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Para otimistas nucleares , bomba atômica garante a paz

Enquanto alguns analistas dizem que armamento evita conflitos, outros temem ataque nuclear seja lançado por terroristas

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Há um ano, o presidente dos EUA, Barack Obama, defendeu em um discurso na capital da República Checa, Praga, "a paz e a segurança de um mundo sem armas nucleares". Mas esse objetivo, que parece óbvio, é pouco inteligente na avaliação de especialistas que apostam exatamente no contrário. Para eles, quanto mais países obtiverem bombas atômicas, mais pacífico e seguro será o mundo.

Segundo esses analistas, não se desenvolvem armas nucleares para realmente usá-las em um ataque. O principal objetivo de um Estado atômico seria o de dissuasão: desencorajar ataques dos rivais por ter em mãos um armamento que causa a aniquilação total do inimigo. Foi esse poder dissuasório, segue o raciocínio, que teria impedido que a Guerra Fria (1947-1991) esquentasse, por exemplo.

Em 1981, o cientista político Kenneth Waltz, professor emérito da Universidade de Berkeley, escreveu um artigo em que aplicou o mesmo pensamento à proliferação nuclear. Publicado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Londres, o trabalho defende que quanto mais países tiverem bombas atômicas, menos frequentes e menos intensas serão as guerras convencionais.

Os argumentos dos chamados "otimistas nucleares" são em sua maioria baseados em episódios históricos. "O passado não pode ser visto como um guia infalível, mas sem dúvida oferece evidências de que os Estados atômicos são mais cautelosos em momentos de crise, com medo de agravar a situação", afirma o indiano Sumit Ganguly, professor da Universidade de Indiana, nos EUA.

© AP
Imagem aérea mostra navio soviético transportando mísseis que estavam em Cuba de volta para a URSS (07/11/1962)

A crise dos mísseis é um dos exemplos mais citados. Em outubro de 1962, a União Soviética posicionou mísseis nucleares em Cuba, em resposta à duas ações americanas realizadas no ano anterior: a instalação de mísseis na Turquia e a invasão da Baía dos Porcos, que fracassou ao tentar derrubar o regime de Fidel Castro.

Foram treze dias de negociações intensas até os soviéticos retirarem os armamentos do território cubano - após terem conseguido, secretamente, uma futura retirada dos mísseis americanos que estavam na Turquia. A guerra nuclear, que parecia iminente, não aconteceu.

"É a lógica por trás da garantia de destruição mútua", diz Ganguly, referindo-se ao conceito MAD (sigla em inglês para Mutual Assured Destruction), doutrina de estratégia militar que prevê que o uso em larga escala de armas nucleares por dois lados opostos resultaria na destruição do agressor e do defensor.

"Se os dois lados possuem a bomba atômica e, se atacados, podem sobreviver o suficiente para revidar, ninguém pode achar que conseguirá uma vitória militar se atacar primeiro", explica o professor indiano.

Mera questão de sorte

Mas há quem discorde dos "otimistas nucleares". Para eles, há uma explicação mais simples para o fato de os EUA e a Unão Soviética não terem usado armas nucleares em uma ofensiva militar direta na Guerra Fria: sorte.

"A crise dos mísseis chegou muito perto de um conflito nuclear", afirma Matthew Evangelista, professor de Política Internacional da Universidade de Cornell, nos EUA. "Os dois países tiveram comportamento arriscado e chegaram a colocar seu armamento atômico em alerta. Um acidente poderia ter causado o agravamento do conflito."

© AP
Imagem de 1962 mostra o então presidente dos EUA John F. Kennedy durante reunião sobre a crise dos mísseis"

Joseph Cirincione, presidente da Ploughshares Fund, fundação americana que apoia iniciativas pelo desarmamento nuclear, acredita que a ideia do "quanto mais, melhor" é perigosa.

"A teoria tem algum mérito, mas só funciona enquanto funcionar. E, quando falha, falha catastroficamente", afirma. "Os seres humanos são falíveis, cometem erros, calculam mal, começam guerras desnecessárias. Se não eliminarmos as armas nucleares, é só uma questão de tempo até que elas sejam usadas."

Ameaça terrorista

E é cada vez mais possível, temem alguns analistas e o governo americano, que terroristas, e não Estados atômicos, e não Estados atômicos, protagonizem um futuro ataque nuclear. Há temores, por exemplo, em relação ao arsenal do Paquistão, que enfrenta uma milícia islâmica Taleban cada vez mais agressiva, e ao armamento nuclear e material físsil que a Rússia vem desmantelando desde o fim da Guerra Fria.

O professor da Universidade de Notre Dame, Michael Desch, porém, subestima esse risco. "Mesmo durante momentos de grande turbulência as potências nucleares foram muito cautelosas quanto a seus arsenais, como quando a União Soviética estava ruindo", diz. "Além disso, nenhum país vai querer passar suas 'joias da coroa' adiante."

A opinião é compartilhada por Ganguly. "É extremamente complicado armar e lançar uma bomba atômica", afirma.

Mas Robert Legvold, professor de Política Internacional da Universidade de Columbia, classifica como "estupidez" a percepção de que todo tipo de arma nuclear está além da capacidade dos terroristas.

"É possível explodir uma bomba atômica na atmosfera sem ter um alvo ou um míssil", exemplifica. "As chamadas 'bombas sujas' são mais simples de detonar do que as termonucleares, mas também usam material radioativo e podem causar danos consideráveis."

Se a política mundial não caminhar em direção ao desarmamento, Joe Cirincione, da Ploughshares Fund, espera ver um ataque terrorista nuclear nos próximos 20 anos.

"Com apenas 25 quilos de urânio enriquecido e alguma assistência técnica, os terroristas podem construir um dispositivo nuclear bruto capaz de destruir uma cidade de médio porte, matar milhares de pessoas, causar um dano econômico de trilhões de dólares e desencadear pânico ao redor do mundo", diz.

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