The Last Movie é recuperado em Veneza" / The Last Movie é recuperado em Veneza" /

A aventura de Dennis Hopper no Peru

Fracasso no início da década de 1970, The Last Movie é recuperado em Veneza

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Dennis Hopper em The Last Movie: ator de faroeste faz retiro nos Andes
Na virada da década de 1970, Dennis Hopper era o novo messias do cinema. Em 1969, Hollywood viu Sem Destino ( Easy Rider ), uma ode à contracultura, virar fenômeno cultural e febre de uma geração. A história de dois motoqueiros libertários e drogados, interpretados por Peter Fonda e pelo próprio Hopper, faturou US$ 50 milhões e provocou uma reviravolta na indústria – provou que projetos de arte, encabeçados por diretores jovens e cheios de ideias, também podiam dar dinheiro. Saudado como uma promessa valiosa, Hopper assinou contrato com a Universal e lançou The Last Movie (1971). Mais do que uma decepção, foi um fracasso comercial retumbante. Quase 30 anos depois, o filme sai das profundezas para uma sessão no Festival de Veneza – onde ganhou seu único prêmio –, em homenagem ao ator e diretor, morto em maio .

Era tempos loucos para Hopper. Movido à adrenalina e drogas, havia saído de um casamento com Brooke Hayward – encerrado com um soco no nariz da mulher – para outro com Michelle Phillips, do grupo The Mamas & the Papas. A relação, no entanto, durou oito dias: o ator acusava a nova esposa de "bruxa" e fazia exorcismo à base de tiros, sopapos e algemas. Phillips fugiu e dias depois Hopper ligou dizendo que a amava e precisava dela. Reza a lenda que a cantora respondeu: "Você já pensou em suicídio?".

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Em cena de Sem Destino: revolução em Hollywood
The Last Movie era um projeto antigo do ator, em sua cabeça desde Caçada Humana (1958), um de seus primeiros trabalhos nas telas. O roteiro, escrito por ele e Stewart Stern – de Rebelbe Sem Causa , estreia de Hopper no cinema – segue um dublê de faroestes que, depois de uma filmagem no Peru, resolve ficar pelos Andes com a namorada local e se envolve num filme feito pelos índios. Com orçamento de US$ 1 milhão, mais do que o dobro de Sem Destino , Hopper construiu cenários a mais de 4 mil metros de altitude e escalou diversos amigos para a empreitada, entre eles o próprio Fonda, Phillips, então sua noiva, e o diretor Samuel Fuller. Candidatos, aliás, não faltavam – o Peru, na época, era um dos principais produtores de cocaína no mundo, droga da moda em Hollywood.

Hopper voltou da viagem com 37 horas de filmagens e pediu ao estúdio um ano para montar o material, muito mais do que o habitual. Isolado numa fazenda em Taos, no Novo México, o ator vivia rodeado por escritores e hippies, em meio a orgias turbinadas por álcool e drogas. Mostrava versões do filme para qualquer um que passava na rua e a duração só ficava maior, como um "tumor maligno", lembra um executivo da Universal. American Dreamer (sonhador americano, na tradução), documentário tão obscuro quanto The Last Movie , flagra esse período anárquico e mostra até Hopper andando nu pelas ruas de Taos.

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Hopper com os altiplanos peruanos ao fundo
Passados meses, o diretor chegou a uma versão de pouco mais de 100 minutos do filme, com narrativa difícil, onírica e fragmentada. Produtores que tinham acesso aoss copiões diziam que faltavam cenas inteiras. Apesar de ter vencido o Festival de Veneza, a Universal tinha certeza de que The Last Movie era uma catástrofe. Numa pré-estreia para universitários, Hopper levou um murro na cara de uma estudante. O longa-metragem estreou em uma sala de Nova York, foi massacrado pela crítica e saiu de cartaz depois de duas semanas. "Eles queriam os mesmo filmes melosos dos anos 40, que não exigiam que a plateia pensasse", comentou Hopper à época.

De volta a Taos, o cineasta passava os dias andando de moto, com uma espingarda nas costas, entornando garrafas de rum e cheirando cocaína. "Durante 17 anos, não conseguia fazer nada. Me impediram completamente de fazer cinema", lembrou Hopper, anos mais tarde. Ele conseguia trabalho esporadicamente como ator, com amigos que se adaptavam à sua rotina errática em meio às drogas, caso do alemão Wim Wenders em O Amigo Americano (1977) e Francis Ford Coppola em Apocalypse Now (1979).

Comenta-se hoje que The Last Movie era visionário, muito à frente de seu tempo. Hopper morreu sem ver concluídas as negociações para o lançamento do filme em DVD. Nesse sentido, a exibição de The Last Movie em Veneza – uma espécie de tapinha nas próprias costas por ter reconhecido o filme na época em que foi feito – pode dar novo fôlego a sua obra e despertar o interesse dos cinéfilos e distribuidores mundo afora.

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