Diretor diz que Venus Noire é uma história contemporânea

Abdellatif Kechiche diz-se angustiado com discursos sobre imigração hoje em dia

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

Getty Images
A atriz Yahima Torrès e o diretor Abdellatif Kechiche na premiere do filme Venus Noire em Veneza
Saartjie Baartman nasceu na África do Sul e foi levada para a Europa no século 19, sendo atração de um show que exibia seu corpo em Londres e Paris, sob o título Vênus Hotentote (nome do grupo étnico ao qual pertencia). Depois de morta, foi dissecada e exposta em museu até 1985. Quando assumiu a presidência da África do Sul, Nelson Mandela fez requerimento pela volta de seus restos mortais, enterrados no país em 2002. Por isso, diz Abdellatif Kechiche, diretor do filme Venus Noire , trata-se de uma história contemporânea.

“Eu me interessei por ela depois de ler algumas coisas e de acompanhar a devolução de seus restos mortais para a África do Sul. Essa não é uma história sobre o passado, é uma história muito contemporânea. Ela foi exibida até o final do século 20.” Mas não é a única razão, segundo o cineasta. “Ouvimos os discursos políticos que se enraízam naquela época até hoje. A teoria ecoou muito recentemente na ascensão do fascismo na Europa. E agora sobre os imigrantes. Senti dever moral de fazer um testemunho sobre essas coisas que estão acontecendo. Me sinto preocupado e angustiado com isso.”

O diretor precisou responder a questões sobre a necessidade de mostrar tantas vezes a apresentação degradante a que Saartjie era submetida. “Há uma progressão na exibição do corpo, uma evolução até chegar ao abismo”, disse o cineasta. Outro jornalista indagou se era preciso uma duração tão grande. “Espero que este filme cause reflexão, e eu não posso compactar meu pensamento. Quero criar uma comunhão quase cerimonial de reflexão sobre a maneira como nos olhamos uns aos outros.”

A atriz Yahima Torrès falou sobre a preparação para a personagem. “Tive de fazer muitas coisas, aprender africâner, a fazer danças africanas”, disse. “Mas Saartjie quase não fala. Olha muito e é um olhar obviamente inteligente.” Ela contou ainda que se sentiu bem em seu primeiro longa-metragem. “Eu estava muito bem preparada. Nunca me senti envergonhada, fui capaz de criar uma distância entre mim e a personagem.”

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