Roberta Medina: 'Rock in Rio não é evento de nicho'

Produtora do festival rebate críticas dos roqueiros e brinca: 'Vou colocar uma piscina de lama para matarem a saudade de 1985'

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Léo Ramos
"Só aceitei coordenar o Rock in Rio em 2001 depois de o meu pai insistir três vezes. Não dormi por nove meses", brinca Roberta Medina
Roberta Medina, 33 anos, em um primeiro momento, escapa à imagem padrão de uma executiva encarregada da produção do maior festival de música do país e um dos maiores do mundo. Sem cerimônia, deixa de lado os apertos de mão, cumprimenta todos na sala com beijinhos e uma simpática informalidade que torna desnecessário quebrar o gelo antes de começar uma entrevista.

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O papo começa naturalmente, a ponto de o gravador ser ligado minutos depois, com a moça bonita e sorridente já lembrando histórias de bastidores que lhe foram contadas por Amin Khader, o coordenador dos camarins do primeiro Rock in Rio . As recordações vão dos brindes da franquia nos seus tempos de criança, de um mero cordão para óculos e do “disquinho” do festival de 1985 - quando ainda sequer completara sete anos - até o dia em que se perdeu na obra e, aos prantos, deu graças aos céus quando um funcionário chegou para ajudar.

Espirituosa, ela atualmente vive em Portugal, usa termos do idioma com sotaque da “terrinha”, e chegou a brincar sobre colocar uma piscina de lama no evento de setembro para abrandar as reclamações dos saudosos do Rock in Rio original. A música pop é a preferida de Roberta, tiete do New Kids on the Block no segundo festival. “Adoro dançar”, justifica a executiva, que norteia seus critérios musicais pela cena londrina. Neste Rock in Rio , só não aceita perder o show de Stevie Wonder e revela um desafio para as próximas edições: sonha em trazer o inglês Robbie Willians.

Confira abaixo a entrevista de Roberta Medina ao iG :

iG: Os roqueiros, especialmente os que foram naquele primeiro festival de 1985, costumam dizer que o festival tem muito pop, que mudou...
Roberta Medina: O rock não é a música, é o espírito construtivo, otimista, empreendedor. No primeiro já teve Elba Ramalho, James Taylor... Não mudou nada. Ivete Sangalo e Cláudia Leite saltaram um nível, deixaram de ser meramente axé e viraram artistas pop. E outra coisa, cara, não vamos colocar sertanejo não, mas olha o Brasil, é rock pop? É assim ó (Roberta fez sinal de pequeno com os dedos). Quando você vai para as redes sociais, os roqueiros são os únicos que ficam reclamando. Coloca um nome pop, desaba a pancadaria contra. Mas venderam 600 mil ingressos em quatro dias. É um evento de massa, não é um evento de nicho, um evento para o jovem, como foi no início. Fico brincando que vou colocar uma piscina de lama para ver se conseguem matar a saudade. Não é mais isso.

iG: O festival SWU em São Paulo você enxerga um pouco como esse evento de nicho que você citou? É o festival que está preenchendo essa brecha?
Roberta Medina: Se você olhar os festivais pelo mundo afora, muitos têm vários espaços. Mas a gente não fala só com o jovem, 75% do público do Rock in Rio está entre 15 e 50 anos. De 15 a 25, são 26%. E por quê? Porque está limpo, você pode andar tranquilo, levar seus filhos, ir em um banheiro legal, o ambiente é outro. É um parque temático da música. Claro que não negamos a origem, só estamos aqui em função dos 26 anos de história, e principalmente a primeira edição. Mas acho sim que o SWU está ocupando o espaço que ninguém ocupou. Portugal, que é muito menor, tem, sei lá, uns 20 festivais, e pelo menos cinco relevantes.

iG: Esse retorno do Rock in Rio passa também por essa crise de Portugal e Espanha?

Roberta Medina: Não, de forma alguma. Passa pelo sucesso do Brasil, do Rio de Janeiro, em um momento muito especial. O poder aquisitivo aumentou, a economia está fervendo, o Rio está buscando um calendário de eventos sólido... Essa foi uma conversa que tive com o prefeito (Eduardo Paes), que pediu para o evento acontecer em setembro, não em janeiro como era antes, porque em setembro a hotelaria tinha um momento de baixa. Quase a metade, 45% do público, vem de fora do Rio. É muita coisa. Então trouxe benefício para a cidade e para a gente também. Em 2001, ou você tinha 80% dos custos pagos de cara por patrocínio, ou a conta não fechava. Era R$ 35 a entrada inteira. Hoje é R$ 190 a inteira, mas é mais barato do que qualquer show internacional de um artista só.

Léo Ramos
Roberta Medina já tocou piano e recentemente começou a estudar bateria, mas teve de parar por falta de tempo
iG: E a hotelaria comporta isso?
Roberta Medina: Não. A gente bate cabeça aqui por causa disso. Mas com o tempo vai melhorar, a cidade está se preparando para isso.

iG: Por que essa opção de vender os ingressos sem fechar os artistas? Quando isso começou?
Roberta Medina: Começou em 2008, em Portugal. É a força da marca, a gente trabalha para isso, para ser a maior marca de música do mundo, não apenas o maior festival de música. Significa que estamos indo por um caminho de expandir em outros seguimentos.

