iG - Internet Group

iBest

brTurbo

 

publicidade

ULTIMO SEGUNDO

 

iG BUSCA

enhanced by


Home > Notícia
  • Tamanho do texto
  • A
  • A

Brasil precisa de uma Reforma Política desesperadamente, diz Franklin Martins

20/06 - 12:22 - Ricardo Kotscho

Na quarta parte da entrevista, concedida com exclusividade a Ricardo Kotscho, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, jornalista Franklin Martins, fala sobre relacções com o Congresso, Reforma Política, caos aéreo, planos e música

Ubirajara Dettmar

iG – No início do seu primeiro governo, o presidente Lula fez um apelo à sua equipe: “nós só não podemos errar na política”. A imprensa e a oposição temiam o caos na economia. Aconteceu exatamente o contrário: com indicadores favoráveis na economia e nas áreas sociais, é na política que se concentram as maiores dificuldades do governo, mesmo tendo maioria nas duas casas do Congresso. Como o senhor explica essa contradição? Há uma solução à vista?


Franklin Martins – Eu concordo que, no primeiro mandato do Lula, os principais problemas do governo estavam na política. Embora ele vivesse um momento muito tenso na questão econômica, pelo ajuste que teve que fazer e pela incompreensão que isso gerou na base dele. Do primeiro para o segundo mandato, o governo reequacionou os instrumentos de ação política dele. A relação com a imprensa, que é parte disso, tornou-se mais profissional, embora permaneça com um grau de tensão grande. Mas ela é administrada de forma mais profissional. Acho que a relação com os partidos e o Congresso melhorou. Hoje em dia você tem um Conselho Político, tem 14 partidos na base aliada, o governo entendeu a importância de um partido como o PMDB na sua base e isso dá condições ao governo de um trabalho parlamentar menos tumultuado que o do mandato anterior.

iG – Mas recentemente o governo sofreu uma dura derrota na votação da CPMF.

FM – Na CPMF não me surpreendeu. Nunca achei que o governo tinha os 60% dos votos no Senado. Mas acho normal. Vai ganhar algumas votações, vai perder outras, e isso faz parte do processo político. Acho, no entanto, que essas dificuldades não têm a ver com o governo, têm a ver com o nosso sistema político. Eu continuo com a avaliação que tinha antes de vir para o governo e apenas se consolidou de que o Brasil precisa desesperadamente de uma Reforma Política.

iG  – Por que então o governo não toma esta iniciativa?

Ubirajara Dettmar
FM – Porque quem vota a Reforma Política são os políticos. A Reforma Política tem que ser aprovada no Congresso. Em determinadas circunstâncias, ela tem que ser aprovada por 3/5 do Congresso, da Câmara e do Senado duas vezes. Vamos pegar o início desse governo: começou-se a discutir a necessidade da Reforma Política. Apareceram as propostas de voto em lista fechada. Porque daria condição de fortalecer os partidos, embora com o risco de fortalecer excessivamente a burocracia dos partidos. Tenderia em médio prazo a ter um processo de consolidação de alguns partidos e permitiria uma coisa muito importante, o financiamento público. Porque aí você financiaria o partido, e não os candidatos. Se você financia individualmente o candidato, daqui a pouco, vira profissão. A pessoa se candidata para receber dinheiro. Começa a discussão e, nesse caso, não se precisaria 3/5, não alteraria a Constituição.

Setores da oposição fazem a seguinte avaliação: isso favorece principalmente o PT. Porque é o partido com identificação com o presidente e como a sigla mais forte isso fortaleceria o PT. “Então nós somos contra”, disse a oposição. O PSDB respondeu o seguinte: só aceito reforma com o voto distrital. Voto distrital precisa reforma da Constituição, precisa dos 3/5. Então, quer dizer: não haverá reforma alguma. Chegamos a um emparedamento nessa questão. O que eu defendo como sistema adequado seria um sistema misto, mais ou menos como o que existe na Alemanha, onde a Câmara é formada com base no voto proporcional. O eleitor vota duas vezes, no distrito e num partido nacionalmente. A Câmara é formada proporcionalmente pelos votos no partido. Uma parte dela é formada pelos distritais e uma parte por lista fechada. Eu acho que é o melhor sistema.

iG – Com uma oposição fraca e sem rumo e uma mídia forte, alguns setores da imprensa e jornalistas acabam assumindo o papel de partidos políticos. Como é lidar no dia-a-dia com essa anomalia institucional?

FM – Com humildade. Eu sei que não está sob meu poder mudar isso. Se existe um determinado jornalista ou órgão de imprensa querendo ir além de suas chinelas, eu não posso evitar isso. O que posso fazer é tratar todos de forma profissional e respeitosa e confiar nos leitores, telespectadores e ouvintes. Eu estou absolutamente convencido que o Brasil não é um País de coiotes, de jacus, que acreditam em qualquer coisa que falam para ele. A população pode se confundir, ser objeto de algum tipo de manipulação, por um período curto, mas em um período histórico mais amplo os fatos aparecem, a verdade aparece. Como no caso da TAM. Nunca vi tanto especialista em grooving como naquela época e hoje em dia as pessoas sabem que não teve problema de grooving, as pessoas sabem que houve uma falha mecânica combinada com uma falha humana.

iG - E como ficou o governo nesta história do caos aéreo?

