10/07 -
18:43
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Ricardo Kotscho
Poucas vezes na vida vi tamanha unanimidade nas previsões populares sobre o desfecho de um caso polêmico.
Como ando bastante a pé e de táxi, viajo muito (hoje mesmo estava em Brasília), e gosto de ouvir o que os outros pensam, conversei com muita gente sobre a prisão de Daniel Dantas e companhia bela.
Pois não teve uma única pessoa que admitisse sequer a possibilidade deles desta vez ficarem presos, apesar de todas as acusações que pesam contra a turma da grana pesada.
O deboche chegou a tal ponto que alguns colegas blogueiros até lançaram enquetes para saber por quantos dias eles ficariam presos, prometendo prêmios a quem acertar.
Por isso, foi sem nenhuma surpresa que ouvi no final da noite de quarta-feira a notícia de que o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, tinha mandado soltar Dantas e o pessoal todo do Opportunity.
A bola tinha sido cantada na véspera pelo próprio presidente do STF, quando ele saiu a campo para atacar o que chamou de “espetacularização” da Operação Satiagraha deflagrada pela Polícia Federal.
Tanto o desfecho era previsível, que não foi preciso nem ler as análises dos juristas, cientistas políticos, colunistas, juristas e especialistas em geral para saber o que iria acontecer.
Bastava ler as 15 cartas de leitores tratando das declarações de Mendes sobre a “espetacularização” da PF que o jornal “O Globo” publicou nesta quinta-feira.
O tom de indignação, de revolta mesmo, era geral: não adianta a Polícia Federal prender, a Justiça vai mandar soltar.
Como o jornal fechou a edição que eu li no avião antes da ordem do presidente do STF mandando soltar a turma, posso imaginar qual foi a reação dos leitores do jornal carioca - e de todos os outros, imagino -, quando a profecia se materializou com a cena de Daniel Dantas saindo da cadeia de madrugada.
O povo, definitivamente, não é bobo, como se pode constatar nestes trechos de algumas das cartas publicadas por “O Globo”, que dão bem uma idéia do sentimento do chamado homem comum nesta altura do campeonato:
“A posição do presidente do STF sobre a prisão de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta coloca sob suspeição qualquer que seja o posicionamento do ilustre magistrado no processo. As investigações apresentadas, que põem os maiores tribunais brasileiros, STJ e STF, como local de fácil solução por parte dos processos envolvendo os réus, ameaçam, decididamente, a existência do atual estado democrático de direito(...)” - Marcos da Silva Neves (Rio).
“Muito infeliz e suspeita a manifestação do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, criticando as prisões efetuadas (...) Principalmente depois de um deles ter dito, ao tentar subornar os policiais, que no STJ e no STF tudo é mais fácil de resolver. Sempre ouvi dizer que juiz só se manifesta nos autos do processo, exceto no Brasil, é claro” - Luiz Sérgio Miranda (Rio).
“Sugiro à Polícia Federal, seguindo a opinião de figuras nacionais que, quando efetuar prisão de figurões, em vez de algemas, faça um tapete de flores para que eles caminhem não para os camburões ou os carros de polícia, mas para limusines de alto luxo. Afinal, bandido de alto nível, no Brasil, merece atenção especial” - Aloísio Antonio Cabral (Juiz de Fora, MG).
“Quer dizer, ministro, que para figurões e influentes amigos do poder em Brasília prisões e algemas são exageros, mas para o que eles praticam, não? A lei é para todos, ministro! Talvez o nobre juiz esteja apenas se resguardando de futuras, digamos, suspeitas” - Eliton Rosa (Rio).
“Depois de ouvirmos o ministro Gilmar Mendes condenar a Polícia Federal por colocar algemas em Daniel Dantas e o mesmo dizer que com o STF e o STJ tudo se resolve, só podemos acreditar que há algo de podre neste país. Acorda, Brasil!” - Leônidas Marques (Volta Redonda, RJ).
Em tempo: no final da tarde, quando chego em casa, leio no IG que o juiz Fausto de Sanctis, da 6ª Vara da Justiça Federal, mandou prender Daniel Dantas de novo.
Desta vez, trata-se de prisão preventiva e não mais temporária. Façam suas apostas: até quando ele ficará na cadeia?
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