Mira Nair reflete sobre conflito entre Oriente e Ocidente pós-11 de Setembro

"The Reluctant Fundamentalist", filme da cineasta indiana, abre o Festival de Veneza 2012

Mariane Morisawa - enviada a Veneza |

A ideia de “The Reluctant Fundamentalist”, filme de abertura do Festival de Veneza 2012 , dirigido pela indiana Mira Nair e exibido em sessão de imprensa na manhã desta quarta-feira (29), é boa. Um jovem professor paquistanês tem um encontro com um jornalista americano num restaurante em Lahore, logo após o sequestro de um professor americano da mesma universidade. Nada é o que parece, ele insiste.

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Changez Khan (Riz Ahmed) é acusado de incitar ações violentas entre seus alunos. Bobby Lincoln (Liev Schreiber) quer descobrir a verdade – apesar de também esconder as suas. “Eu amo a América”, diz Changez. E começa a contar sua história como estudante da Universidade de Princeton e funcionário contratado por Jim Cross (Kiefer Sutherland) para uma consultoria financeira daquelas que em geral propõem o corte de pessoal em empresas ao redor do mundo para maximizar o lucro. Também fala de Erica (Kate Hudson), a fotógrafa por quem se apaixona. Mas, quando acontece o 11 de Setembro, a vida de Changez muda.

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Baseado no romance de Mohsin Hamid, o longa trata das repercussões do ataque às Torres Gêmeas nas relações entre os Estados Unidos e países como o Paquistão e das mudanças de percepção entre ocidentais e orientais, entre cristãos e muçulmanos. Alguém que é paquistanês e muçulmano é também várias outras coisas que não terrorista, diz Changez.

É um tema polêmico e atual. Mas Nair e o roteiro abusam da cafonice na construção das cenas e nos diálogos, colocando a perder seu esforço de entendimento dos pontos de vista e uma certa tentativa de complexidade. Seu papo é reto: não há dúvida sobre o ponto de vista de “The Reluctant Fundamentalist”. É um pouco como se a diretora usasse as mesmas armas cinematográficas de seu “inimigo”. Da mesma forma que os filmes americanos, o espectador é conduzido por um caminho seguro e sem percalços, que passa sua mensagem sem ofender – e, a bem da verdade, sem chegar a aborrecer, apesar de ser uma produção um tanto convencional para um festival.

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Getty Images
A cineasta indiana Mira Nair em Veneza: filme é "cura além da ignorância"

Na entrevista coletiva no início da tarde, Mira Nair disse que pretendeu construir uma ponte de comunicação – não apenas entre Ocidente e Oriente, mas entre sua Índia e o Paquistão, países que vivem em conflito. “Fui criada por um pai nascido em Lahore, com a cultura e a língua de lá. Mas, como uma criança da Índia moderna, não vemos o Paquistão. Fui para lá pela primeira vez há seis anos e fiquei muito emocionada com a familiaridade, bem longe da imagem de corrupção e terrorismo”, disse a diretora.

“Queria provocar uma comunicação além da ignorância e tentei fazer um filme com tantas nuances e camadas quanto possível para provocar uma espécie de cura que vai além da ignorância.” Por isso, ela espera que o filme seja bem recebido nos Estados Unidos. O escritor Mohsin Hamid acrescentou: “Não há uma única América, são 300 milhões de pessoas com pontos de vista diferentes. Nossa tentativa é de retirar os rótulos. A pergunta sugere que há uma única América, e não indivíduos únicos.”

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Outra inspiração, segundo ela, foram os ataques do 11 de Setembro. Ela estava em Toronto, pouco depois de receber o Leão de Ouro em Veneza por “Casamento à Indiana”, quando soube das notícias. Ficou preocupada com o marido e o filho, que estavam na cidade, onde Nair mora há muito tempo. “E tudo mudou, pessoas que tinham a nossa aparência passaram a ser ‘o outro’. Os eventos nos afetaram. Foi uma época complicada e dolorosa.”

O ator Riz Ahmed, inglês de origem paquistanesa, contou que muitas vezes se sentiu um “outsider”. “Entendo bem essa vida entre classes e culturas, fui à Universidade de Oxford, em que minha origem social não era comum. Mas essencialmente acho que todos nós podemos ser rotulados.” Sem muita convicção, Kate Hudson disse que “é atriz, e nós somos meio loucos”.

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