Coreia do Norte pode considerar programa nuclear oportunidade de negócios, advertem especialistas

Regime comunista norte-coreano, um dos mais fechados, usa programa atômico como poder de barganha com a comunidade internacional

Leandro Meireles Pinto, iG São Paulo |

Com uma economia que enfrenta problemas crônicos, a Coreia do Norte é um dos países mais pobres no clube das nações que possuem bombas atômicas. Por causa disso, analistas temem que o regime comunista, que usa seu programa nuclear como poder de barganha com a comunidade internacional, enxergue uma oportunidade de negócio na venda de sua tecnologia nuclear para outros países.

"Há relatos não confirmados de que a Coreia do Norte está ajudando Mianmar, que faz fronteira com a Tailândia, a obter armas nucleares", afirmou, em entrevista ao iG , Kantathi Suphamongkhon, ex-chanceler tailandês e professor de Relações Internacionais da Universidade da Califórnia. Mianmar, país asiático que vive sob o controle de uma junta militar desde 1962, faz fronteira com a China, Tailândia, Índia, Bangladesh e Laos.

Atualmente, o regime de Pyongyang ajuda a junta militar de Mianmar a construir uma extensa rede de túneis blindados e refúgios com fins militares em diversas áreas do país. As gigantescas obras de engenharia em Mianmar, uma das nações mais pobres da Ásia, alimentaram as suspeitas de que o regime norte-coreano também planeja fornecer tecnologia nuclear aos generais locais.

Segundo Suphamongkhon, a crise financeira da Coreia do Norte pode incentivar a transferência de tecnologia, uma vez que o país sofre rigorosas sanções econômicas desde seu primeiro teste nuclear, em outubro de 2006.

A Coreia do Norte enfrenta um dos períodos mais difíceis na questão econômica, com sanções internacionais e uma fracassada reforma monetária que quase paralisou o comércio em 2009. Na última década, o país passou por uma onda de fome que teria matado um milhão dos 22 milhões de norte-coreanos.

A revalorização da moeda local, implementada no final de 2009, agravou a inflação, dificultou o acesso dos mais pobres a mantimentos básicos e, segundo a agência sul-coreana de espionagem, estimulou manifestações populares em um dos Estados mais fechados e autoritários do mundo.

Em 2007, órgãos de inteligência dos EUA acusaram o regime comunista norte-coreano de tentar vender tecnologia nuclear para a Síria. Em setembro daquele ano, Israel bombardeou uma suposta instalação militar em Al-Kibar, no norte da Síria, onde o governo americano assegurou que um reator nuclear era construído com a ajuda de técnicos norte-coreanos.

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Sul-coreanos protestam contra programa nuclear da Coreia do Norte / Getty Images

Outra ameaça, pouco provável no caso norte-coreano, é a possibilidade de o material nuclear da Coreia do Norte cair nas mãos de grupos terroristas que queiram atacar os EUA, Israel e países na Europa. "Esse é um caso improvável porque o regime norte-coreano é muito fechado e a possibilidade de roubo ou espionagem desse nível seria muito difícil", explicou Charles Armstrong, professor do Centro de Estudos Coreanos da Universidade de Columbia, em Nova York.

Além disso, a Coreia do Norte nuclear aumenta os temores de segurança no Japão e na Coreia do Sul, o que pode causar uma corrida armamentista na Ásia com os dois países também se sentindo pressionados a produzir armamento atômico. "É por isso que os EUA tentam assegurar o Japão e a Coreia do Sul de que eles estão suficientemente protegidos sob o 'guarda-chuva' nuclear americano", explicou o ex-chanceler.

Sem peso econômico no cenário mundial, a Coreia do Norte encontra em sua capacidade de produzir a bomba atômica uma forte moeda na hora de negociar com grandes potências. "Existe um sentimento entre os norte-coreanos de que as principais potências, especialmente os EUA, só levariam o país a sério se ele tivesse armas nucleares", disse Kantathi.

Com as negociações estagnadas desde abril de 2009, a China tem papel importante para eliminar a tensão nuclear na Ásia e trazer a Coreia do Norte de volta para a mesa de negociações. "O problema é que a China não quer aplicar muita pressão sobre o país por medo de que ele se torne mais instável e entre em colapso, o que seria um problema para a região", afirmou Armstrong, de Columbia, em referência à perspectiva de uma onda de refugiados norte-coreanos para os países da Ásia.

A China tem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU e grande interesse comercial na Coreia do Norte. "Por serem vizinhos, a China serve como 'porta de entrada' da Coreia do Norte para o mercado internacional. Por isso, é provável que Pequim apoie sanções mais fortes, mas com limites", explicou Suphamongkhon.

Como o país ainda está tecnicamente em guerra com a Coreia do Sul, o regime de Pyongyang condiciona a retomada de negociações à substituição por um tratado de paz do armistício assinado em 1953, no último ano da Guerra da Coreia (1950-1953).

Além disso, o país reivindica que sejam retiradas as sanções internacionais impostas em 2009 após o lançamento de um foguete de longo alcance e da realização de seu segundo teste nuclear. "O programa nuclear, nesse caso, vira moeda de troca para o país negociar diretamente com os EUA com grande poder de barganha", explicou.

Bomba como propaganda

A Coreia do Norte começou a desenvolver seu programa nuclear nos anos 1960, com auxílio da União Soviética. Após a morte do líder Kim Il-Sung em 1994, que fundou o regime norte-coreano em 1948, o país enfrentou uma grave crise econômica que ameaçava desestabilizar o governo de seu sucessor, Kim Jong-Il.

"Foi para conter o descontentamento da população e manter o regime intacto que o governo passou a priorizar os investimentos militares, acelerando o processo de produção da bomba atômica, uma ótima arma de propaganda", explica o historiador Michael Robinson, professor do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Indiana e autor do livro "Nacionalismo Cultural na Coreia Colonial".

Robinson explica que está em jogo também um grande sentimento de orgulho dos norte-coreanos em relação ao programa nuclear. "A bomba é muito importante na propaganda interna. É demonstrando poderio militar que Kim Jong-il consegue manter o controle sobre a população", afirmou.

O problema da sucessão

A questão é se o sucessor de Kim Jong-il, de 67 anos e provável vítima de um derrame em 2008, teria a mesma força para controlar a população.

Diferentemente de seu pai, Kim Il-Sung, que o escolheu como sucessor em 1974 (a tempo de que angariasse poder e se tornasse respeitado), Kim Jong-Il teria escolhido seu filho mais novo apenas em junho do ano passado.

Com 26 anos, a ascensão de Kim Jong-un ocorreu às custas de seus dois irmãos mais velhos. Kim Jong-nam descartou suas chances quando foi pego tentando visitar a Disneylândia japonesa em 2001 com um passaporte falso. O irmão do meio, Kim Jong-chul, aparentemente seria considerado muito "afeminado" para governar.

"Não está claro se Kim Jong-Un, seu provável sucessor, tem o apoio da elite norte-coreana, incluindo o alto escalão militar", relatou Suphamongkhon.

Assim, ninguém arrisca fazer apostas sobre o que acontecerá com o regime de Pyongyang caso Kim Jong-il morra de forma inesperada.

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