iG: Voltando ao primeiro Rock in Rio, o que ficou marcado para você?
Roberta Medina: Brincar com as viseiras, com os óculos, todos os produtos licenciados. Ainda tenho o disquinho. Fiquei anos com aquele cordão de prender óculos, tinha de todas as cores. Lembro de me perder nas obras da Cidade do Rock, fiquei aos prantos, berrava. Nem me perdi, estava ao lado de uma das tendas de bar, eles foram para o outro lado e eu fiquei. Pânico! Até um dos funcionários me achar. Lembro de botar gel no cabelo, aquela era a época do “new wave”, purpurina.

iG: De quem você é fã no line up desta edição? Quais artistas você ouve no som da sua casa?
Roberta Medina: Quase todos, até o Metallica. Mas as baladas, o pesado não. Eu admiro muita gente, mas fã, fã mesmo, era do New Kids on the Block e Menudo. Olhando para trás, vendo as fotos, aquele dente separado do Robi (Rosa), que era o meu príncipe, não dá para entender (risos). Mas não tenho muito isso de fã, talvez por crescer muito próxima de figuras públicas. Show que eu quero ver? Stevie Wonder, mas não toca todo dia na minha casa. Quem eu adoro? Katy Perry, Coldplay, Shakira, eu gosto de dançar. Mas como show o cara (Wonder) é incrível. Como em 2008, em Lisboa, foi o Rod Stewart.

iG: Você toca algum instrumento?

Roberta Medina: Fiz aula de piano quando era pequena. Recentemente comecei a fazer aula de bateria, mas com a falta de tempo tive de parar. Está lá na garagem. Quero voltar. É muito difícil!

iG: Como vocês lidam com a produção, tempo de show, montagem do palco para cada artista?
Roberta Medina: Os primeiros têm tempo limitado, o último não. Para a equipe técnica é uma operação insana, trocam o palco em 20 minutos. Graças a Deus em 26 anos não aconteceu nada. Só em 2001, tudo perfeito, tudo certo, no último dia, no final, um segurança deu um tapa num garoto e aí veio todo mundo (mídia) em cima. Somos muito chatos. A gente começa a trabalhar com órgãos públicos 11 meses antes. Eu vou lá cobrar fiscalização, quero que venham, porque a partir do momento que vierem, estou mais segura.

iG: Neste Rock in Rio você terá públicos completamente distintos. O público de axé, os metaleiros... Isso é levado em conta na operação de segurança?
Roberta Medina: Tudo isso. No dia que temos mais crianças, tem uma operação diferente de colocar pulseirinha nelas com telefone dos responsáveis. O Heavy Metal é genial. Eles são uma delícia! Eles são fãs, seguem os caras aonde estiverem. A atitude, apesar de ser preto e assustador, é muito positiva. O tal do “pitboy” é que para a gente é um problema, porque eles gostam de bater nos outros por nada. Os mais difíceis são os dias de Red Hot Chilli Peppers e Guns’n’Roses, rola alguma energia, não sei, são os públicos mais difíceis.

Léo Ramos
Roberta Medina pegou uma guitarra emprestada do pai, coberta de autógrafos, ao posar para o iG
iG: Você disse que não é muito de frequentar camarins. Isso tem algum motivo específico, algum artista já foi grosseiro, tentou te cantar ou algo assim?
Roberta Medina: Não, cruzes, não. No New Kids on the Block foi ridículo, fiquei apavorada. Esperei aquilo tanto tempo, na hora de tirar a foto saí correndo. No camarim dos artistas que eu conheço ou com quem tenho algo a falar, eu vou. Adoro artista, o que não gosto é de chatear. O cara está se preparando para o show, o que eu vou fazer ali?

iG: Ainda tem muito aquele tipo de exigência extravagante dos artistas?
Roberta Medina: Sempre vai ter uma ou outra coisa curiosa, mas no geral acabou. Tem uma realidade. Em 85, o cara pedia uma água Evian, você queria se suicidar. Não tinha produto importado no Brasil. Era uma encrenca! O cara quer sushi? Como faz? Aquilo tudo era muito engraçado porque não tinha. Hoje o mundo é globalizado e o mundo da música ficou mais profissional. Esse tipo de coisa foi reduzida.

iG: Tem algum artista que você ainda sonha em trazer, mas não conseguiu?
Roberta Medina: Robbie Williams. O show dele é incrível. Aqui ele nem é tão forte, lá fora é uma revolução. Lady Gaga, talvez. Eu sou pop. Apesar de ouvir de A a Z, só não ouço música clássica e ópera porque acho que não evoluí o suficiente para isso (risos). Mas com a idade eu chego lá, eu gosto de pop, gosto de dançar.

iG: Em qual momento você decidiu tomar esse rumo de comunicação, produção e música?
Roberta Medina: Curiosamente não tem nada a ver com o Rock in Rio. O meu pai é um homem de comunicação, é a paixão dele. Aí em 95 o Barra Shopping era cliente da agência (Artplan) e estava fazendo uma promoção de Natal com show da Disney, que trocava a fatura por ingresso e tal. Encontramos com o gerente de marketing, ficamos conversando e me chamou para trabalhar. Fazia a ponte entre eles e a equipe de produção. Comecei a ver como as ideias saíam do papel. Essa conexão de peças é o que eu faço até hoje. No Rock in Rio de 2001, como eu podia, com 22 anos, coordenar a produção? Quando meu pai falou, eu disse não. Na terceira vez que insistiu, aí acabei aceitando. Aquele negócio de personalidade, nada é impossível...

iG: Ficou quantos dias sem dormir depois disso?
Roberta Medina: Nove meses! (risos)

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