Encontro reúne 46 países para discutir formas de impedir que estoque global de material atômico caia em mãos erradas

Com a ameaça do terrorismo nuclear em mente, 46 chefes de Estado e de governo e organizações internacionais se reúnem a partir desta segunda-feira em Washington, EUA, para a Cúpula Global de Segurança Nuclear.

O encontro sem precedentes tem como uma de suas principais metas discutir como salvaguardar, em um período de apenas quatro anos, as bombas atômicas e o material nuclear de todo planeta para evitar que caiam em mãos erradas.

Considerando-se que os especialistas estimam que, em meados de 2009, o estoque global de material atômico mundial era suficiente para produzir 120 mil bombas, com boa parte dele estando desprotegido, a tarefa promete ser difícil.

O plano é altamente ambicioso e difícil de implementar, afirmou ao iG Ken Luongo, presidente da Parceria por Segurança Nacional, organização que tem o objetivo de diminuir a ameaça das armas de destruição em massa. Estamos trabalhando na Rússia e nos ex-Estados soviéticos há 15 anos e só completamos 90% de nosso objetivo, disse.

A especialista em segurança nuclear Alexandra Toma, do Connect U.S. Fund, concorda que o prazo de quatro anos é um padrão muito alto, mas ressalta que a cúpula em si é uma conquista por seu ineditismo e aspecto multilateral. Essa é a primeira vez que um líder mundial consegue reunir outros países para discutir como evitar o terrorismo nuclear, afirmou.

Agenda nuclear

O ambicioso plano faz parte da agenda nuclear do presidente americano, Barack Obama, que convocou o encontro em julho de 2009 - dois meses depois de anunciar em Praga que trabalharia por um mundo livre de armas nucleares. No discurso, o líder americano indicou que um dos motivos para esse objetivo eram as informações de inteligência de que os terroristas estão determinados a comprar, construir ou roubar armas nucleares.

Para preparar o cenário para a cúpula desta semana, o governo americano cuidou para que duas medidas precedessem o evento. No dia 6, Obama anunciou a primeira política nuclear dos EUA desde 2002, que prevê restringir o uso de armas nucleares pelo país. Dois dias depois assinou, tendo como palco novamente a capital da República Checa, um tratado de desarmamento nuclear com o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev.

A cúpula desta semana fecha o que vem sendo chamado nos EUA de abril nuclear de Washington. Estou há 25 anos aqui, e não me lembro de haver tanta atenção assim para questões nucleares em um período tão curto de tempo, afirmou Luongo.

A expectativa é que o evento, o primeiro a marcar 2010 como um importante ano para a segurança nuclear, ofereça avanços antes do segundo grande encontro deste ano: a Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), que ocorre entre 3 e 28 de maio em Nova York.

Resultados

Como previamente à cúpula foram realizados três encontros preparatórios em Tóquio (Japão), Haia (Holanda) e em Washington, espera-se que a conferência termine com uma declaração oficial que estabeleça um plano de ação de longo prazo e um cronograma com metas específicas.

Como primeiro passo, todos os Estados presentes no encontro deveriam se comprometer às convenções que já existem para prevenir o terrorismo e proteger os materiais físseis, disse Deepti Choubey, vice-diretora do Programa de Política Nuclear do Carnegie Endowment for International Peace.

Para Alexandra Toma, uma medida que tem de ser tomada é o estabelecimento de um padrão internacional para proteger o material nuclear. Normalmente se fala que, para a segurança nuclear, os três Gs (Guns, Guards e Gates ¿ armas, guardas e portões) são fundamentais, mas também é necessário uniformizar o que hoje é feito de forma independente por cada país, disse.

Luongo acredita que podem ser adotadas fortes medidas para coibir o contrabando de material atômico. Como ações concretas para alcançar esse objetivo, o presidente da Parceria por Segurança Nacional diz que é possível melhorar a detecção de radiação nas fronteiras, a cooperação internacional e a compartilhamento de informações de inteligência.

Segundo Deepti Choubey, um dos desafios da conferência será evitar que seus eventuais avanços caiam no esquecimento. Grande parte do mecanismo para lidar com a ameaça do terrorismo nuclear foi criada há anos, e Obama promoveu essa cúpula para estimular os países a agir novamente, disse. Há informações de que a Rússia concordou em realizar o próximo encontro em 2012, o que deve ajudar a enfrentar esse desafio, completou.

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