Mudança de mentalidade é necessária para alcançar mundo livre de armas nucleares

Para especialista, redução de arsenais só ocorrerá depois que Estados atômicos reconhecerem que usar esse armamento equivale a cometer genocídio

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Mesmo os defensores de um mundo sem armas nucleares admitem que o caminho para chegar a tal objetivo será árduo. Segundo especialistas consultados pelo iG , alcançar a rápida redução de arsenais exigirá uma verdadeira mudança de mentalidade na política militar dos Estados atômicos, que terão de desconsiderar seus arsenais como eficazes e se conscientizar de que têm em mãos armas de destruição em massa.

"As nações precisam reconhecer seu armamento nuclear como um recurso que causa a morte em massa de civis - ou, na prática, o genocídio", afirma Matthew Evangelista, professor de Política Internacional da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. "Só assim vão deixar de considerá-lo 'utilizável' e se tornarão capazes de seguir adiante com propostas sérias para reduzi-lo."

Reprodução
Imagems de 1945 mostra destruição em Hiroshima após explosão da bomba

O efeito devastador de apenas uma bomba atômica - provado nos ataques americanos às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945 - não impediu que, na década de 1980, EUA e a antiga União Soviética armazenassem em conjunto pelo menos 66 mil armas nucleares, capazes de destruir a população mundial incontáveis vezes.

Esse poder de destruição das armas nucleares originou em 1945 o conceito em inglês de "overkill", que se refere à capacidade de destruir um inimigo mais do que seria necessário para alcançar uma vitória militar. Por causa desse poder irrefreável, que varre do mapa, sem distinção, tudo o que encontra pela frente, o conceito atualmente é utilizado para se referir ao que é ineficaz.

Redução dos arsenais

Um processo de redução de arsenais teve início na década de 1990 e, atualmente, EUA e Rússia possuem pelo menos 22 mil armas nucleares. "O número ainda é muito mais do que o necessário para destruir os dois países, mas representa um grande avanço se comparado à insanidade nuclear da Guerra Fria", afirma Joseph Cirincione, presidente da Ploughshares Fund, fundação americana que apoia iniciativas pelo desarmamento.

Cirincione acredita ser "completamente possível" chegar ao "zero global" (nenhuma arma nuclear) e faz uma previsão otimista: "Em duas décadas, podemos reduzir as armas existentes de milhares para centenas", afirma.

Como primeiro passo, ele defende que um acordo internacional determine um máximo de mil armas por país. Além disso, considera crucial fazer com que seja mais difícil obter tecnologia atômica, para prevenir uma corrida armamentista. Assim, todos os países deveriam se comprometer a reforçar a segurança de qualquer tipo de material nuclear. "O Brasil, por exemplo, possui toneladas de urânio enriquecido que pode ser usado em uma arma", exemplifica Cirincione.

Robert Legvold, professor de Política Internacional da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, afirma que outro desafio é incluir as demais potências nucleares nas negociações pelo desarmamento.

"Quanto mais os Estados Unidos e a Rússia reduzirem seus arsenais, mais importante será incluir os outros países que têm armas atômicas", afirma. "Se já foi difícil negociar entre dois países, imagine entre nove", diz, referindo-se a todos os Estados atômicos: EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França, China, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte.

    Leia tudo sobre: segurança nuclearbomba atômica

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG