17/06 - 15:07 - Ricardo Kotscho
Tem coisas que a gente vê no jornal e simplesmente não consegue acreditar no que lê. Com direito a chamada na capa e tudo, a “Folha de S.Paulo” de hoje denuncia em título de cinco módulos à página C7: “Cervejaria patrocina festa junina de colégio de SP”.
É mesmo? Que absurdo! Que ultraje aos bons costumes! Onde já se viu tamanho desrespeito?
Só faltava ter também quentão e vinho quente nesta festa...Pois não é que tinha? E o pior é que a escola oferece esses absurdos nas suas festas juninas há exatos 25 anos, posso testemunhar, como ex-aluno, pai e avô de alunos do Colégio Santa Cruz.
“Achei um absurdo uma empresa de cerveja patrocinar uma festa com tantas crianças e adolescentes”, disse um pai que não quis se identificar, segundo o jornal. Em que mundo este corajoso pai que não pode dizer o nome cria seus filhos?
Presente em todas as listas de melhores colégios particulares do país, há décadas, o Santa Cruz revolucionou a educação em São Paulo no final dos anos 50 do século passado.
Foi quando chegou ao país um grupo de padres canadenses da Ordem de Santa Cruz, de Montreal, liderados por Lionel Corbeil e Paulo-Eugene Charbonneau, trazendo na bagagem um novo modo de lidar com jovens e adolescentes, ensinando-os a conciliar liberdade com responsabilidade, não os tratando como retardados mentais, mas abrindo seus olhos para a realidade social que os cercava.
Lá aprendi o pouco da vida que sei até hoje e recebi lições de cidadania mais do que de latim ou matemática. Gostava tanto do colégio, onde passava o dia todo - na minha época era regime de semi-internato -, que cheguei a pensar seriamente em ser padre, o que só não fui porque gostava muito de namorar.
Leio mais adiante, ainda sem acreditar: “Ele (o pai) afirma que, durante a festa, sua filha de 15 anos conseguiu comprar cerveja - a pedido dele - sem a menor objeção do responsável pela barraca”.
Eu estava na festa e vi quando o responsável por uma das barracas pediu documentos a um jovem que pediu chope - um cuidado com a lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos, que nunca presenciei em nenhum boteco da cidade. Por isso, até estranhei.
Detalhe: como em todos os anos anteriores, quem tomava conta das barracas eram os próprios pais dos alunos. Toda a renda da festa junina é revertida para as obras sociais do Colégio Santa Cruz, que são antigas e não são poucas (havia outras 133 empresas no patrocínio da festa, que reuniu mais de oito mil pessoas).
Ao ler a matéria do jornal, cheguei à conclusão de que o mínimo que se pode dizer do anônimo pai autor da “grave denúncia” é que ele colocou a filha no colégio errado e deve tirá-la imediatamente de lá.
Deve haver, certamente, algum outro colégio na cidade que só serve leite light, suquinho e papinha em suas festas juninas.
Para encerrar esse assunto ridículo, só uma perguntinha: em qual festa de família - e esta era uma festa de muitas famílias, inclusive a minha - não se serve uma cerveja às visitas?
Das duas uma: ou esse pai anônimo acaba de vez com todas as festas e as cervejas neste país ou deixa sua filha trancada em casa, que é menos perigoso - ou não?

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