Ubirajara Dettmar
FM – Isso quer dizer que não houve erros do governo na administração do setor aéreo? Claro que houve, mas isso não quer dizer que aqueles erros provocaram o acidente. A população forma sua avaliação quando consegue debater, discutir, por isso que a democracia é importante. Ela acaba formulando avaliações muito mais equilibradas. Eu sou muito tranqüilo quanto a isso. Às vezes, eu ponho em dúvida essa crença porque você olha e diz: “de novo? Será que nunca aprendem?”. A vida é assim mesmo e vamos em frente.

iG – Nas muitas viagens que o senhor já fez com o presidente Lula pelo Brasil, quais foram as cenas que mais o marcaram e que simbolizam o atual momento vivido pelo País?

FM – Foram duas coisas que me marcaram muito. Elas ocorreram em abril deste ano. A primeira aconteceu no dia em que o presidente foi dar a autorização para o início das obras, assinar a autorização do início das obras nas favelas do Alemão, da Rocinha, de Manguinhos.  A descida da favela da Rocinha me deixou arrepiado porque eu sou do Rio, conheço bem a Rocinha. O ato foi no alto da Rocinha, onde tem uma espécie de campo de futebol, uma quadra onde será construído um hospital, as obras já estão avançadas. Na descida pela antiga estrada da Gávea, a população ocupou a rua e formou assim um corredor dos dois lados ao longo de 1,5km, 2km, que é o que tem aquele trecho.

Uma coisa absolutamente espontânea e com uma enorme alegria. E então você via os acenos, ouvia aplausos das pessoas nos pequenos prédios e apartamentos que tem ali. A Rocinha tem muitos sobrados de três andares... As pessoas foram chegando nas janelas, algumas com bandeiras do Brasil.  E você sentia o seguinte: havia uma enorme alegria na favela porque ela estava sendo tratada com respeito. Isso para mim foi uma coisa que marcou. Duas semanas depois, o presidente foi ao Rio Grande do Sul. Na cidade de Rio Grande, visitou as obras do dique seco, que a Petrobras está construindo lá, que vai ser uma fábrica de cascos de navio, de plataformas, etc. E lá que estão construindo a P-53 que está quase finalizada. Ou seja, um local em que a indústria naval hoje em é uma indústria de peso. E ela praticamente não existia antes. A P-53 é uma coisa que impressiona, é do tamanho de um Maracanã. Ela está fundeada junto ao cais e na chegada você tinha ali, provavelmente, uns 5000 operários. A reação dos trabalhadores foi de uma força, também absolutamente espontânea. Foram gritos de entusiasmo, de alegria, vários dizendo coisas positivas para o Lula. “Lula, você é um operário que chegou lá”, “Você é um como a gente que está aqui”, “A nossa dignidade você restituiu, hoje em dia nós temos emprego”.

iG – “Você é um como a gente”, parece que resume tudo...

FM - É uma coisa fortíssima, pessoas chorando ali e até na comitiva do presidente.  Então você sente o seguinte: pessoas que há dois, três anos não tinham emprego, agora acham que está dando certo e confiam que vai dar certo. O clima que existe é o seguinte: o Brasil tem jeito, o Brasil pode ser o que a gente acha que ele deveria ser. As pessoas voltaram a confiar no País e na sua capacidade. E isso não tem preço. Como no anúncio do cartão de crédito: isso não tem preço.

iG – Quais são seus planos para o final do seu trabalho no governo Lula em 31 de dezembro de 2010: voltar para as redações, entrar na carreira política ou pendurar as chuteiras?

FM – Entrar na carreira política não está nos meus planos. Eu não sei o que eu vou fazer. Eu sei o que eu não vou fazer. Eu não vou mais ler jornal ruim. Só vou ler jornal que eu acho que é bom.

iG – Quais?

FM – Aí não posso ir tão longe. Eu quero terminar um trabalho que eu tive de interromper sobre música brasileira que estava quase pronto. De 1902 para cá, tenho  as gravações, desde a primeira do Isto é bom. 

iG – Há quanto tempo você trabalha nisso?

FM – Pesquiso há sete anos. Eu tenho 600 músicas levantadas desde 1902 para cá. Tenho os capítulos escritos até quase o golpe, até 1964. Precisaria ainda de mais ou menos quatro meses de trabalho, porque a pesquisa, que era o mais importante, falta pouco para terminar. Quando sair do governo, vou fazer isso. Primeiro, porque eu gosto; segundo, acho que fará bem ao País, terceiro, é uma coisa que pode ser uma contribuição para a história da nossa música. O que eu vou fazer depois eu não sei, eu quero dar um tempo para mim. A idéia é que seja um livro e que tenha uma coleção de músicas que está tudo em mp3. Eu não quero fazer uma coisa com 600 músicas, mas algo com 350, 400... Eu tenho uma seleção já feita, o resto eu boto em um site e quem quiser vai lá. A idéia do título seria “A música e a República: 1902 – 2002” porque iria até a primeira eleição do Lula. Depois que eu terminar quero dar um tempo pra mim pra ficar um pouco mais à vontade.

iG – Onde você pretende morar depois que sair do governo?

FM – Há 21 anos estou em Brasília. Eu quero continuar aqui. Eu gosto muito de Brasília.

iG – É raro alguém falar isso.

FM – Em geral, é gente que não mora em Brasília. É quem vem de fora e fica em hotel. Quem mora há muito tempo aqui, gosta de Brasília. Meu ideal de felicidade é comer peixe frito na beira do mar... andar na praia de manhã... pescar... Pescar, não, não gosto de pescar. Não dá.  

Entrevista exclusiva:





US Multimídia


Publicidade


Enquete