George Clooney faz retrato denso e pessimista da política em Veneza

“É uma época difícil de governar, mas vamos consertar isso”, disse o ator e diretor em coletiva de “Tudo pelo Poder”

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

Em sua carreira como ator, George Clooney nunca escondeu sua inclinação pela política, seja por meio de declarações públicas ou por seus filmes. Foi protagonista de produções como “Syriana” e “Os Homens que Encaravam Cabras”, por exemplo, e dirigiu “Boa Noite e Boa Sorte”. Em seu quarto longa-metragem atrás das câmeras, “The Ides of March”, que se chamará “Tudo pelo Poder” no Brasil, ele volta a tratar do tema.

George Clooney domina flashes na abertura de Veneza; assista ao vídeo

As fotos do primeiro dia de Veneza 2011

O filme, que abre oficialmente o Festival de Veneza 2011 , em competição , foi exibido para os jornalistas na manhã desta quarta-feira (31), na sala Darsena, com um bom volume de aplausos ao final – neste ano, como houve mudança das sessões de imprensa para um espaço bem maior, e elas recebem também pessoas da indústria, a recepção dos longas deve ser mais vitaminada.

Divulgação
George Clooney dirige "Tudo pelo Poder", no qual interpreta um candidato democrata à presidência dos EUA
Baseado na peça “Farragut North”, de Beau Willimon, “Tudo pelo Poder” traz o próprio diretor como o governador Mike Morris, que concorre às primárias para ser o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos. Ele parece um sujeito decente, que quer lutar pelos mais pobres. Seu assessor de campanha é Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), mas o protagonista da história é o jovem e idealista membro da equipe, o talentoso Stephen Meyers (Ryan Gosling). Ele acredita no candidato, que diz não querer se comprometer com práticas escusas para ganhar a eleição.

Mas Stephen acaba aprendendo uma coisa ou duas sobre os bastidores de uma campanha desse porte. Também fazem parte da roda a estagiária Molly Stearns (Evan Rachel Wood), a jornalista Ida Horowicz (Marisa Tomei), o senador Thompson (Jeffrey Wright) e o assessor da campanha do candidato oponente, Tom Duffy (Paul Giamatti).

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Sem grandes firulas, Clooney manteve certa estrutura teatral, especialmente no roteiro. Mas é competente e denso ao mostrar os conchavos necessários para ganhar uma briga dessas. Os personagens parecem todos ter sido idealistas um dia, até que, em momentos diversos, a realidade do jogo político os envolve. Clooney mostra-se desiludido com a política, sem enxergar uma saída. A sensação é ainda mais aguda porque o diretor, de inclinações democratas, não envolve os republicanos na história: toda a briga é dentro do partido e nem por isso menos suja.

Na coletiva de imprensa do início da tarde desta quarta-feira (31), Clooney negou que se trate de um filme político. “Quisemos falar de moralidade, de negociar sua alma, eram temas meio shakespearianos. Acho que eles poderiam ser em outro ambiente”, disse. Ele também afirmou que todo filme como diretor é pessoal. “Você vai passar quatro ou cinco anos trabalhando num filme, então precisa ser.”

Um jornalista indagou se Clooney, sempre muito engajado, tem interesse em se candidatar à presidência um dia. “Olha, você tem um cara mais inteligente do que qualquer um nesta sala, mais agradável, com mais compaixão, e ele está tendo muita dificuldade em governar”, afirmou, referindo-se ao presidente americano Barack Obama. “Por que alguém se ofereceria para esse trabalho? Eu tenho um bom trabalho.”

Ele contou que, apesar do clima político nos EUA, não perdeu a esperança. “A temperatura corrente é de uma época difícil de governar, de muito cinismo. Mas é temporário, vamos consertar as coisas.”

Clooney também comparou o trabalho de dirigir um filme com o de ser um governante. “Os acordos que você precisa fazer como cineasta não mudam a vida de muitas pessoas. Não tomo decisões que significam vida ou morte. Histórias não machucam ninguém, no máximo vão receber críticas ruins.” O ator Philip Seymour Hoffman concordou: “Há uma diferença enorme pelo que um ator e um político são responsáveis. Acho que existe muita diferença entre Hollywood e Washington”.

Já Paul Giamatti disse que gostaria de que houvesse mais diferença. “As fronteiras estão meio borradas. Mas no momento Hollywood é uma festa infantil perto de Washington.”

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