Terremoto redefine agenda de governo de novo presidente do Chile

O governo de austeridade fiscal que o empresário de centro-direita Sebastián Piñera, de 60 anos, previa para seus quatro anos no poder no Chile foi lançado à condição de promessa vazia após o terremoto de 27 de fevereiro. Com a destruição que o tremor causou menos de duas semanas antes da posse presidencial, nesta quinta-feira, o sucessor de Michelle Bachelet recebe como herança a tarefa de reconstruir o centro-sul chileno e evitar que o país caia em recessão.

Leda Balbino, IG São Paulo |

Reuters
Após tomar posse, Piñera joga flores no rio Maule, em homenagem às vítimas
Após posse, Piñera joga flores no rio Maule, em homenagem às vítimas

Segundo o cientista político Patricio Navia, Piñera planejava ter tempo para organizar seu governo e melhorar a eficiência do setor público. O terremoto, porém, forçará o adiamento da modernização da máquina pública. "Ele precisará abrir as chaves do gasto fiscal. O terremoto redefiniu a agenda", afirmou ao iG Navia, que é professor do Centro de Estudos Latino-Americanos e Caribenhos da Universidade de Nova York.

Piñera mostrou reconhecer a nova realidade em 4 de março, quando lançou um plano de reconstrução e designou intendentes  que ficarão responsáveis pelo projeto. "Nosso governo não será o do terremoto, mas o da reconstrução", afirmou na ocasião. Segundo Bachelet, os trabalhos devem durar pelo menos três anos ¿ ou quase todo o mandato de Piñera.

Depois da crise financeira internacional que fez o PIB chileno recuar 0,9% em 2009, segundo a The Economist, 2010 era visto como o da recuperação econômica. Antes do terremoto, a expectativa era de que o Chile crescesse entre 4,5% e 5,5%, previsão que foi rebaixada para apenas 1% depois da tragédia.


Reconstrução será prioridade do governo Piñera / Reuters

Além da perda humana, o tremor destruiu estradas, pontes e deixou danos em 500 mil construções. De acordo com a companhia de avaliação de riscos americana Eqecat, os prejuízos devem ficar entre US$ 15 bilhões e US$ 30 bilhões ¿ o que equivaleria a 10% a 20% dos US$ 150 bilhões do Produto Interno Bruto chileno.

De acordo com o analista político Bernardo Navarrete, da Universidade do Chile, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento estimaram que o país terá de gastar US$ 30 bilhões na reconstrução. "Só em seis pontes destruídas terão de ser gastos US$ 600 milhões", disse. Outros US$ 3,6 bilhões terão de custear a reconstrução de hospitais, de acordo com a France Presse.

Bachelet, que transfere o poder nesta quinta-feira, evitou confirmar as estimativas, afirmando que um cálculo oficial seria anunciado quando houvesse informações mais precisas sobre a extensão do desastre. Segundo Navarrete, a líder da centro-esquerda não quis divulgar a informação por saber que essa tarefa será de seu sucessor. "Se estipulasse uma cifra, imediatamente começaria a discussão de onde tirar o dinheiro para a empreitada", afirmou.

Com US$ 11 bilhões em recursos poupados da exportação de cobre e reservas de US$ 25 bilhões, o novo governo terá de decidir se usa esses fundos ou se será mais prudente conseguir outras fontes para financiar os trabalhos pós-terremoto, afirmou Navarrete.
Nos últimos dias, Bachelet afirmou que o país recorrerá ao Banco Mundial e a outras instituições financeiras .


País deve buscar ajuda internacional para reparar cidades devastadas / AP

Mas, segundo Navia, da Universidade de Nova York, a maior parte do dinheiro virá de títulos que o governo deverá emitir e dos seguros relacionados às estradas e edifícios privados. "Há recursos. A pergunta é se serão utilizados de forma eficiente e se o país conseguirá poupar nos próximos anos", disse.

Oportunidade política

Apesar de o terremoto ter posto fim à lua-de-mel do governo Piñera antes mesmo de ele assumir, o desastre oferece ao novo presidente a oportunidade de construir capital político, disse Navia. "Ele poderá apelar aos sentimentos nacionalistas, aos argumentos em favor da unidade nacional e poderá se proteger das críticas da oposição nos primeiros meses", afirmou o analista chileno da Universidade de Nova York.

AP
Sebastián Piñera
Sebastián Piñera

Para Navarrete, se for bem-sucedido, Piñera terá a chance de fortalecer a centro-direita chilena e garantir sua continuidade no poder. Segundo ele, uma possível sucessora seria Jacqueline van Rysselberghe, a prefeita de Concepción, cidade que virou símbolo do terremoto ao ser cenário de uma onda de saques após a tragédia.

Nesta quinta, Jacqueline deixa a prefeitura da cidade para assumir como intendente responsável pelos trabalhos de reconstrução da região de Bío-Bío, onde fica Concepción. "Se ela executar um bom trabalho nos próximos quatro anos, mostrando liderança e eficiência, pode se fortalecer como uma candidata para as eleições presidenciais de 2013", disse Navarrete.

Apesar das oportunidades políticas, Navia acredita que o terremoto do Chile não dá muitas opções a Piñera, que estará sob observação intensa logo no início do governo.

Um exemplo disso, disse Navia, é seu primeiro discurso à nação, em 21 de maio, quando se verá obrigado a prestar contas de suas ações em vez de apenas expor ao Congresso seu plano de governo, como era previsto antes da tragédia.

"Ele não poderá optar por fazer apenas um bom governo", disse Navia. "Ou seu governo será muito bom ou muito ruim", completou.

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