Lido tem praia, multa certa nos ônibus e nem sinal de gôndola

Palazzo Del Cinema, que abriga o evento, está em reforma. Enquanto isso, os jornalistas acomodam-se no chão

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

AP
Fachada do Palácio dos Festivais na véspera da 67ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza
A passagem suave das gôndolas para lá e para cá não é algo que se vê durante o Festival de Veneza. Isso porque o evento não acontece na ilha principal, mas no Lido, um pedaço de terra comprido e estreito. Lá entra carro e há até linhas de ônibus – e ai de quem não tiver comprado o bilhete. É multa na certa, principalmente tarde da noite, quando todo o mundo está cansado até para a relativamente pequena caminhada entre o Palazzo Del Cinema e a Gran Viale Maria Elisabetta, a avenida principal, onde ficam os (poucos) restaurantes abertos até tarde. Quem se arrisca sem o bilhete topa com os vários fiscais que fazem hora extra nessa época.

O Lido também é a praia de Veneza. Um dos lados da ilha dá para a mesma laguna de Veneza, mas o outro é para o Mar Adriático. Bonita, mesmo, a praia não é, mas tem seu charme, meio decadente, com bangalôs que custam uma fortuna, principalmente aqueles do hotel Excelsior, onde se hospedam os famosos e nem tanto que participam do festival. É no Lido também que fica o Hotel des Bains, onde Thomas Mann escreveu e Luchino Visconti filmou Morte em Veneza . Atualmente, o mítico prédio está em reforma.

De qualquer forma, trata-se do único festival do mundo onde se chega de barco, como brincou o habitué George Clooney (sim, quem vem de Veneza chega da maneira tradicional). O ator tem participado ano após ano, enfrentando constrangimento atrás de constrangimento nas entrevistas coletivas – em 2009, um sujeito de um programa de humor italiano chegou a “se declarar” para o ator e ficou só de cueca, para desgraça do astro e de todos os jornalistas presentes. Talvez por isso, em 2010 ele não deve comparecer.

Veneza tem dessas coisas, até porque, como estamos na Itália, tudo é bem mais bagunçado e divertido do que em Cannes. Por exemplo: o Palazzo Del Festival, uma obra fascista de Benito Mussolini, está em reforma. Em tese, era para ter ficado pronto neste ano, mas sabe como é. Enquanto isso, o salão majestoso do anexo Palazzo Del Casinò, de pé direito a perder de vista, abriga o lounge wi-fi, cheio de móveis de design – no ano passado, foram instalados pouco práticos pufes gigantes (talvez para os jornalistas dormirem nos intervalos entre as sessões, vai saber!). Como a sala de imprensa de wi-fi não comporta todo o mundo, há jornalistas espalhados por todo lado nesse lounge, principalmente no chão – não há tomadas para todo o mundo, e cada um se arruma como pode. Até na porta do banheiro um repórter responsável se postou no ano passado.

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Apaixonado por produções orientais, o diretor do Festival de Veneza, Marco Müller, reservou uma surpresa para esta edição
Quanto à seleção, ela costuma conter surpresas. De verdade. Um ou dois filmes surpresa são anunciados durante o evento. Em 2009, foram My Son, My Son, What Have you Done? , o segundo longa de Werner Herzog em competição, e Lola , de Brillante Mendoza. Em 2010, será apenas um. Fora isso, há as habituais bombas, produções inexplicáveis mesmo, que exigem paciência de Jó dos jornalistas obrigados a cobrir tudo. Digamos que o gosto do diretor Marco Müller é meio peculiar, às vezes. Nascido em Roma em 1953, de um pai suíço-italiano e de uma mãe ítalo-greco-brasileira, costuma gostar muito das produções orientais – ele estudou orientalismo e antropologia na Itália e fez especialização e doutorado na China. Admira tanto que usa ternos de estilo chinês, com aquela golinha pequena. Vamos ver o que ele reservou para este ano.

Mas é certo que, depois da tragédia que foi 2008, 2009 foi bem melhor. E esta 67ª edição promete. A única coisa é que os jornalistas podem se preparar para ficar sem almoço e jantar durante os 11 dias de evento. Isso porque Veneza tem nada menos que 24 filmes em competição, fora as produções hors concours e mostras paralelas. Para se ter uma ideia, Cannes tem no máximo 20 longas em competição, com um dia a mais de festival. Para piorar, em Veneza a primeira sessão de imprensa acontece às 9h, e a última, às 22h. É um massacre digno de John Woo, que, aliás, vai ser homenageado com o Leão de Ouro pela carreira.

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