19/06 - 19:34 - Ricardo Kotscho
Nos últimos tempos, só tenho ligado a televisão para ver futebol. Virei o maior freguês dos tais pacotes de “pay-per-view”, e então acabo vendo tudo quanto é jogo, transmitido de qualquer biboca ou capital do mundo.
Quando não é o meu São Paulo que está jogando, decido logo por qual time vou torcer e me desligo do mundo. Às vezes, é até melhor, porque dá para se divertir sem ficar nervoso nem xingar o juiz.
| Getty Images |
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| Felipão deixou o campo chorando |
Se você quiser ver um bom futebol hoje em dia, porém, nada melhor do que ligar a televisão na Eurocopa ou em qualquer jogo dos principais campeonatos europeus. Pena que bons jogos passem em dias de semana, à tarde, quando a gente está trabalhando.
Por sorte, consegui ver na tarde desta quinta-feira a belíssima partida em que a Alemanha venceu Portugal por 3 a 2 pela Eurocopa, em Basiléia, na Suíça, um jogo disputado na unha até o último minuto dos descontos.
Para quem teve o azar de assistir ao zero a zero de Brasil e Argentina, no Mineirão, na véspera, num dos mais modorrentos jogos que já vi entre os dois velhos rivais, foi quase um choque cultural.
Desta vez, nem precisei escolher um time para torcer, porque gosto dos dois: da Alemanha, porque é a terra dos meus antepassados, e de Portugal, o país para mim mais hospitaleiro depois do Brasil.
Como tem acontecido nos últimos confrontos entre as duas seleções, o futebol do time de Felipão e Cristiano Ronaldo vinha sendo mais aplaudido do que o da Alemanha.
Mas, no que o juiz sueco Peter Frojdfeldt apitou o início do jogo, foram os alemães que se lançaram em desabalada carreira ao ataque e, aos 25 minutos, já tinham feito 2 a 0.
Em vez de ficar só gritando com seus jogadores ou assistindo bovinamente a caminhada da vaca para o brejo, deixando as substituições para o segundo tempo, como os técnicos costumam fazer aqui, Felipão tratou logo de mexer no time; tirou João Moutinho e colocou Raul Meireles, reequilibrando o jogo.
Com a bola correndo de uma área para a outra, sem muitas firulas no meio de campo, o jogo pegou fogo. Apesar dos 2 a 0, a Alemanha não tratou só de se defender. Antes do final do primeiro tempo, Portugal descontou com Nuno Gomes.
O que Felipão falou para eles no vestiário, eu não sei, só sei que os portugueses voltaram com pilha total para o segundo tempo e sufocaram a Alemanha em seu campo, até o xará Ricardo tomar um garboso frango aos 15 minutos, numa cabeçada de Ballack, que empurrou com os dois braços e tirou da jogada o zagueiro português Paulo Ferreira.
Só o juiz Frojdfeldt não viu, mas toda a torcida que lotou o St. Jacob-Park pôde rever a mancada dele várias vezes nos telões do estádio. Sem entregar os pontos, Felipão colocou o jovem Nani (o Alexandre Pato deles, que a torcida do Mineirão pediu em coro, mas Dunga não ouviu) no lugar de Nuno Gomes e chegou ao segundo gol, aos 42 minutos.
Daí para a frente, Portugal encurralou de vez a Alemanha num final eletrizante. Mas, com chutes de longe e chuveirinhos na área, que os bem nutridos zagueiros alemães tiravam de letra sem ter que pular muito, o gol do empate não saiu, e Felipão se despediu mais cedo da seleção portuguesa. Vai treinar agora o Chelsea, na Inglaterra.
Depois de ver o clássico sul-americano do Mineirão na quarta-feira e este jogo da Eurocopa, chega-se à conclusão de que algo está mudando no mundo do futebol.
À parte a clamorosa inaptidão de Dunga para o cargo de técnico do Brasil, o fato é que não temos hoje em atividade no País nenhum craque fora de série, nenhum técnico excepcional e nenhum time que encha os olhos da torcida.
Temos que reconhecer: os melhores jogadores, técnicos e times - e, portanto, o melhor futebol do mundo para se ver na televisão - estão hoje na Europa. Por que será?
Por coincidência, isto acontece exatamente 50 anos depois do Brasil ganhar sua primeira Copa, na Suécia, encantando o mundo com um futebol ousado e criativo, alegre e cheio de gols, com talento e coração - o oposto do time sem alma de Dunga e companhia bela.

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