"Linhas de Wellington" conta lado português da invasão napoleônica

Exibido na competição, filme era projeto de Raúl Ruiz, que acabou dirigido por sua viúva, Valeria Sarmiento

Mariane Morisawa - enviada especial a Veneza | - Atualizada às

“Carlota Joaquina, Princesa do Brasil” mostrou o lado brasileiro da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão, com a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro. Concorrente ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2012 , “Linhas de Wellington”, exibido na manhã desta terça-feira (4) para a imprensa, numa sala Darsena com menos da metade da capacidade, conta o ponto de vista português. O longa-metragem foi preparado pelo chileno Raúl Ruiz, morto antes das filmagens , que ficaram a cargo de Valeria Sarmiento, sua mulher.

O Wellington do título é o General Wellington (John Malkovich), do Reino Unido, que estabeleceu fortificações ao redor de Lisboa para protegê-la dos soldados franceses. O roteiro de Carlos Saboga passeia pelas várias histórias de guerra e destruição: o Sargento Francisco Xavier (Nuno Lopes) precisa contar para a inglesa Maureen (Jemima West) que seu marido morreu, o Tenente Pedro de Alencar (Carloto Cotta) é ferido na cabeça, o Major Jonathan Foster (Marcello Urgeghe) é assediado pela fogosa Clarissa (Victória Guerra).

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Apesar de as batalhas serem territórios masculinos, as mulheres aqui têm presenças marcantes, da prostituta Martírio (Soraia Chaves) à elegante D. Filipa Sanches (Marisa Paredes), que abriga Alencar. O longa-metragem tem participações mais do que especiais, como Mathieu Amalric como o Barão Marbot e Melvil Poupaud como o Marechal Massena. Numa cena saborosa, sentam-se à mesa Michel Piccoli, Isabelle Huppert e Catherine Deneuve. Em outra Chiara Mastroianni aparece vestida de farda.

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A diretora Valeria Sarmiento e a atriz espanhola Marisa Paredes no festival

Com direção discreta de Sarmiento, “Linhas de Wellington” é uma grande produção, em que o absurdo tragicômico da guerra fica evidente. Há momentos divertidos, como quando Clarissa conta a Foster que já tinha experiência sexual – com seu irmão. O roteiro cruza as histórias sem forçar a barra e sem cansar, apesar dos 151 minutos, e ilumina aquele período histórico, que se refletiu também no Brasil. Portugal saiu da invasão destruído, com consequências para o futuro do país.

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Na entrevista coletiva do início da tarde, a diretora Valeria Sarmiento disse que, assim que recebeu o roteiro, viu que seria bem difícil. “Mas tentei desenvolver uma conexão emocional com a história. Tentei reconsiderar a história sobre o exílio, as mulheres estupradas, tinha havido mulheres estupradas no Chile. Normalmente é como faço meus filmes”, afirmou a chilena radicada na França. Ao final, ela falou que “a sombra de Raúl pairava sobre todos”.

O roteirista Carlos Saboga disse que ficou surpreso, ao fazer a pesquisa, com a presença das mulheres na guerra. “Não achava que era tão grande, havia uma presença grande até nos combates. Isso que me interessou mais na história.” Nuno Lopes contou que foi uma filmagem muito fácil. “Quando chegávamos, percebíamos que a Valeria tinha elaborado três cenas no set. A gente terminava cinco horas mais cedo. Apesar de a história ser sobre emoções profundas, foi muito tranquilo. Agradeço a Valeria por isso.”

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