19/06 - 12:11 - Ricardo Kotscho
Na terceira parte da entrevista, concedida com exclusividade a Ricardo Kotscho, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, jornalista Franklin Martins, fala sobre caso Varig, oposição e escândalos.
Ubirajara Dettmar 
iG – Sai a CPI dos Cartões, entra o caso Varig. De crise em crise, a aprovação do presidente sobe nas pesquisas. Entre uma e outra, a imprensa volta falar no terceiro mandato. Como é viver nessa gangorra com boas notícias na economia e sempre com o fim do mundo sendo anunciado para amanhã?
Franklin Martins – Acho que talvez a coisa mais dramática que estejamos assistindo no Brasil é a incapacidade, revelada pelo menos até o momento, e espero que isso mude, da oposição e de alguns setores com influência na mídia de botar o pé no chão e olhar para a realidade. Por que nós temos essa sucessão de falsos escândalos? Mês de janeiro, eu olhei e pensei: “vou ter um pouco de tranqüilidade porque o Congresso está de recesso”. Vã ilusão. Veio um negócio que era um apagão iminente de energia. O Brasil ia ter uma crise de energia. Ninguém mais fala nisso, os reservatórios estão cheios. A febre amarela tomaria conta do País. A coisa da imprensa foi tamanha que teve gente morrendo por tomar mais de uma dose da vacina, por reação. Por quê? Porque fizeram um sensacionalismo em torno daquilo.
Depois, veio o negócio dos cartões corporativos. Parecia que era um escândalo monumental. Sempre disse que o cartão corporativo era um escândalo de titica. Porque ele era coisa da miudeza. A CPI era CPI da miudeza porque, por definição, cartão corporativo e conta tipo B são para pequenos gastos. Ninguém ia fazer caixa de campanha, desviar dinheiro para ficar rico. Podia ter uma determinada irregularidade de um coordenador de despesa, podia ter uma despesa feita que não tivesse cobertura legal, erros contábeis. Aliás, como qualquer grande empresa tem nas pequenas despesas, qualquer um sabe disso. Quem já dirigiu uma Redação sabe que na prestação de contas, nas notas de viagem, há de tudo, aceitam tudo. Nesse sentido os cartões corporativos são um enorme avanço sobre as contas tipo B que aceitam tudo. Parecia que o mundo vinha abaixo e não tinha nada acontecendo. Aí veio um escândalo atrás do outro.
iG – E esse mais recente da Varig preocupa o governo?
FM – Isso é uma brincadeira. As decisões foram todas tomadas pelo juiz da 8ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro e confirmadas pelo STJ depois. Não tem ato do poder executivo fazendo aquilo. Eu não sei por que essa senhora, doutora Denise Abreu, fez isso. O que me espanta é que a imprensa dê o tipo de tratamento que deu às declarações dela. Até poucas semanas atrás, eu só tinha visto foto da doutora Denise Abreu de charuto na boca. De repente, vejo a doutora Denise posando e escolhendo qual o lado do rosto melhor para fotografar. Tudo bem, mas o que tem de concreto? Não tem nada nas denúncias. Ubirajara Dettmar 
Sinceramente, acho que os filtros da imprensa caíram muito. Tudo bem que dessem a entrevista, ela está fazendo acusações, que dêem as acusações, mas vamos atrás para ver o que existe de real, de possível. Aí se esbarraria em uma coisa que é a seguinte: as decisões são tomadas pelo juiz. Hoje [quinta-feira passada] mesmo tem uma entrevista dele longa no “O Globo”, mais curta no “O Estado de S. Paulo”, e ela já havia dito isso antes, e ninguém tinha ido atrás, desde o primeiro dia. “As decisões foram tomadas por mim e eu não sofri pressão”, disse ele. Então, sinceramente, esses são assuntos para se trazer à tona, fazer essa ebulição, esse burburinho e que não se sustentam. Por quê?
iG - A que você atribui esta sucessão de escândalos sem fim desde a grande crise política de 2005?
FM - Eu acho que a oposição tem uma enorme dificuldade para travar o debate político, que precisa ser travado por uma razão simples: a oposição tem vergonha de defender o que ela pensa. Ela sabe que o que ela pensa não tem respaldo da maioria do País. Um exemplo disso foi a campanha do Alckmin. Ele era a favor das privatizações e foi posar com um jaleco, que parecia macacão de piloto de Fórmula-1, cheio de adesivos de Banco do Brasil e não sei mais o quê. A oposição era contra o Bolsa-Família, achava que era Bolsa-Esmola e não teve coragem de afirmar isso claramente na campanha. Porque, se afirmar, se defender seus pontos de vista, perde a eleição. Por outro lado, ela se sente mal em defender os pontos de vista com os quais ela não concorda. Então, o que ela faz? Dribla a disputa em torno das questões essenciais para o País e parte para uma questão periférica.
Isso não é um problema novo no Brasil. As décadas de 50 e 60 são marcadas por esta política. A UDN, em especial o Carlos Lacerda, fez isso o tempo todo. Já que não conseguiam ganhar as eleições, faziam uma campanha com um moralismo exacerbado, como se fossem catões de um lado e, do outro lado, um bando de ladrões. Botavam a questão moral com uma ênfase que enraivecia suas bases políticas, a ponto de se tornarem prisioneiros delas, e não ganhavam a eleição. Só que, naquela época...( toc toc toc, bate na madeira], batiam à porta dos quartéis. Bateram em 54, no suicídio de Getúlio. Bateram em 55 para negar a posse a JK. Bateram em 61 para negar a posse a Jango. E olha que eu pulei Aragarças, Jacareacanga, episódios menores. Eu estou só falando de coisas grandes até que, em 1964, conseguiram. Naquela época, batiam na porta dos quartéis e iam pedir ajuda dos Estados Unidos para interromper o processo democrático porque sabiam que não ganhariam a eleição.
| Ubirajara Dettmar |
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iG – Quais seriam estas bandeiras?
FM – A primeira providência: a oposição precisa tratar os apoiadores do Lula com respeito. “Vocês votaram no Lula porque receberam a esmola do Bolsa-Família, porque vocês foram corrompidos, é um novo coronelismo”. Quando entra com o discurso “esse sujeito é um ladrão”, “esse governo é um governo de patifes”, ela não estabelece pontos de contato para ser ouvida. O apoiador do Lula vai dizer: “é a oposição que não se conforma de não mandar mais no País”. Então ela não consegue dialogar, conversar com a fatia de eleitorado do Lula, e assim não consegue sequer promover um inicio de deslocamento do lado de lá para poder ganhar.
Por isso, a oposição não sabe o que dizer, não tem programa, não tem acordo e agride ou pelo menos trata de forma pejorativa o eleitor do outro lado. Eu não entendo onde ela quer chegar. Eu não falo isso com jubilo, falo isso chateado. Seria ótimo ter uma oposição forte no País. Mas uma oposição forte precisa ser uma oposição séria, uma oposição que pega os erros do governo, aponta, critica e força o governo a ser melhor, a se aproximar dos pontos de vista dela. Ela não propõe uma ação política que constrói politicamente para fazer disputa política na sociedade. Para isso, teria que defender o que ela pensa. Ela não pode esconder o que ela pensa e querer com esse artifício introduzir um elemento que é artificial na política hoje. E a população percebe isso.
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