26/06 - 13:49, atualizada às 20:48 27/06 - Ricardo Kotscho
Discretamente como sempre viveu, Ruth Cardoso se foi. Em singela, silenciosa e breve cerimônia, antes das 11 da manhã desta quinta-feira, ainda havia muita gente chegando ao cemitério da Consolação, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, filhos e netos começaram a caminhar em direção à saída, passando pelas alamedas tomadas por centenas de arranjos de flores de todas as cores e origens.
Os amigos mais próximos dela comentavam que Ruth se dava bem e gostava de todo mundo, menos de jornalistas e políticos em geral. Detestava microfones, holofotes e futricas de bastidores. Pois era o que mais havia em volta do túmulo entre as cerca de 500 pessoas que acompanharam os rituais de despedida.
Sem discursos nem cenas dramáticas, foi tudo como Ruth Cardoso gostaria que fosse. Menos por um detalhe: durante toda a cerimônia, havia gente falando pelo celular ou operando seu blackberry.
A meu lado, por se tratar certamente de um assunto inadiável e da maior relevância para o País, um cidadão acertava pelo celular a contratação de um funcionário para alguma administração regional da Prefeitura.
Dos mais antigos e íntimos amigos da família Cardoso, o ex-ministro da Justiça José Gregori, durante muitos anos meu colega na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, reparava na paisagem humana à sua volta e resumia com precisão a cena: “Você pode ver por aqui como a Ruth era uma figura ecumênica, acima das contingências da vida política”.
Poucas semanas atrás, em longa entrevista que fiz com FHC sobre a sua rotina de ex-presidente, ele me falou com alegria do tempo que agora dispunha para ir com a mulher a concertos, teatros e restaurantes, sem seguranças, como um cidadão comum.
Foi uma longa convivência de seis décadas exatamente, pois eles se conheceram na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP em 1948, quando Ruth veio de Araraquara para estudar em São Paulo. Agora, os amigos estão preocupados com ele, porque o ex-presidente tem mais tempo livre, mas perdeu a companhia de toda uma vida.
A maioria dos mortais passa pela vida e apenas deixa saudades para parentes e amigos próximos. Outros poucos, como Ruth Cardoso, deixam a marca de uma obra a serviço de toda a sociedade. Estes ficam para sempre.
No caso de Ruth e Fernando Henrique Cardoso, não tem essa história de que atrás de um grande homem tem uma grande mulher - nem vice-versa. Nenhum dos dois passou a vida atrás do outro. Cada um fez a sua própria carreira e escreveu a sua própria história.
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