30/06 - 15:47, atualizada às 16:05 30/06 - Ricardo Kotscho
Conheci o Victor Siaulys quando fizemos um retiro espiritual em seu belo sítio de Mairiporã, faz muitos anos, nem lembro quantos. Grandalhão, de voz grave, é um desses tipos que você vê uma vez e não esquece. Fica amigo dele na hora, para sempre. Aonde chega, chama a atenção, não só pelo tamanho, mas pelas coisas que conta, coisas da vida, de uma vida que para ele nunca foi fácil. Já passou por muitas e boas, e nunca entregou os pontos.
Victor é um dos donos do maior laboratório farmacêutico nacional, o Aché, mas ficou mais conhecido por um caminhão de projetos sociais que desenvolve há muitos anos, com garra, fé e trabalho.
Faz um ano e meio descobriu que estava com câncer. Como sempre, foi à luta. Por isso, fiquei muito feliz na manhã desta segunda-feira quando abri o computador e encontrei uma carta dele cheia de entusiasmo e muitos planos.
Gostaria de partilhar esta bela lição de vida com os leitores e, por isso, passo a palavra diretamente a ele. Quem quiser falar com o Victor para saber mais da sua trajetória, o e-mail dele está no texto abaixo.
Diante deste testemunho de vida, qualquer coisa a mais que eu escrever é supérfluo, vai ser bobagem diante da grandeza da carta que ele me enviou com o título Conversando entre amigos:
“Como você deve saber, estou vivendo um momento especial de minha vida, desde a descoberta em 26 de novembro de 2006, que havia sido contemplado com uma LMA – Leucemia Mielóide Aguda. Para a imensa maioria das pessoas isto equivale a uma sentença de morte a curto prazo.
Como sempre, um incidente imprevisto deste tipo dá origem a muitas especulações, quase sempre pessimistas, cercadas de sentimentos de compaixão e piedade pela “tragédia pessoal”. É por esta razão que me dirijo a você e às centenas de amigos meus que têm demonstrado carinho e interesse pelo meu carma.
Ao longo da vida, tenho lutado e vencido três tipos diferentes de câncer: há mais de 30 anos um de tiróide com a sua remoção e substituição pelo Tetroid/Levoid; um de pele removido em consultório há cerca de 10 anos; um de próstata removido há 6 anos, dos quais posso me considerar curado. Como você percebe, não vou me render facilmente a este novo desafio.
A longa estadia no Hospital Albert Einstein me proporcionou tempo para terminar o sonho de um livro a ser publicado nos próximos dias e uma reflexão sobre a minha vida pessoal e profissional que em outras circunstâncias eu não conseguiria.
Em retiro forçado no hospital, me dei conta que tinha muito mais amigos do que imaginava.
É por isso que como amigos e companheiros de trabalho que eu gostaria de compartilhar a experiência que estou vivendo.
Continuo participando ativamente do Conselho de Administração do Aché e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República em Brasília, no Palácio do Planalto.
Internado, montei um hospital-office, sempre acompanhado de secretárias, filhas, sobrinhas plugadas na Internet, e fui realizando diversas reuniões ou cafés da manhã no próprio local.
Nos períodos de retiro no meu Santuário em Mairiporã, criei uma farmácia de manipulação e uma pequena fábrica de cosméticos, a Plantarium, como extensão da farmácia.
Das reuniões freqüentes com cientistas amigos como o Dr. Luis Pianowski, Prof. Calixto de Santa Catarina, Prof. Odorico do Ceará, meu alter ego médico Dr. Dagoberto Brandão, e um jovem promissor cientista Dr. Paulo Leal criamos uma micro-empresa, a PI – Product Innovation, visando criar e desenvolver produtos para o Aché.
Nos associamos com um excelente grupo ligado à Universidade Federal de Maringá e uma Universidade particular de São José da Boa Vista num projeto de plantio orgânico e extração a Organessência para atender demandas de plantas para os projetos de nossa empresa. O projeto foi aprovado e será financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia com 6 milhões de reais.
Num outro desatino que só a “suposta tragédia” permitiu, montamos uma pequena unidade de biotecnologia em co-participação com duas unidades da USP – o Hemocentro de Ribeirão Preto – referência nacional e internacional em hematologia e o IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Escola Politécnica da USP.
Nossa equipe capitaneada pela bióloga celular Dra. Fernanda Piza, com a consultoria da Dra. Ana Lúcia Assad, da Unicamp, faz a ponte entre os dois centros universitários. Mais uma vez fomos brindados com financiamento de 3 milhões de reais, para tentar produzir por via biotecnológica a produção do chamado Fator VIII para o tratamento de hemofilia, com o qual nosso país gasta cerca de 80 milhões de dólares/ano, comprando no exterior produto fabricado com sangue humano (quem sabe de doadores brasileiros), com todos os seus riscos.
Somente através da biotecnologia sua produção poderá ser absolutamente segura e muito mais barata. Se o projeto der certo, em pelo menos 2 anos poderíamos iniciar os trabalhos clínicos. A ciência brasileira dará um salto qualitativo enorme e uma repercussão extraordinária para o nosso país.
Tudo isto demonstra que continuamos trabalhando no curto, médio e longo prazo, qualquer que seja o tempo de nossa sobrevivência.
Recentemente fui convidado para dar um depoimento pessoal na VI Conferência Internacional de Onco-Hematologia. Como quase todos os meus amigos não poderão estar no dia lá no Rio de Janeiro, decidi compartilhar com vocês o texto da minha palestra/depoimento: que conta o que aprendi com a Leucemia. Não para olhá-la como o fantasma da morte mas como reaprender a viver.
Dezessete anos de Laramara com cerca de 8.000 famílias e mais de 40 anos de Aché – hoje com cerca de 3.500 amigos e admiradores constituem o capital mais rico que acumulei em minha vida. Se você conhece alguém que, de alguma forma, participou de nossa jornada, repasse esta nossa mensagem. Ela pode formar uma corrente de fé e confiança que nos una e nos fortaleça.
Espero voltar em breve com notícias mais concretas do meu livro: Mercenário ou Missionário?
Se por qualquer razão você quiser falar comigo, faça-o, por favor, através do meu e-mail victorsiaulys@uol.com.br
Como você vê, a desgraça traz consigo a sua graça – entenda-se dádiva de podermos, de alguma forma nos mantermos em contato.
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