Doloroso, Venus Noire deve causar polêmica

Trama foca história real de africana explorada como atração de circo no séc. 19

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

Divulgação
Venus Noire, de Abdellatif Kechiche, deve provocar bastante polarização e polêmica
Venus Noire , exibido para jornalistas na noite desta terça-feira 7 na competição do 67º Festival de Veneza, é de difícil digestão. Abdellatif Kechiche, diretor do excelente O Segredo do Grão , quis deixar o espectador desconfortável, chegando ao limite do suportável – e deve provocar bastante polarização e polêmica. Ao final da sessão, houve aplausos, mas também uma ou duas vaias.

A trama é incrivelmente baseada na história real de uma sul-africana descendente do povo hotentote. O filme começa com uma estátua da personagem e partes anatômicas reais sendo apresentadas numa conferência da Academia Real de Medicina em Paris, em 1817, e descritas como muito parecidas com aquelas de símios. Com nádegas e seios grandes e a genitália com características especiais, ela tinha saído de seu país com seu patrão na época, Hendrik Caezar (no filme, interpretado por Andre Jacobs), iludida pelo sonho de ser artista, em direção a Londres. Seus shows, no entanto, eram pura exploração de seu visual diferente – na verdade, ela vira atração de circo mesmo.

As apresentações ficam cada vez mais agressivas, principalmente quando, já em Paris, ela fica sob o comando de Réaux (Olivier Gourmet), virando atração também para os cientistas. A protagonista praticamente só encontra gente interesseira e nada preocupada com sua humanidade. É impressionante a atuação de Yahima Torrès, favorita à Coppa Volpi de melhor atriz, no papel de Saartjie, passando toda a tristeza e passividade da personagem com muita economia de expressões e gestos.

Kechiche filma muito bem e utiliza planos longos, com sequências inteiras dos shows de horrores a que a protagonista é submetida. É muito, muito doloroso de ver – e a intenção é justamente retirar totalmente o espectador de sua zona de conforto. Mas há momentos em que a pergunta é se seria necessário chegar a tanto. Será que para mostrar o sofrimento e a tortura é preciso exibir todo o sofrimento e toda a tortura? Será que, apesar de as intenções serem claramente as melhores neste caso, ao expor tão explicitamente a exploração da personagem, não se acaba aprofundando a exploração?

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