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Sem seguranças, sem frescura, apenas o melhor do mundo

08/07 - 01:04 - Ricardo Kotscho

Para quem está acostumado a ver os astros brasileiros chegando para as entrevistas, cercados por seguranças, assessores, agentes e empresários, foi um agradável susto

De tênis pretos e meias brancas, camiseta, calção e agasalho de treinamento do glorioso São Paulo Futebol Clube, onde tudo começou, de repente o melhor jogador do mundo surge sozinho, na hora combinada, caminhando lentamente pelo CT do seu ex-clube na Barra Funda, que mais parece um resort temático de futebol.

Ricardo Izecon Santos Leite, o Kaká, a figura que aparece à minha frente, cumprimentando-me com um sucinto “Oi!”, como se nos víssemos todo dia, poderia tranqüilamente passar por apenas mais um dos jovens jogadores que freqüentam este modelar centro de treinamento, jogando e sonhando com a fama.

Kaká nem sonha mais, como deixou bem claro na entrevista que concedeu na última sexta-feira, dia 27, a mim e ao editor de esportes do iG, Gian Oddi. Já conseguiu da vida tudo — e um pouco mais — do que um dia poderia ter sonhado.

Não é fácil marcar uma entrevista com ele. O mundo inteiro quer falar com Kaká, desde que ele trocou o São Paulo, ainda como jovem revelação, pelo Milan, vendido pela bagatela de 8,5 milhões de euros, em 2003.

Flávio Torres

Para nossa sorte, o assessor de imprensa dele é o jornalista Diogo Kotscho, meu sobrinho, filho do fotógrafo Ronaldo Kotscho, que passou quase a vida toda fotografando futebol para a revista “Placar”.

Assim mesmo, penamos para conseguir uma brecha na sua agenda, enquanto ele passa férias no Brasil, recuperando-se, no Refis do São Paulo, de uma operação no joelho que o deixou fora dos últimos jogos da seleção brasileira.

Aos 26 anos, com todos os títulos possíveis no currículo, Kaká tornou-se uma rara unanimidade no mundo do futebol. Bastam alguns poucos minutos de conversa com ele para descobrir os motivos.

No intervalo das sessões diárias de fisioterapia que faz religiosamente com o professor Carlos Alberto Vasconcelos Pressinoti, o Beto, um ex-jogador das equipes de base do São Paulo, que rodou sem sucesso por vários times do país, Kaká responde às nossas perguntas sempre com um sorriso, sem se abalar e sem fugir do assunto, num português absolutamente correto, as frases com começo, meio e fim.

Flávio Torres

Poderia ser tudo na vida, para quem não o conhece, menos jogador de futebol. A única coisa nele que faz lembrar os nossos antigos ídolos é sua adesão ao hábito de se referir a ele mesmo na terceira pessoa, como faz Pelé desde menino na Copa da Suécia.

Qualquer outro no seu lugar, jogador de futebol ou não, com a fama que desfruta hoje no mundo todo, estaria pelo menos um pouco afetado, mostrando alguma frescura típica de celebridade.

Mas ele me pareceu ser exatamente o mesmo cara do juvenil do São Paulo, todo centrado e certinho, que vi jogar pela primeira vez no começo de 2001, quando era reserva de um jogador chamado Harrisson, de quem nunca mais ouvi falar.

Contido nos gestos e nas auto-referências, é uma figura atípica nesta fauna de boleiros empavonados, que ficam famosos e milionários de um dia para outro, tornando-se outras pessoas.

Quando brinco no Reffis com Marco Aurélio Cunha, o folclórico supervisor do clube, sugerindo que o São Paulo precisa trazer Kaká de volta para melhorar o time, ele dá um sorriso de desdém. “Como? Nem se a gente vendesse o Morumbi...”.

Kaká também dá risada, como se não fosse com ele, pois nem pensa em um dia voltar. “Eu amo a Itália”, diz lá pelo meio da entrevista, não deixando nenhuma esperança para a torcida tricolor.

Com um filho recém-nascido, Luca, para cuidar, Kaká ainda tem duas semanas de férias no Brasil antes de se reapresentar ao Milan, já curado da cirurgia, e pronto para iniciar mais uma temporada na Itália.

Ao me despedir, faço uma pequena provocação, dizendo para meu sobrinho na frente do seu patrão que é muito fácil ser assessor de imprensa de um cara assim, que não fala nem faz nenhuma bobagem, e ainda por cima cumpre seus compromissos nos horários marcados.

Kaká entra no clima e promete falar algumas besteiras daqui para frente, só para dar mais trabalho ao seu assessor e amigo Diogo. Ninguém em volta acredita. Nem ele.





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