Demora em aprovar novas sanções contra Irã põe em risco credibilidade dos EUA

Segundo analista, Obama tem de ser firme perante as ameaças do país para que não pareça fraco; China e Rússia são os fiéis da balança

Leandro Meireles Pinto, iG São Paulo |

Depois de ver frustrada sua proposta de negociar por meio do diálogo o fim do programa nuclear iraniano, o presidente Barack Obama realiza gestões para conseguir aprovar no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) uma quarta rodada de sanções contra a República Islâmica. Mas a tarefa não tem sido fácil e põe em jogo a credibilidade do governo americano.

No início do ano, autoridades americanas e europeias previam que a nova resolução sairia em fevereiro. Depois Obama indicou que seria neste mês. Agora a França e outros aliados dos EUA sugerem que ela pode sair só em junho. No dia 30, o próprio Obama indicou que essa data é a mais provável. "Minha esperança é a de que resolveremos isso até o fim da primavera (junho, no Hemisfério Norte)", disse durante encontro com o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Lideradas pelos EUA, as potências ocidentais esbarram na resistência da China e da Rússia, que, assim como EUA, Grã-Bretanha e França, têm poder de veto por serem membros permanentes do Conselho. Além disso, também se veem na posição de ter de convencer países como o Brasil, que desde janeiro ocupa uma cadeira temporária no órgão de 15 integrantes, de que o Irã quer a bomba atômica. Teerã, no entanto, diz que seus objetivos são pacíficos e defende o direito, previsto no Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), de enriquecer urânio para uso civil.

Para Eugene Golz, especialista em política externa da Universidade do Texas, um dos motivos pelos quais as potências suspeitam que o Irã busque armamento nuclear é sua retórica anti-Ocidente. "Ao não reconhecer e ainda ameaçar varrer do mapa o Estado de Israel e se posicionar contra a presença de tropas americanas no Oriente Médio, o Irã dá a entender que investe na produção atômica até como forma de dissuasão contra possíveis ataques", explicou ao iG .

Segundo Golz, agora é o momento de os EUA se posicionarem de forma firme, em acordo com a comunidade internacional, para que o governo Obama não pareça "fraco" perante as ameaças iranianas.

De acordo com o New York Times, aliados dos EUA afirmam que os atrasos e a perspectiva de que seja aprovada uma resolução bem mais branda do que inicialmente planejado colocam a credibilidade do governo em jogo, no que é um de seus maiores desafios de política externa.

"O fator desestabilizador do Irã no Oriente Médio é um problema muito real para o Ocidente, especialmente para os EUA", afirmou ao iG o professor Charles Armstrong, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Columbia, em Nova York.

Atualmente o mantra do governo dos EUA para alcançar as novas sanções é o de que ganhar tempo e manter a unidade "principalmente no que concerne à cooperação chinesa e russa" são mais importantes do que tentar avançar em meio às divisões internacionais.

A caminho das sanções

Ao assumir seu mandato, em 2009, Obama ofereceu "um novo começo" nas relações com Teerã, em uma mensagem de vídeo dirigida ao povo iraniano. Iniciativa sem precedentes, sua mensagem foi divulgada para coincidir com o festival do Nowruz, que marca o início de um novo ano persa. Na época, ele declarou: "Se países como o Irã estiverem dispostos a abrir os punhos, vão encontrar nossa mão estendida." 

No entanto, com o passar do tempo ficou claro que o país não suavizaria sua postura, ainda mais depois de sua pior crise interna desde a Revolução Islâmica (1979), em junho de 2009, quando o regime se fechou ainda mais para garantir sua sobrevivência reprimindo milhares de manifestantes que denunciavam como fraude a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad.

Três meses depois, Obama deu os primeiros sinais de que mudaria seu tom com Teerã. Em 25 de setembro, denunciou ao lado de Sarkozy e do premiê britânico, Gordon Brown, que o país tinha mantido sob segredo a construção de uma segunda usina de enriquecimento de urânio perto da cidade sagrada de Qom.

Oito dias antes havia começado a cortejar a Rússia, que ajudou a construir a usina nuclear iraniana de Bushehr, para aprovar medidas mais duras contra o Irã. Em 17 de setembro, anunciou que modificaria o projeto de George W. Bush (2000-2009) de construir um sistema de defesa antimíssil na Polônia e República Checa. Moscou se opunha ao plano por acreditar que o escudo, que seria instalado em países de sua histórica área de influência, colocava sua segurança em risco.

Na semana passada, Obama colheu seus primeiros frutos. Ele e o presidente russo, Dmitri Medvedev, assinaram em Praga um histórico tratado de desarmamento nuclear e foram unânimes em exigir que Teerã renuncie a suas ambições nucleares se não quiser sofrer novas sanções.

Agora resta ao presidente americano conseguir a mesma harmonia com a China, que importa 15% da produção de petróleo do Irã e tem grandes interesses comerciais no país. "A China tem um papel crucial nas negociações nucleares. Creio que Pequim está pronto para apoiar sanções mais duras, mas muito ainda depende da habilidade diplomática dos EUA", afirma Kantathi Suphamongkhon, ex-chanceler tailandês e professor de Relações Internacionais da Universidade da Califórnia.

Guarda Revolucionária na mira

O Conselho impôs a primeira rodada de sanções ao Irã em dezembro de 2006. Desde então, sucessivas resoluções impediram um número cada vez maior de generais e cientistas iranianos de viajar, e conclamaram os países a suspender todo tipo de comércio com o país, incluindo de armas. Mas a última resolução, de 2008, foi atenuada muito por causa da objeção dos chineses.

Na nova rodada de sanções, Obama planeja enfatizar a Guarda Revolucionária, que gerencia o braço militar do programa nuclear e é considerada a eminência parda do regime. E, segundo funcionários do governo, a Casa Branca desistiu, pelo menos por enquanto, de cortar o envio de gasolina refinada ao país, pelo temor de que a medida prejudique mais a população do que o governo.

Com informações do "The New York Times"

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