Exibido em Veneza, "Girimunho" borra fronteira entre ficção e documentário

"Trabalhamos o tempo todo com limites", diz Clarissa Campolina, que dirigiu o filme com Helvécio Marins Jr; iG entrevistou a dupla

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

As fronteiras entre ficção e documentário estão cada vez mais indistinguíveis. “Girimunho”, primeiro longa da dupla brasileira Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, em competição na seção Horizontes do Festival de Veneza 2011 , é mais um que vem para confundir essa divisão.

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Bastú interpreta ela mesma no brasileiro "Girimunho", exibido em sessão paralela do Festival de Veneza
Os diretores encontraram na pequena São Romão, cidade à beira do Rio São Francisco, os personagens para seu filme. A protagonista, Bastú, perde o marido, Feliciano, e lida com a morte criando fantasias e sonhos. Suas netas, Branca e Preta, esforçam-se por cuidar da avó.

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Curioso que o outro representante brasileiro no evento, “Histórias que Só Existem Quando Lembradas” , de Julia Murat, apresentado na mostra paralela Jornada dos Autores, também fale de idosos em pequenos vilarejos. Mas sua ambição em termos de proposta e de visual são muito menores.

“Girimunho” é mais cinema, tendo quadros belos como pinturas. Seu interessante jogo entre a realidade e sua representação nem sempre dá certo, mas faz com que o longa se destaque no atual cenário do cinema brasileiro. A produção exige bastante do espectador com seu ritmo lento e fiapo de história, e muita gente acabou desistindo na exibição para imprensa.

Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, que em breve também participam dos festivais de Toronto e San Sebastián , falaram com exclusividade ao iG .

iG: Como começou o projeto?
Helvécio Marins Jr: “Nascente”, um dos meus curtas, foi rodado no rio São Francisco. Depois, eu e a Clarissa começamos a trabalhar no projeto Cinema no Rio, que exibe filmes nos vilarejos à beira do rio. Quanto menores, melhor. E nós fazemos pequenos documentários nesses lugares.
Clarissa Campolina: Estamos sempre em busca de personagens. Em 2004, na cidade de São Romão, encontramos a Bastú e depois a Maria do Boi, personagens do filme.
Helvécio Marins Jr : A história do filme foi mudando, à medida que a história delas também mudava. Quando conhecemos Bastú, seu marido, Feliciano, ainda estava vivo. Sua morte foi incorporada no roteiro. Mas nós demoramos para dizer a elas todas que fariam um filme, para não criar muita expectativa. Nossa relação virou uma amizade, elas são nossas vovozinhas. O que mais ficou foi a troca e o aprendizado que temos com elas.

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Os diretores Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina: à beira do rio São Francisco
iG: O filme brinca na fronteira de realidade e ficção.
Helvécio Marins Jr : Usamos muita coisa que aconteceu, mas tem muita coisa inventada.
Clarissa Campolina : A espinha dorsal é a verdade. Mas escolhemos as histórias. O importante era capturar as memórias e a forma de olhar a vida e reinventar-se. A Bastú procura a fantasia para poder renascer – ou morrer. Trabalhamos o tempo todo com limites, entre a vida e a morte, a ficção e o documentário, a realidade e a fantasia, a nova geração e a antiga geração. É como se existissem várias tensões, mas elas não explodem, até porque isso é próprio da maneira como as personagens olham a vida.

iG: E como foi trabalhar com as personagens representando suas próprias vidas?
Helvécio Marins Jr: Muitas vezes a gente ensaiava, estava tudo lindo, e na hora de filmar não dava certo. Mas esse é um problema nosso, a gente quis fazer assim.
Clarissa Campolina: Não tinha cartilha. Mas é difícil usar plano e contra-plano, fazer contracenar.

iG: Por que tantos jovens realizadores trabalham em dupla?
Clarissa Campolina: Eu acho que é um novo processo de produção. Há uma aproximação dos diretores, e um trabalha no filme do outro. Por exemplo, o Felipe Bragança fez o roteiro, e a Marina Meliande montou nosso filme. Os dois fizeram “A Alegria” juntos. O Ivo Lopes Araújo, diretor de fotografia, também é cineasta. Há mais parcerias.

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