No documentário "Bad 25", Spike Lee defende negritude de Michael Jackson

Exibido em Veneza no dia em que o disco completa 25 anos, filme resgata histórias saborosas sobre o Rei do Pop, suas referências, excentricidades e a busca por perfeição

Mariane Morisawa - enviada especial a Veneza | - Atualizada às

Spike Lee fez um filme de fã com “Bad 25”, documentário que recupera a história do álbum lançado em 1987 por Michael Jackson , apresentado fora de competição na manhã desta sexta-feira (31) no Festival de Veneza 2012 . Mas também fez um filme de Spike Lee.

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O cineasta, que recebe o prêmio Jaeger-Le Coultre Glory to the Filmmaker nesta 69ª edição do festival, é conhecido pela afirmação da história e da cultura negras em longas-metragens como “Faça a Coisa Certa”, “Malcolm X” e “Febre na Selva”. Aqui não é diferente. Em “Bad 25”, ele mostra como o artista era conectado às suas raízes na música e na cultura negra – de quebra, livrando-o das acusações de querer se tornar branco. Também tenta insinuar seu interesse por mulheres, seja com Tatiana Thumbzen, atriz do clipe de “The Way You Make me Feel”, ou Sheryl Crow, que foi sua backing vocal. Lee deixa de lado as excentricidades de Michael Jackson, claramente buscando resgatar o artista e revelar traços desconhecidos de sua personalidade.

Fez a lição de casa direitinho, entrevistando admiradores e seguidores como Mariah Carey, Justin Bieber e Kanye West e, mais importante, técnicos, compositores, músicos e coreógrafos que conviveram intimamente com ele, além de Martin Scorsese, que dirigiu o videoclipe – ou curta-metragem, como o cantor gostava de chamá-los – de “Bad” . A relação de Michael Jackson com o cinema é outra ênfase do longa-metragem: Lee mostra suas referências, de Fred Astaire a Buster Keaton e Charles Chaplin, e seu trabalho revolucionário no formato.

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Há histórias saborosíssimas, como a amplitude vocal do cantor, que podia, sim, falar grosso, mas escolhia falar fino, segundo seu instrutor de voz, sua relação conflituosa com Prince, sua surpresa ao visitar uma região pobre em Nova York. Também não faltam momentos de emoção, especialmente quando os entrevistados comentam sua morte.

Spike Lee estrutura “Bad 25” música a música, empilhando histórias sobre a criação de cada uma, numa mescla de imagens de arquivo e depoimentos que jamais aborrecem e oferecem pistas sobre o jeito de ser do cantor. O cineasta dá ao documentário aquilo que um documentário precisa ter: uma direção. Assim, tudo faz sentido, não é apenas uma coletânea de falas sobre o artista – como “Bob Wilson’s Life and Death of Marina Abramovic”, de Giada Colagrande, sobre a ópera baseada na vida da artista, dirigida por Bob Wilson, protagonizada por Willem Dafoe e musicada por Antony Hegarty, também exibido em Veneza. Pode parecer pouco, mas faz toda a diferença do mundo.

Getty Images
O diretor Spike Lee posa com camiseta de "Bad 25" em Veneza: coletiva lotada no festival

Na coletiva de imprensa no início da tarde – a única lotada até agora –, Spike Lee disse que o documentário é uma “carta de amor a Michael Jackson”. “Eu cresci com ele, nasci em 1957, Michael em 1958. Quando vi Michael Jackson com o Jackson Five no ‘Ed Sullivan Show’, queria ser ele. Eu tinha um cabelo afro, o visual, mas meu canto e dança não me permitiam.”

O mais marcante, para o diretor, foi quanto o cantor trabalhou. “Quando tinha 7 anos, ele estudava James Brown, Marvin Gaye, Temptations. Como não usar essas coisas para impactar sua músic? Por isso gostei que a proposta fosse ficar com a música e deixar o resto de lado”, disse.

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A escolha de “Bad 25” – que foi lançado exatamente 25 anos atrás, no dia 31 de agosto de 1987 – tem a ver com a efeméride e por sua importância na carreira de Michael Jackson. “Esse álbum seguiu ‘Thriller’, o mais vendido da história. Imaginem a pressão sobre Michael. Ele nunca ficava satisfeito, queria ser melhor, isso é um grande artista. Não fica estagnado nem se repete.”

Como vários entrevistados, Spike Lee contou o que estava fazendo no dia da morte de Michael Jackson. "Estava numa coletiva em Cannes quando comecei a receber ligações. Como muita gente, não acreditei”, contou. “Voei de volta a NY e não vou mentir, me surpreendi como fiquei mal por um mês. Olhei meu iPod e vi que só tinha um álbum do Michael Jackson. Fui a uma Apple Store e comprei outro iPod. Pedi para colocarem todas as suas músicas, cada um dos seus singles. No ano seguinte minha família me odiou porque só tocava Michael Jackson, 24 horas por dia.”

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