tela grande quatro anos depois, com Shinjuku Triad Society . E a aclamação internacional chegaria ainda no final daquela década com Audition (1999), que daria início ao culto de seu nome no Ocidente. A partir daí, veio um sucesso atrás do outro, como a trilogia Dead or Alive , Visitor Q e Ichi the Killer , entre outros. Filmes que variam da mais extrema violência e perversidade sexual até a mais moralista defesa dos valores familiares e da pureza da infância. Ou seja, algo completamente nipônico.

A imprensa ocidental, sempre ávida por rótulos, rapidamente classificou Miike como “o Tarantino japonês”. Mas, dada a ascensão de Miike no cenário internacional, não é impossível que, daqui a algum tempo, os cinéfilos digam que Tarantino é “o Miike americano”.

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