"Há muitos insanos na política", diz Marco Bellocchio no Festival de Veneza

Cineasta trata de fé, eutanásia e amor em "Bella Addormentata”, longa baseado num caso verídico que abalou a Itália

Mariane Morisawa - enviada especial a Veneza |

Um grande cineasta tem a capacidade de pegar um tema polêmico, mas de implicações particulares, e expandi-lo para comentar o estado de todo um país. O italiano Marco Bellocchio, conhecido por longas políticos como “Vincere” e “Bom Dia, Noite”, fala de fé – o tema favorito na competição deste Festival de Veneza –, eutanásia e amor em “Bella Addormentata” (“bela adormecida”, na tradução literal do italiano), exibido na manhã desta quarta-feira (5) em sessão de imprensa.

O diretor parte de um caso verídico: a luta do pai de Eluana Englaro para desligar os aparelhos da filha, que ficou 17 anos em coma. As reações foram tão extremadas na Itália católica que Bellocchio resolveu desenvolver um longa-metragem em torno desse debate.

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Maria (Alba Rohrwacher) é pró-vida e pressiona seu pai, o senador Uliano Beffardi (Toni Servillo), que atendeu o pedido da mulher para desligar seus aparelhos, para votar contra a autorização a Englaro. Ele também sofre pressão do partido para votar contra a sua própria consciência. Maria apaixona-se por Roberto (Michele Riondino), que é a favor da eutanásia.

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O cineasta italiano Marco Bellocchio

Uma atriz (Isabelle Huppert) abandona a carreira e o próprio filho (Brenno Placido), que clama por atenção, para cuidar da filha, em coma. Rossa (Maya Sansa) não vê mais sentido em nada e quer terminar com sua própria vida, mas o médico Pallido (Pier Giorgio Bellocchio) não deixa.

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Enquanto discute o assunto de maneira complexa, sem maniqueísmos, com muita humanidade, Bellocchio também aponta para os descaminhos de seu país, que o filme urge a sair do coma. Numa cena sensacional, o psiquiatra (Roberto Herlitzka) que atende deputados e senadores deixa bem claro: “Preciso dar remédio a eles, porque eles são tão chatos”. Os senadores romanos mergulham, como hipopótamos, em termas coletivas, numa cena engraçada e crítica.

Na entrevista coletiva do início da tarde, Bellocchio falou sobre isso. “Não quis tirar sarro dos políticos, tentei mostrar seu desespero, que eles não sabem para ir, estão perdidos. Há muitos insanos na política. Não é piada. É uma falta de humanidade endêmica.”

O diretor disse que tentou evitar fazer um filme dogmático. “Seria errado usar o filme como uma bandeira para uma ideologia. Tenho minhas próprias ideias, sim, mas esse não é o ponto.”

A atriz Isabelle Huppert completou: “No filme, ninguém pode ser reduzido a suas convicções. Essa é sua força intelectual, porque não é dogmático. É filosófico porque queremos liberdade de escolher, mas o que fazemos com a liberdade quando a temos?”.

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