BNegão inflama o palco alternativo com diversão e inteligência

Feroz no discurso, ex-vocalista do Planet Hemp mistura rap, funk carioca, reggae e rock

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Numa excelente apresentação, o carioca BNegão inflamou com seus Seletores de Frequência a plateia do palco Oi Novo Som, no final da tarde desta segunda-feira no SWU. Sob fórmula musical recheada de rap, funk carioca, funk não-carioca, ragga, reggae e rock, o carismático músico, cantor e compositor dosou diversão e inteligência com precisão, transformando em façanha o que se esperaria que fosse regra num festival de tamanhas proporções.

Egresso do Planet Hemp nos anos 1990, BNegão é feroz no discurso, mas tem aprimorado com brilho, ao longo dos anos, uma solidez musical que, nos melhores momentos, faz conexões diretas com o funk "de raiz" de James Brown e com o samba-soul-rock de Jorge Ben (hoje Ben Jor). Este último, não por coincidência, foi citado várias vezes durante o show, direta ou indiretamente.

Embora ainda fosse dia claro no início do show, BNegão chegou disparando um "boa-noite, boa-noite, bom-dia", copiado tal e qual de um dos gritos de guerra (ou de paz) do mestre Ben. A seguir, chamou por Hermes Trismegisto, um dos alquimistas de A Tábua de Esmeralda (1974). Por fim, incendiou a tenda lotada entremeando versos da versão envenenada de Zumbi (1976) num funk novo (e forte) apelidado de Chuchu: "Eu quero ver o que vai acontecer quando Zumbi chegar, eu quero ver".

A música suingada de BNegão é repleta de referências ácidas e críticas, de um modo que, num mundo ideal, teria tudo a ver com o palco principal de um festival apontado para as causas nobres como o SWU. "Hoje pavão, amanhã espanador!", vociferou, entre ironias lançadas contra um consumismo de resto pouco contestado pela doutrina ecossustentável do festival. "O inimigo somos nós mesmos", constatou, convocando a plateia a admitir que "o que a gente critica é muito parecido com a gente" - e ecoando de modo depurado (como já fizera O Teatro Mágico) o lema "começa com você" preconizado no nome do festival.

O show completou um arco perfeito entre a "liberdade (que) hoje parece um carro potente" e a chegada anunciada do Zumbi dos Palmares de Jorge Ben. Contrariando a tão propalada tese de sustentabilidade do festival, ele era um dos raríssimos artistas negros a protagonizar um show dentro de um festival eminentemente branco (a não ser por grande parte do exército de trabalhadores do evento). Quando BNegão se despediu, pouco depois do chamado a Zumbi, a noite tinha quase acabado de cair, sob um fiapo de lua no céu. Boa-noite, boa-noite, bom-dia.

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