¿Minha vida mudou¿, diz protagonista de Venus Noire

A professora cubana Yahima Torres, que faz sua estreia com papel de africana exibida como atração de circo, foi descoberta na rua

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

Getty Images
Yahima Torres: imigrante cubana foi descoberta nas ruas de Paris pelo diretor Abdellatif Kechiche
Sem Yahima Torres, Venus Noire seria um filme incompleto. Pelo menos, é essa a impressão ao sair de uma sessão do poderoso longa-metragem de Abdellatif Kechiche sobre a Venus Hotentote, na verdade, Saartjie Baartman, uma mulher sul-africana com características corporais consideradas exóticas pelos europeus que foi exibida como atração de circo no século 19 e teve o corpo exposto em museu francês até a década de 1980. O diretor sabe disso: “Era fundamental ter a atriz certa, inclusive porque ela precisava passar pela experiência sem ficar traumatizada. Depois de conversar com Yahima, soube que ela conseguiria”.

Kechiche estava atravessando a rua no bairro de Belleville, em Paris, quando avistou Yahima, imigrante cubana há sete anos na capital francesa. “Lembro-me que eu estava andando, depois de comprar alguma coisa para minha mãe. Estava falando sozinha, coisa que faço às vezes, rindo. Uma assistente de Abdel veio falar comigo, seria estranho um homem me parar na rua”, diz a atriz em entrevista da qual o iG participou.

O mais impressionante é que Yahima é estreante. “Nunca trabalhei como artista. Em Cuba, tive aulas de dança, teatro, música, pintura, na escola. O sistema educacional lá desenvolve o lado artístico dos estudantes”, disse. Foi uma estreia em grande estilo, na competição do Festival de Veneza. A sessão oficial, na quarta-feira 8, foi a primeira vez que Yahima assistiu ao filme. “Foi muito emocionante e estranho me ver na tela. Fiquei me lembrando de cada cena, do trabalho intenso necessário para fazer cada uma delas. Eu olhava Saartjie na tela e me via também. Eram muitos sentimentos, porque era a minha primeira vez na tela. Nem podia falar ao final.”

Seus pais ficaram surpresos quando ela contou sobre o convite para fazer o filme. “Minha mãe disse: como você vai ser protagonista, você nunca atuou! Mas depois ela entendeu e adorou”, contou Yahima. “Para meu pai, tive de explicar um pouquinho mais, sabe como são os pais com as filhas”, disse a atriz de 30 anos.

Yahima, que se mudou de Cuba para Paris contratada para dar aula de espanhol, disse que ser estrangeira a ajudou a compreender a personagem. “Sei o que é ter saudade das coisas de seu país, da sua família”, disse. “Só que não dá para comparar com Saartjie porque hoje a França é um país bastante mesclado. Claro, há algumas situações de racismo, de falta de respeito. Mas isso acontece com todos, não apenas com mulheres”, afirmou. Apesar de amar dar aulas, ela agora não quer saber de outra coisa: “Minha vida mudou”.

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