Países resistem à transferência de tecnologia para ciclo nuclear, diz coordenador do Programa de Propulsão Nuclear da Marinha

A tecnologia nuclear é um dos assuntos mais sensíveis entre países, que dificilmente repassam conhecimentos ou alguns equipamentos. Na construção da Usina de Hexafluoreto de Urânio (Usexa), no complexo militar de Aramar, em Iperó (SP), os oficiais da Marinha responsáveis pelo projeto contam que sentiram pessoalmente o bloqueio tecnológico.

“Esse assunto ninguém vai fazer para você. Quando a gente vai comprar uma máquina no exterior e diz que é para o âmbito da defesa eles negam [a venda]”, afirmou à Agência Brasil o coordenador do Programa de Propulsão Nuclear da Marinha, capitão de mar e guerra André Luís Ferreira Marques.

Segundo ele, um exemplo foi a tentativa do Brasil de comprar um forno específico necessário ao processo de conversão do urânio em pó, o chamado yellow cake, no gás hexafluoreto de urânio (UF6).

“Um país só exporta o que interessa. Esse forno – que custa cerca de US$ 1 milhão - tentamos comprar lá fora. Perguntamos para a França e os Estados Unidos, que não responderam [à proposta]. A Alemanha respondeu, mas, quando dissemos que era para produzir trióxido de urânio, afirmaram que não podiam exportar.”

A solução foi desenvolver a tecnologia no Brasil. Ferreira Marques e mais três engenheiros da Marinha e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) desenvolveram o projeto e conseguiram um fabricante no país, em São Paulo. O forno de calcinação para produzir trióxido de urânio começou a ser construído em 2000 e ficou pronto em 2001.

“O país reage, tem engenharia e empresas capacitadas. O fato de não querer vender não quer dizer que a gente não vai fazer. Vai custar um pouco mais e demorar mais tempo, mas solução tem. Quem define o nosso futuro somos nós. Se o Brasil precisa, nós vamos fazer”, afirmou o oficial da Marinha, citando o lema de Aramar: “Tecnologia Própria é Independência”.

Segundo Ferreira Marques, além de garantir independência, produzir os equipamentos no país significa evolução do parque industrial brasileiro, pois, ao trabalhar com a Marinha, as empresas têm que investir em novas tecnologias, capacitando-se para futuros mercados, inclusive no exterior.

“É a primeira vez que essa empresa faz um forno deste tamanho e com essa característica. É um forno com atmosfera de amônia. Isso não é simples. É todo específico, desde a solda até o material em seu interior”, comentou o militar.

Mas, apesar de incentivar a indústria nacional a operar conjuntamente com a área da Defesa, a Marinha faz uma ressalva: os empresários têm que assinar um termo de confidencialidade, especificado dentro de um conjunto de leis de proteção do conhecimento. Para exportar, tem que ter aval do governo.

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